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Rumo ao amor, dia 8: Fora de si

Era um novembro de solidão e desesperação. Procura-me a mim mesmo no deserto. Compreendi que não se comunica com os outros se não se consegue o reencontro consigo próprio, não nos reencontramos a não ser que redimensionemos as coisas à nossa volta.

No meio da multidão queres engrandecer, subjugar, dominar. Em vez disso, a imensidão do deserto pesa de tal maneira sobre cada coisa, que te reencontras como és: um pobre.

Em cada um de nós há uma aspiração ao sobrenatural e à comunicação que não pode ser frustrada pelo compromisso com a comodidade.

Muitas vezes aconteceu-me sofrer passivamente o refutar com raiva os acontecimentos da vida, oscilando entre momentos de adaptação e outros de rebelião, sem perceber bem se a minha índole era uma ou outra.

Dei-me conta de que nos momentos de paz interior conseguia adaptar-me à vida sem rebelar-me.

Quanto me custou aprender a arte da adaptação! Quanto foi difícil compreender que nem sempre o adaptar-se é sofrer, mas é sobretudo a sabedoria de quem chega a adquirir a forma da realidade para a poder tocar toda, e alcançar assim uma plenitude humana que escancara a estrada a novos tempos.



Creio que é fácil distinguir aquela sã loucura de quem parece fora de si, da loucura verdadeira de quem se considera saudável. Basta ficar atento a três coisas



«Não acrediteis que o Reino dos Céus esteja longe, lá em cima, sabe-se lá onde… o Reino dos Céus está na palma da vossa mão»: Cronin expressou assim, de maneira extraordinária, onde encontrar o ponto de partida, o centro.

Muitas são as aldrabices que nos afastam deste centro: uma é colocarmo-nos na dimensão do conhecer, do saber, do raciocinar, de tal maneira que nos enganamos sozinhos, separando-nos das coisas e deixando de as viver. Adão foi o primeiro a querer conhecer, mas depois quanto lhe custou reencontrar aquele paraíso perdido dentro de si.

O que é que fazes de um milagre, se depois não sabes amar? O que é que fazes do conhecer, se depois não sabes viver? O que é que fazes do poder sobre as coisas, se depois não sabes sequer governar-te a ti mesmo? Este nosso engano de partir do poder, dos entusiasmos fáceis, do espetacular, do conhecer, quando Deus, por seu lado, parte sempre de um pedaço de pão e da palma da tua mão.

Este nosso fugir da concretude da vida, do tomar a forma da vida, impede-nos de abraçar a força com a doçura, a sabedoria com a loucura. «É preciso ser-se forte para poder ser infinitamente doce, e ser sábio para permitir-se ser louco», diz a Ir. Madalena de Jesus.

Creio que é fácil distinguir aquela sã loucura de quem parece fora de si, da loucura verdadeira de quem se considera saudável. Basta ficar atento a três coisas.

A constância, tão diferente do entusiasmo passageiro e da instabilidade do herói ou do louco.

O realismo: os escribas e os fariseus diziam a Jesus que era um sonhador, e os apóstolos que estava fora de si. Eles, tão cheios de leis e de racionalidade, diziam que a sua criatividade e as suas intuições pareciam fora do mundo, sem realidade. Pelo contrário, Jesus era o mais realista, conseguia avaliar os riscos, as situações, pedindo a cada pessoa aquilo que podia dar, e não mais.

A audácia, que não se faz bloquear pelos medos, que não se contenta, que proporciona as forças àquilo que deve ser feito, mesmo quando estás só contra todos.


 

Luigi Verdi
In La realtà sa di pane, ed. Romena
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: kav38/Bigstock.com
Publicado em 03.03.2020 | Atualizado em 04.03.2020

 

 
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