/head Igrejas para as cidades de hoje | Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Igrejas para as cidades de hoje

Os séculos de cristianismo que estão atrás de nós testemunham que quando a fé é pensada, ou quando todos os contextos em que ela se exprime não são ignorados, negligenciados ou deixados ao acaso, a fé consegue por si criar cultura. Sim, uma fé vivida com inteligência cria cultura, que se exprime tanto nas formas do pensamento quando nas expressões artísticas, sejam elas figurativas, musicais ou arquitetónicas. Mas em que medida hoje a fé cristã é capaz de gerar cultura, criando arte e beleza em imagens, em sons, mas também em espaços e lugares?

Se a beleza e a arte têm certamente um fim em si mesmas, não se deve esquecer que no cristianismo elas detêm também um significado e um valor testemunhal. Se Simone Weil chegou a afirmar que o canto litúrgico pode dar tanto testemunho quanto a morte de um mártir, nós podemos acrescentar que também um espaço de culto cristão é autêntica “martyria”, testemunho da fé. A história, inclusive a contemporânea, comprova que muitas vezes, onde os cristãos sofrem o martírio, simultaneamente são arrasados os seus locais de culto, afirmando assim que a vida dos cristãos e os seus espaços de assembleia formam um todo.

O renovado interesse pela relação entre liturgia e arquitetura a que se assiste há alguns anos está certamente ligado à tomada de consciência, após décadas de esquecimento, de como o espaço litúrgico é um lugar simbólico maior para a formação da identidade cristã. A crescente descristianização da sociedade ocidental representa uma oportunidade oferecida aos cristãos para repensar lugares e tempos de iniciação. Como todas as iniciações, também a cristã é eficaz na medida em que é um processo global que se dirige não só ao intelecto, mas também ao coração, à memória e ao corpo.



Sabemos bem como certas igrejas são verdadeiros obstáculos à oração e à experiência de Deus. Isto revela a extrema fragilidade ao qual o espaço litúrgico cristão está exposto



Ora, o espaço litúrgico, sobretudo no ato da celebração, é o lugar simbólico maior de formação da identidade cristã, porque faz ver o léxico e a gramática da vida cristã tal como forma transmitidas pela grande tradição. O espaço litúrgico é palavra «viva e eficaz» que opera e age sobre quem o habita, sobre quem dia após dia o frequenta, cooperando para a formação da identidade do cristão, e, portanto, da identidade da Igreja. O edifício-igreja de facto edifica a Igreja. Como a “ecclesia mater”, também o espaço de uma igreja é uma autêntica matriz espiritual na qual mulheres e homens cristãos são gerados para a fé.

O papel do espaço litúrgico na formação da identidade do cristão é tal, que, inevitavelmente, também as feiuras de um espaço litúrgico se tornarão, mais cedo ou mais tarde, deformações e patologias da vida espiritual de quem o frequenta. Sabemos bem como certas igrejas são verdadeiros obstáculos à oração e à experiência de Deus. Isto revela a extrema fragilidade ao qual o espaço litúrgico cristão está exposto. Por isso, como qualquer outra realidade cristã, precisa constantemente de ser evangelizado, ou verificado, renovado e corrigido à luz do específico cristão.  

A fragilidade do espaço litúrgico foi bem percecionada por aqueles que, na história da Igreja, foram reformadores, capazes de criar novas formas de vida espiritual. Basta pensar em S. Bernardo e na arquitetura litúrgica que criou, expressão visível do renovamento espiritual por ele empreendido.



O espaço litúrgico cristão é, com efeito, também ele “liturgia”. Esta verdade para nós irrenunciável atesta que a arquitetura litúrgica não o é se não for fruto do encontro entre a “ars celebrandi” e a “ars aedificandi”



Provavelmente o interesse atual pela arquitetura litúrgica testemunha a necessidade de um repensamento do espaço litúrgico à luz dos modelos de vida cristã, de Igreja e de liturgia indicados pelo Vaticano II. A busca pelo significado antropológico, bíblico, teológico e arquitetónico do espaço litúrgico é também expressão da vontade comum de redescobrir o valor e o significado originais do espaço litúrgico cristão, um espaço que faz a Igreja, através de uma gramática do habitar e do construir, do transformar e do celebrar.

É por isso uma exigência intrínseca ao cristianismo ter um lugar onde a assembleia santa é convocada “in unum” para celebrar o mistério da fé. Um lugar que não seja um simples contentor, nem a soma de elementos e espaços funcionais, mas que seja parte substancial da celebração. O espaço litúrgico cristão é, com efeito, também ele “liturgia”. Esta verdade para nós irrenunciável atesta que a arquitetura litúrgica não o é se não for fruto do encontro entre a “ars celebrandi” e a “ars aedificandi”.

Ao mesmo tempo, sabemos bem que a mais elementar manifestação pública da Igreja são aquelas igrejas que ela edifica no coração das cidades. Mas uma igreja é edificada numa cidade para que seja igreja para essa cidade, porque a cidade é sempre destinatária da presença da Igreja, e nunca um simples meio, e muito menos um mero instrumento. Não há Igreja sem cidade porque a salvação de Deus em Cristo é sempre para nós, homens.



Projetar e edificar uma igreja não significa apenas dotar a comunidade cristã de um lugar de culto, mas também transformar em realidade a ideia de que cada igreja é metáfora da presença da Igreja de Deus na “polis”



Esta é a razão pela qual a Igreja de Deus nunca foi e nunca poderá ser uma realidade apátrida. A cidade, efetivamente, ergueu-se para proteger a humanidade e favorecer processos de humanização contra o perigo de um nomadismo que destitui o homem e não lhe permite guardar a terra, e inclusive contra o predomínio absoluto do clã, que dá identidade ao singular, mas aprisiona-o no espaço da parentela e da semelhança. A cidade foi e é o lugar por excelência da construção e da manifestação do humano, o lugar mais fecundo para a expressão do “ethos” próprio, porque construir uma cidade significa fazer uma obra arquitetónica ética, ou seja, que diz respeito à relação dos seres humanos entre eles e com o espaço.

Neste sentido, projetar e edificar uma igreja não significa apenas dotar a comunidade cristã de um lugar de culto, mas também transformar em realidade a ideia de que cada igreja é metáfora da presença da Igreja de Deus na “polis”, na medida em que a Igreja se torna pública e se representa nas suas igrejas, que são uma forma elevada e diferente da linguagem.

Disseminadas no tecido urbano, as igrejas são a imagem ao mesmo tempo da proximidade e da alteridade daquilo de que são sinal. São lugares de beleza e testemunham um “ethos” que inspira e plasma relações belas e laços bons, de tal maneira que não só para os cristãos, mas para os crentes de toda a religião, construir os seus lugares de culto significa participar na construção ética de uma cidade.

Junto aos lugares e aos espaços público, e no meio das casas, as igrejas revelam o estilo da presença dos cristãos na sociedade, que é sempre, simultaneamente, proximidade na diferença e presença no serviço, na lógica da plena comunhão, e nunca da separação, ou, pior ainda, da contraposição. A fachada de uma igreja é o rosto da Igreja que na proximidade a todos diz acolhimento, partilha e consolação. Se são isto, as igrejas são o sacramento da presença de Deus no meio dos seres humanos. Uma presença na fidelidade a Deus e na companhia dos homens.


 

Enzo Bianchi
In Monastero di Bose
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Anthony Correia/Bigstock.com
Publicado em 22.01.2020

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos