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Fraqueza evangélica e fragilidade humana

O grande monge Bernardo de Claraval cunhou uma exclamação extraordinária: «Optanda infirmitas!», «ó desejável fraqueza!». Na vida de cada um de nós é de facto decisivo experimentar a fraqueza, experiência inevitável que nos pode dar a consciência do não sermos Deus, mas criaturas “desprovidas”, necessitadas da presença e do cuidado das outras. Experiência que pode proteger, se a cegueira não é dominante, do orgulho, do narcisismo e do culto ególatra do próprio “eu”.

Infelizmente, no entanto, sobretudo no espaço cristão, em vez de se colher toda a bem-aventurança possível ínsita da fraqueza, erguem-se muitas vezes hinos à fragilidade. Há uma forte confusão na linguagem no que se refere a fraqueza, fragilidade e vulnerabilidade, e isto não favorece um caminho autêntico de crescimento humano e cristão. A ênfase com que se fala e invoca a fragilidade como justificação de muitos comportamentos é apenas uma estratégia para capturar pessoas frágeis e exercitar sobre elas um poder e uma atração que não estão no espaço da caridade e da solidariedade.

As pessoas frágeis devem ser ajudadas a aceder à fortaleza, que é, significantemente, uma das quatro virtudes cardeais. A sua fragilidade pede sobretudo a quem a encontra que aprenda a sentir-se vulnerável: vulnerabilidade não é fragilidade! No esvaziamento e abaixamento em Jesus Cristo, Deus fez-se vulnerável, verdadeiro homem com uma vida na carne, e assim se mostrou solidário connosco até à morte. As feridas, os estigmas da paixão, que permanecem inclusive no corpo glorioso do Cristo ressuscitado, narram esta vulnerabilidade de Deus para sempre. Sim, em nós, humanos, a vulnerabilidade é lugar de encontro com Deus e com os outros; desta forma não é uma fraqueza, mas é a nossa força. É assim que se podem compreender as paradoxais palavras do apóstolo: «Quando sou fraco, é então que sou forte» (2 Coríntios 12,10).



Muitos gostam de instrumentalizar a fragilidade dos outros para conservar o poder exercido sobre eles psicologicamente e com inconsistentes acenos terapêuticos



Vulnerabilidade significa capacidade de se ser ferido, abertura e exposição ao outro, e nasce da confiança, renúncia ao controlo, desejo de abertura ao outro. Da vulnerabilidade nasce a fraternidade, porque cai o muro da indiferença, desaparece o véu da lei, e o coração de pedra transforma-se em coração de carne. Por isso, não é a fragilidade que deve ser procurada, porque ela, como todo o mal e toda a pobreza, é-nos dada pela vida e pelos acontecimentos em que estamos imersos; é preciso, antes, procurar a fortaleza, para sermos livres da fragilidade e viver em plenitude. Que a fragilidade não seja, portanto, um álibi que esconde a impotência ou a incapacidade de tomar em mãos a própria vida.

Viver requer ter confiança na vida, lutar em favor da vida e amá-la com todas as suas forças. A existência de cada um de nós não é feita de ações heróicas e prodigiosas, mas perde sabor e sentido se é entregue à fragilidade, à indolência, à inércia, ao inacabado. E a virtude da fortaleza – seja claro – não tem nada a ver com a dureza ou a violência, porque exige uma luta contra os impulsos mortíferos que habitam o coração humano; ela requer coragem, audácia, determinação e, sobretudo, perseverança, com a qual – disse-nos Jesus – é possível «salvar» as nossas vidas.

É preciso, portanto, mais do que nunca vigiar para não sermos seduzidos por estas contínuas justificações da fragilidade, até porque a experiência me diz que muitos acabam, de facto, por se servir egoisticamente da fragilidade alheia, sempre defendida, para assim defender as próprias; gostam de instrumentalizar a fragilidade dos outros para conservar o poder exercido sobre eles psicologicamente e com inconsistentes acenos terapêuticos. Nas vidas comunitárias e familiares conhecem-se bem estas derivas que impedem uma verdadeira comunhão e contradizem um caminho comum, enquanto justificam no interior da convivência humana caminhos privados de qualquer convergência e sem qualquer solidariedade fraterna.

Por isso, não confundamos fragilidade com vulnerabilidade, e não esqueçamos que a fortaleza é uma virtude cardeal, pedra angular para a vida humana e cristã.


 

Enzo Bianchi
In Monastero di Bose
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Mehmet Doruk Tasci/Bigstock.com
Publicado em 26.12.2019

 

 
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