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Rumo ao amor, dia 15: Gratuidade

Era o dia dos meus 40 anos. A manhã e o almoço vivi-os com os meus pais em Romena, ao anoitecer tive um encontro a uma hora de viagem. Regresso a casa no coração da noite, tento recompor os acontecimentos do dia, perguntando-me aquilo que destes 40 anos permanece e aquilo que me salvou.

Três momentos tornam-se claros e mestres.

Estava com o meu pai, uma manhã, a limpar um sótão, ele como sempre nervoso e agitado, aproximativo e irónico; a determinado momento, da pequena janela, vê, ao fundo no campo, um corço a correr, chama-me exclamando: «Olha que belo!». Sim a atenção, para além de dentro da agitação e do nervosismo, salvaram-me.

Estávamos ao almoço, o meu pai e a minha mãe na fria cozinha de Romena, esboça-se um festejo; a certa ponto, chega um rapaz, a minha mãe põe-se logo de pé, oferece-lhe de imediato o seu lugar e diz: «Vem, come connosco». Sim, o acolhimento é o segundo dom que me salvou.

Ao fim da tarde, no encontro, falo, sintetizo, vou ao coração, e ouço dizer-me no fim: «Foi belo o que disse, corajoso, inteligente…». Mas eu nunca fui inteligente, “chumbei” um ano, estudei com muito esforço, não era grande coisa na escola, mas é verdade que desde há dezoito anos, todas as manhãs na missa, exprimo um pensamento sobre as leituras do dia. Na noite anterior leio os textos da Sagrada Escritura que depois me envolvem durante o sono, e de manhã cedo acolho-os à estrela da madrugada para os meditar. Não se trata de inteligência, mas de exercício de muitos anos.



O bom samaritano é uma grande referência para compreender o valor de cada amor gratuito, de um verdadeiro amor gratuito. Ele realiza ações para quem sofre que correspondem a quatro graus de amor



Agradeço sempre pela atenção do meu pai, pelo acolhimento da minha mãe, pelo exercício de todos os dias: três pérolas que me fizeram aplacar e levar a vida por diante.

Esta minha vida na qual não sou necessário, mas como qualquer pessoa sou insubstituível, na qual preencho um espaço vazio que nenhum outro tomará. Ninguém me substitui, faltará sempre o dom que, como pessoas, somos. E é por isso que o amor verdadeiro é a maior descoberta que podemos fazer.

Só quando em mim me unifiquei consegui dar de maneira gratuita, as outras vezes estava à mercê de condicionamentos, das emoções, do ambiente. Quando estamos vazios de amor, andamos sempre à procura de alguém que nos ame e nos eleve.

O bom samaritano é uma grande referência para compreender o valor de cada amor gratuito, de um verdadeiro amor gratuito. Ele realiza ações para quem sofre que correspondem a quatro graus de amor.

Em primeiro lugar, «teve compaixão», com-padecer, sofrer com ele e compartilhar. A compaixão não é uma sensação interior ou passageira, ou um vago sentimento, mas uma ação em direção da miséria, de qualquer género.

Depois, segundo grau de amor, «tomou-o sobre si», encarrega-se dele. Não só se compadece, mas inicia o verdadeiro esforço do amor: agir.



É muito precioso o amor gratuito, e para o fazer nosso devemos cuidar-nos mais, cuidar da doçura do nosso olhar, até o aperto de mão e o abraço, até termos uma espessura de ternura



E depois o terceiro grau de amor: levou-o ao albergue e fez tudo aquilo que podia fazer, «até que ele ficasse curado». Encarregar-se dos outros, não só quando custa pouco, mas enquanto o outro não for capaz de caminhar sozinho.

Mas o máximo do amor e a verificação de todo o amor gratuito é desaparecer sem esperar gratificações ou agradecimentos. O samaritano, depois de ter feito todo o possível, «partiu».

As irmãs de Madre Teresa, a cada manhã, antes de partirem para os seus pobres, fazem uma hora de adoração e de oração silenciosa. Sem humildade e meditação, as nossas ações são sem significado. Mesmo o agricultor que semeia não sabe como a semente faz para crescer, só a vê dia após dia. Cresce sem que ele faça nada. Não somos nós a fazer, nós a criar, nós a ter de agir, é Deus que faz crescer e olha com olhos de bondade e de paciência.

Quando fazemos alguma coisa pelos outros, vivemos a desproporção narrada no Evangelho. Cinco pães e dois peixes para 50 mil pessoas, esta é a desproporção. Oferece-se aquilo que não se tem, coloca-se à disposição aquilo que não chega sequer para nós. Esta gratuidade que não espera que tudo funcione, mas que tem é grata pelo pouco que tem; porque aquilo que conta nunca é um sinal extraordinário, mas autêntico e discreto.

A cada pequeno serviço que faço, repito a palavra que Jesus disse a Zaqueu: «Hoje vou almoçar a tua casa». Eu preciso de ti, não eu mas tu, podes dar-me algo.

Este Deus que ama apesar do pecado, para além dos méritos, que não se resigna e que dá o primeiro passo.

Este Deus semelhante à nossa mãe, que em pequenos, quando estávamos próximos do seu aniversário, nos dava algumas moedas a mais, para que comprássemos um presente, e que depois, quando lho levávamos, se alegrava, se maravilhava por aquilo que ela própria tinha dado, e talvez até lhe descessem duas lágrimas.

É muito precioso o amor gratuito, e para o fazer nosso devemos cuidar-nos mais, cuidar da doçura do nosso olhar, até o aperto de mão e o abraço, até termos uma espessura de ternura. É daqui que pode começar o nosso caminho para um amor amadurecido.


 

Luigi Verdi
In La realtà sa di pane, ed. Romena
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Golib/Bigstock.com
Publicado em 10.03.2020

 

 
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