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Incurável maldade?

O sentido comum de uma incurável maldade, de uma maldade para lá de toda a possibilidade de metamorfose, de uma maldade irremível, de uma maldade impossibilitadora de redenção, não é cristão, mas platónico. É interessante que, numa civilização que gosta de desdizer Platão em muito do que de sábio o velho filósofo (e teólogo) disse, seja logo num tema tão terrível que o vulgo, mesmo o dito intelectual variegado, tenha alinhado com o pensamento do gigante Ateniense.

No exato fim do texto (República, 621d) em que Platão fala da irremissibilidade dos malvados, o mesmo Platão deseja a todos – menos aos malvados – algo como uma «boa viagem», que só o pode ser se se chegar a um bom porto (este tema é retomado magistralmente por Agostinho no seu Diálogo sobre a felicidade). Todavia, não é este sentido de fim feliz desejado que se realça na filosofia daquele imenso sábio antigo.

É, pois, interessante que o foco da atenção tenha sido posto sobre o sentido verdadeiramente infernal do destino ontológico dos malvados e não sobre a mensagem de votos de ontológica positividade futura. Tal escolha, como é evidente, não é casual ou ‘inocente’.

Na verdade, parece ter sido a uma forma quase literalmente platónica que certa imagética e conceptualização do inferno foi buscar inspiração. Não se trata de uma literalidade de copista competente, mas de uma literalidade «lógica», tendo sido copiado o sentido condenatório inapelável posto por Platão como recompensa para os malvados, que ele tipifica como «tiranos», à imagem do protótipo Ardieu.



A grandeza ontológica negativa do mal praticado é, para Platão, algo que tem sobre o mundo um poder de detalhe absoluto, sendo o bem anulado ou impedido pela humana maldade algo que marca negativamente o mundo de forma irreparável. Por tal, tem o mal de ser evitado – dir-se-á, a todo o custo, que não implique um outro mal, algo de dificílimo



Que nos diz o texto de Platão (República, «Livro X», 615d-616a)? Segundo a tradução de M. H. R. Pereira, lemos:

«[…] avistámos de repente Ardieu e outros, que eram tiranos, na sua quase totalidade; mas também havia alguns que eram particulares que tinham cometido grandes crimes – que, quando julgavam que já iam subir, a abertura não os admitia, mas soltava um mugido cada vez que algum desses, assim incuráveis em sua maldade ou que não tinham expiado suficientemente a sua pena, tentavam a ascensão. Estavam lá homens selvagens, que pareciam de fogo, e que, ao ouvirem o estrondo, agarravam alguns pelo meio e levavam-nos, mas, a Ardieu e outros, algemaram-lhes as mãos, pés e cabeça, derrubaram-nos e esfolaram-nos, arrastaram-nos pelo caminho fora, cardando-os em espinhos, e declaravam a todos, à medida que vinham, por que os tratavam assim, e que os levavam para os precipitar no Tártaro.» (PLATÃO, A república, introdução, tradução e notas de Maria Helena da Rocha Pereira, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, [1980], p. 490).

A falta de sentido do que designamos como «misericórdia» na forma como Platão trata estes seres humanos – e que inspira matricialmente a imagética infernal comum posterior – depende não de qualquer incapacidade humana de perdoar ou de metamorfosear o modo de olhar para a fraqueza ética e política humana e, por vezes, para a maldade que de tal fraqueza decorre, mas, objetivamente, da realidade ontológica quer do mal que é praticado quer de esse que pratica tal mal.

A grandeza ontológica negativa do mal praticado é, para Platão, algo que tem sobre o mundo um poder de detalhe absoluto, sendo o bem anulado ou impedido pela humana maldade algo que marca negativamente o mundo de forma irreparável. Por tal, tem o mal de ser evitado – dir-se-á, a todo o custo, que não implique um outro mal, algo de dificílimo –, sendo que a única forma de conseguir tal desiderato consiste numa vida segundo as virtudes: temperança, coragem, sabedoria (prudência), justiça.



Todo o ato humano que aniquile um bem em ato ou que impeça um qualquer bem possível, corresponde a um ato que destrói ou impede o bem, isto é, parte do absoluto de ato, real concreto ou possível. Trata-se de um atentado anti-ontológico que, se universalizado, levaria à destruição de todo o ser mundano



Como não há magia – embora o mundo abunde de maravilhas, que não são o mesmo que magia –, tal única ação impeditiva do mal tem de ser servida pela educação dos seres humanos, desde a mais tenra idade, de modo a que cada um possa ser ‘perfeito’, a seu modo próprio e irredutível, em todas as virtudes.

Este sentido lógico segundo o bem – que, assim, é necessariamente um bem-comum – para a possível ação humana universal não corresponde a algo néscio como uma qualquer «utopia», antes configura a dificílima possibilidade de viver não como bestas com forma humana, mas como verdadeiros seres humanos. Os tiranos correspondem, assim, aos seres humanos que se bestializaram de tal modo que já não são humanamente recuperáveis. Percebe-se, deste modo, a que conjunto antropológico (ou anti-antropológico) pertence o paradigma Ardieu.

Todavia, por quê o terrível rigor esbraseado (o oximoro é propositado) de Platão para com os tiranos? Não há uma qualquer pena, castigo, ou algo de semelhante que possa balancear o mal cometido? Não há umas ‘laicamente santas torturas’ que se possam aplicar temporariamente como forma de ‘pagamento’ do mal perpetrado?

A resposta é: não. Repete-se a questão: por quê este horrível rigor da inapelabilidade?

A intuição matriz que fundamenta todo o pensamento platónico – mesmo quando, procurando servir positivamente tal intuição, falha rotundamente – é a da absoluta positividade ontológica do ato; ato que se opõe ao nada absoluto. A esta positividade ontológica, dá Platão o nome de bem. O bem platónico não é um bem moral, mas o absoluto do ato e do ser que nele se intui presente em tudo o que há.



O que conta para Platão é a ação ética e política que destrói indevidamente vidas humanas. É isto o que define o tirano: a destruição indevida de vidas humanas; a ilogicidade da ação destrutora das vidas humanas



A grandeza do que está em causa percebe-se se se atentar ao que aconteceria se se aniquilasse toda esta riqueza de bem: nada, absolutamente nada. É neste sentido que «o bem», em seu sentido absoluto, é o metafísico divino platónico, o seu «Deus» (grafado com maiúscula, pois não é mais um «deus» a acrescentar ao panteão, antes, a negação real deste e a sua substituição por algo de incompatível).

Ora, todo o ato humano que aniquile um bem em ato ou que impeça um qualquer bem possível, corresponde a um ato que destrói ou impede o bem, isto é, parte do absoluto de ato, real concreto ou possível. Trata-se de um atentado anti-ontológico que, se universalizado, levaria à destruição de todo o ser mundano.

Platão não duvida de que todos os seres humanos são réus deste ato, pois, mesmo praticando as virtudes com supremo esforço, é, na prática, altamente improvável que alguém aja sempre de forma perfeita quanto ao bem que realiza, por ação ou omissão. Todavia, na dialética que é a vida humana ética e política, há graus de cumprimento do bem possível na dependência humana. Assim sendo, a trivialidade do mal praticado – isto é, a grandeza ontológica menor do mal praticado, não confundir com a ação de Herr Eichmann – não é relevante.

A sua relevância impediria a vida humana. O que conta neste âmbito, é o mal praticado segundo o paradigma que define o tirano, que é o mal cuja dimensão ontológica negativa dependente do ser humano praticante afeta de tal modo o mundo que corresponde a uma destruição não só irreparável – todas o são –, mas com repercussões ontológicas grandiosas.

De que se trata, então? O próprio Platão dá o exemplo: no mesmo trecho da República, informa que o que definia Ardieu como tirano era ter assassinado o pai idoso e o irmão mais velho, tendo ainda perpetrado muitas outras impiedades (são impiedades ontológicas antes de serem ‘religiosas’).



Não há, aqui, inevitabilidades tartáricas, comportamentos divinos decalcados da própria maldade humana sobre Deus projetada; apenas amor que, não sendo mágico, sempre espera que esse que assim é amado, por via do mesmo amor, possa deixar-se amar, assim imediatamente começando também a amar



Nitidamente, o que conta para Platão é a ação ética e política que destrói indevidamente vidas humanas. É isto o que define o tirano: a destruição indevida de vidas humanas; a ilogicidade da ação destrutora das vidas humanas. Tal merece, para Platão, a condenação ao Tártaro, após um tratamento punitivo – pelo menos simbólico, dado que se trata de um mito – absolutamente terrível em sua crueldade.

Não nos detendo nos pormenores do mal, sempre tão do agrado de tantos fracos, podemos, então, concluir que, para Platão, a acção que implique a destruição ilógica da vida humana é algo que é definitivamente irresgatável, definindo o que é o paradigma da maldade como algo de impassível de metamorfose.

A impassibilidade de metamorfose do mal perpetrado é evidente, salvo magia, inexistente. No entanto, por que razão não é passível de metamorfose o agente?

Neste ponto, há uma também evidente escolha platónica: para Platão, a grandeza do mal cometido pelo agente tirânico é de tal ordem que se lhe consubstancia, pelo que o próprio agente passa a ser mau como má é a sua ação.

Assim sendo, não há, para ele, possibilidade – também ontológica – de metamorfose no sentido do bem; qualquer metamorfose que possa existir será sempre no sentido de um mal cada vez maior. Por tal razão, deve ser afastado definitivamente do mundo banhado pelo sol, metido no Tártaro, dado que a ideia de aniquilação não faz parte da panóplia noética dos helenos cuja cultura alimentou Platão.



A esta recusa do amor chama-se tradicionalmente ‘diabo’. Tem muitas modalidades e figuras; todavia, está sempre em mim, sempre que eu não amo tanto quanto me é dado amar



Assim se justifica ontologicamente a irresgatabilidade do tirano e a sua dolorosíssima ida para o Tártaro.

Ora, em termos de uma certa cultura cristã, em sentido sócio-histórico não em sentido de ortodoxia doutrinal propriamente cristã, é esta conceção platónica do ‘inferno’ que é comum.

Tal conceção não é formalmente cristã, pois, em termos cristãos, relativamente à absoluta grandeza da misericórdia divina, que assume e sobreleva a justiça, nada impede que qualquer criatura responsável seja, por mais malvada que possa ser, metamorfoseável, assim o queira. Deus nunca volta a face ou fecha a porta. Também não dá pelo malvado os passos que este tem de dar para que a metamorfose se opere.

Em termos cristãos, não há magia, mas a maravilha do infinito amor de Deus, que, sem tempo, logo, com todo o tempo, espera pacientemente que o malvado se digne virar para Deus o seu rosto.

Este absoluto de distância ontológica entre o rosto de Deus, sempre virado para a criatura, e o rosto da criatura, que pode indefinidamente não querer voltar o rosto para Deus, corresponde simbolicamente ao que ontologicamente é o ‘inferno’: o absoluto da distância ontológica entre Deus e a criatura que nega a Deus.
Não há, aqui, inevitabilidades tartáricas, comportamentos divinos decalcados da própria maldade humana sobre Deus projetada; apenas amor que, não sendo mágico – relembra-se –, sempre espera que esse que assim é amado, por via do mesmo amor, possa deixar-se amar, assim imediatamente começando também a amar.

A esta recusa do amor chama-se tradicionalmente ‘diabo’. Tem muitas modalidades e figuras; todavia, está sempre em mim, sempre que eu não amo tanto quanto me é dado amar. Então, o Tártaro, de Platão, e os seus homens selvagens e torturadores são eu fazendo mal a mim próprio. Este mal próprio, por mim criado, é o ‘meu inferno’.

Para lá dele, está Deus.

Onde estou eu?


 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: "Juízo final" (det.) | Fra Angelico
Publicado em 03.07.2020

 

 
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