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Morreu o padre astrónomo que reabilitou Galileu na Igreja e ampliou diálogo entre ciência e teologia

Ganhou o apelido de “astrónomo do papa” por ter estado quase três décadas, de 1978 a 2006, à frente do Observatório Astronómico do Vaticano, estabelecendo o recorde de duração como diretor da prestigiada instituição: morreu aos 87 anos, a 11 de fevereiro, o jesuíta e astrónomo norte-americano George Coyne.

Entre os dados singulares da sua longa existência está o facto de ter sido uma das poucas nomeações feitas durante o breve pontificado de João Paulo I. Até há poucos meses dirigiu uma equipa de investigadores astrónomos da Universidade do Arizona.

Nascido a 19 de janeiro de 1933 em Baltimore, no estado de Maryland, George Coyne entrou na Companhia de Jesus aos 18 anos, tendo sido ordenado padre em 1965. Antes, diplomou-se em matemática (1958), e quatro anos depois obtémo doutoramento em astronomia na Universidade de Georgetown, de Washington. De 1963 a 1976 trabalhou no Lunar and Planetary Laboratory da Universidade do Arizona, onde, nos quatro anos seguintes, foi investigador e professor do Departamento de Astronomia, que dirigiu em 1979 e 1980.

O seu principal campo de investigação foi o estudo da polarimetria de vários objetos astronómicos, nos quais se incluíram as superfícies da Lua e de Mercúrio, o meio interestelar, estrelas com atmosferas extensas, as Galáxias de Seyfert, galáxias espirais com estrelas centrais muito pequenas e brilhantes. Os seus últimos estudos centraram-se na polarização produzida nas variáveis cataclísmicas e sobre a interação entre sistemas estelares binários que emitem enormes quantidades de energia.



«Galileu nunca teve a oportunidade de falar sobre a sua ciência», mas «antecipou em quatro séculos o que a Igreja haveria finalmente de dizer sobre a interpretação da Escritura»: «Galileu disse que a Escritura foi escrita para nos ensinar como ir para o Céu, não como é que os céus funcionam»



O P. Coyne foi um «exemplo de líder carismático e de cientista, bem como de divulgador. Sob a sua direção, o Observatório modernizou-se. Que repouse na paz do Senhor», referiu a instituição do Vaticano no Twitter. No jornal da Santa Sé, “L’Osservatore Romano”, o atual diretor do Observatório, Ir. Guy Consolmagno, também jesuíta, evocou a capacidade do confrade de ter promovido «o diálogo entre ciência e teologia ao nível máximo».

«Faz boa ciência», foi a recomendação que o P. Coyne dirigiu a Consolmagno quando ele foi admitido no Observatório, em 1993. «Ele criou um espaço onde todos nós éramos livres de ir atrás dessa ciência», e «fez muito para promover as mulheres na astronomia», afirmou ao Catholic News Service.

Em estreito contacto com João Paulo II, organizou, nos anos 90, uma série de conferências sobre a ação de Deus no universo na sede do Observatório, em Castel Gandolfo, próximo do Vaticano, em colaboração com o Center for Tehology and the Natural Sciences de Berkerley, na Califórnia. A carta endereçada pelo papa polaco ao P. Coyne por ocasião dos 300 anos dos "Principia mathematica" de Newton é uma das mais pormenorizadas declarações da teologia católica sobre a relação entre ciência e fé.

Ao longo do seu mandato, o P. Coyne apostou na modernização do papel do Observatório Astronómico do Vaticano no mundo da ciência, acolhendo na sua equipa jovens astrónomos provenientes de várias partes do mundo, como África, Ásia e América do Sul.

Sob a sua direção foi instituído na Universidade do Arizona o Grupo de Investigação do Observatório do Vaticano, e em colaboração com essa universidade foi possível construir o Telescópio do Vaticano de Tecnologia Avançada, como o primeiro espelho “spin-cast” do mundo, no monte Graham, no Arizona.



«O conceito que Stephen Hawking tem de Deus é que Deus é algo de que precisamos para explicar partes do universo que não compreendemos. Eu disse-lhe: “Stephen, desculpa, mas Deus é um Deus de amor. Não é um ser que eu transporto para explicar coisas quando eu próprio não as sei explicar”»



Foi também devido ao aconselhamento do P. Coyne que durante o pontificado de João Pailo II se abriu de maneira decisiva o debate entre feé e ciência, que conduziu depois à reabilitação, por parte da Santa Sé, de Galileu Galilei, obrigado a abjurar das suas ideias científicas pelo Santo Ofício.

O P. Coyne fez parte da Comissão de Estudo do Caso Galileu, instituída por João Paulo II em 1981, dirigindo-lhe o grupo de trabalho científico-epistemológico. A Comissão apresentou as conclusões em 1992, chegando à completa reabilitação de Galileu, com as indicações fitas pelo então cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

«Galileu nunca teve a oportunidade de falar sobre a sua ciência», sublinhou o P. Coyne em 2012, mas «antecipou em quatro séculos o que a Igreja haveria finalmente de dizer sobre a interpretação da Escritura»: «Galileu disse que a Escritura foi escrita para nos ensinar como ir para o Céu, não como é que os céus funcionam».

O religioso considerava que o dinamismo do universo, que ainda não se sabe para onde tende, não influencia o seu autor: «Será que isso limita Deus? Será que o minimiza? Acho que não. Acho que glorifica Deus».



Questionado acerca dos motivos que conduzem pessoas crentes em Deus a rejeitar os conhecimentos científicos, o P. Coyne considera que não se trata de ignorância científica ou religiosa: «Elas não querem enfrentar o desafio de juntar tudo. Mas não há conflito – desafio, sim



O investigador afirmou que a maioria dos cientistas ateístas que conhecia respeitavam profundamente a fé, e aqueles que não têm essa atitude, não a respeitam: «O biólogo evolucionista Richard Dawkins, que escreveu “A desilusão de Deus”, e o físico teórico Stephen Hawking, autor de “Breve história do tempo”, são cientistas eminentes. Mas não compreendem o que é a fé religiosa. Eu tive conversas com ambos, e disse-lhes. Eles respeitam-me porque compreendem que eu sou um cientista objetivo e trabalhador, tal como eles».

«O conceito que Stephen Hawking tem de Deus é que Deus é algo de que precisamos para explicar partes do universo que não compreendemos. Eu disse-lhe: “Stephen, desculpa, mas Deus é um Deus de amor. Não é um ser que eu transporto para explicar coisas quando eu próprio não as sei explicar”», referiu.

«Uma vez disse a Richard Dawkins: “Richard, porque é que casaste com a tua mulher? É por ela ter olhos azuis, pintar as unhas de vermelho, ter cabelos encaracolados?” Quando se juntam todos os factos na experiência humana geral - não apenas na experiência religiosa -, não se consegue explicar tudo racionalmente. A experiência humana tem um carácter não-racional. Isso não a torna irracional. Tu não és louco – podes ser louco no amor –, mas tudo isso significa que não se pode explicar tudo», acrescentou.

Questionado acerca dos motivos que conduzem pessoas crentes em Deus a rejeitar os conhecimentos científicos, o P. Coyne considera que não se trata de ignorância científica ou religiosa: «Elas não querem enfrentar o desafio de juntar tudo. Mas não há conflito – desafio, sim. Mas não consigo ver que possa haver qualquer conflito entre a verdadeira fé religiosa e a verdadeira ciência».


 

Rui Jorge Martins
Fontes: Avvenire, US Catholic
Imagem: P. George Coyne | D.R.
Publicado em 14.02.2020

 

 
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