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“Idiot prayer”, de Nick Cave: Um coração repleto de desejo

“Idiot prayer”, de Nick Cave, é um espetáculo gravado há um mês, em Londres, no Alexander Palace, e que foi transmitido em “streaming” para todo o mundo no mesmo dia, 23 de julho. A estrutura em que Nick Cave já tinha tocado aparece como um transatlântico abandonado, efeito do coronavírus, ancorado no pulmão verde da cidade inglesa. Recorda “A lenda de 1900”, de Giuseppe Tornatore. Nick está sozinho diante de um piano construído por artesãos italianos, o preferido de pianistas de jazz como Angela Hewitt e Herbie Hancock.

«O espetáculo é o clímax mais luminoso», declara o próprio Cave, o ponto mais alto de um caminho ascensional iniciado com “20.000 day on Earth”, documentário de 2014 em que narra de maneira surreal e sincera a sua carreira artística. O degrau seguinte é “One more time with feeling”, de 2016, espetáculo intimamente ligado a “Idiot prayer”. O concerto de há um mês assombra o espetador pela escassa cenografia e pela realização. Os enquadramentos não se detêm demasiadamente em primeiros planos, muitas vezes partem do alto e preferem campos longos. Poderosíssima é a disposição do piano, não sobre um palco, mas no centro de um enorme espaço habitualmente ocupado por milhares de pessoas. Nick Cave está no meio, diante do seu público que, distante, o vê na rede da internet. Como se quisesse tocar-lhes e fazer-se tocar, sem tirar a atenção das canções.

Há trechos de “Grinderman”, banda nascida em 2006 como projeto paralelo aos “Nick Cave and The Bad Seeds”, e desfeita em 2011. “Man in the moon” é o momento mais tocante, juntamente com “Waiting for you”, em que Nick se esforça por se afastar do corpo do filho morto, como recita um verso da canção: uma âncora, que nunca pediu para ser solta». Porque um filho é uma âncora que nunca um pai quereria soltar do mar da vida.



Um espetáculo único, que não se repetirá nem será reproduzido em DVD nem em disco. Destinado, por isso, a permanecer impresso na memória do público em casa que soube escutar a sua dor e colher os sinais de uma presença que o consola



Nick torna a ser criança, os papéis invertem-se. Volta a ser aquele filho que há muitos anos perdeu o pai demasiado cedo. “Man in the moon” é um texto dividido em duas partes. Na primeira, ainda pequeno, acredita que o pai é um astronauta que está na lua, distante. Na segunda parte – a mais adulta – aceita a sua ausência, está consciente dela. As luzes de cena mudam segundo as canções interpretadas, como se fossem fatos tecidos sobre uma voz que assume várias matizes e tonalidades, o instrumento musical a par do piano através do qual Nick canta as suas feridas, e sobretudo o desejo, o tema musical que subjaz ao espetáculo.

A canção “(Are you) The one that I’ve been waiting for?” é o centro sobre o qual gravita a esperança de Nick Cave. Canta sobre uma mulher capaz de mudar o curso da sua vida. Na narração musical, Cristo torna-se uma referência para compreender o desejo de vida, apesar da certeza da morte e de uma eternidade em que acreditamos pouco. Na canção que dá título ao concerto, o Paraíso é descrito como um lugar em que tudo é perdoado, onde se poderá encontrar de novo a pessoa desejada. A eternidade torna-se extensão de alguma coisa de belo vivido e que quer encontrar no além aquilo que na Terra está destinado a perecer, mas que não se quer perder.

Cristo é várias vezes citado nas canções propostas, aparece como o rei de um reino que Nick Cave visitou mas sem dele receber cidadania. “Into my arms” torna-se mais sombria por uma interpretação em nada consoladora. A distância de Jesus parece insuportável, Nick diz que não acredita num Deus intervencionista, todavia vacila diante das suas próprias palavras. A voz é trémula, dolente e profunda, voz de alguém que luta contra a incredulidade que o caracteriza. A canção tocada ao piano no álbum “The boatman’s call” soa como um peça punk tocada numa guitarra distorcida, uma canção de amor áspera e angulosa. No centro da narrativa já não está a amada que se tem apertada entre os braços, mas Deus, a quem gostaria de a confiar.

Atravessa-o uma inquietação, é um outro Nick Cave, consciente da sua força, mais corajoso ao mostrar as suas fraquezas, porque acompanhado por uma graça que nunca o deixa só. Alcançou a perfeita alegria, habita estavelmente no meio de alegrias e dores de que todos conhecemos o horror e as consolações. No termo do concerto, Nick levanta-se e, em silêncio, sai por uma porta por onde passa um enorme feixe de luz. Vendo-o sair naquele fato elegante, perguntei-me que género de luz terá escolhido seguir; se uma luz intermitente, que vai e vem, ou, como disse o papa Francisco em 2017, no Angelus da Epifania, aquele luz estável, uma luz gentil, que não tem ocaso, porque não é deste mundo: vem do céu e esplandece… onde? No coração. Naquele coração pleno de desejo que Nick Cave protege de ataques infernais. Um espetáculo único, que não se repetirá nem será reproduzido em DVD nem em disco. Destinado, por isso, a permanecer impresso na memória do público em casa que soube escutar a sua dor e colher os sinais de uma presença que o consola.









 

Massimo Granier
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Idiot prayer" | D.R.
Publicado em 29.07.2020

 

 
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