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Job, modelo de paciência para dias de confinamento

Há um demónio especial, dito do meio-dia, espírito mau que se insinua no espírito humano ao fim da manhã até a tarde já ir adiantada. Foi identificado, segundo a tradição, na acídia, ou seja, a ausência de paixão pela vida, de ausência de significado na vida espiritual.

Este fenómeno ocorre também no desporto: pouco antes da metade da competição, qualquer que seja, o atleta acusa a dificuldade, sente o medo de não conseguir atingir o objetivo, acusa com mais intensidade o cansaço. Em resumo, não sabe se há de desistir ou continuar.

A existência interior desenrola-se da mesma maneira: no meio do caminho da nossa vida, o cristão começa a colocar-se muitas perguntas, demasiadas, sobre o sentido da sua busca interior. Por vezes, já nem sequer sabe porque viveu até ao momento.

Muitos, então, decidem mudar de estado de vida, inventam uma outra, por vezes justificada, por vezes não. Tem-se medo de não poder perseverar até ao fim, tem-se medo de não ter forças suficientes.

O nosso confinamento por causa do coronavírus padece, de alguma forma, do mesmo destino. Durante o dia passa-se aquele momento de desconforto, feito de medo, angústia e pânico, atravessa-se esse tempo mais ou menos longo em que se colocam duas perguntas: conseguiremos sair disto vivos? E quanto vai ainda demorar?



A paciência é autêntica quando se reconstrói a cada momento. É uma virtude do eterno começo. Mas não nos deixemos derrotar: a nossa paciência é e deve ser à prova do demónio do meio-dia, à prova de vírus, a nossa paciência deve ser a mesma de Job



Se nos detivermos sobre estas interrogações, o desconforto apodera-se em primeiro lugar da imaginação, depois da inteligência, e por fim do corpo, com somatizações várias. E eis que aquelas duas simples perguntas, que depois não o são verdadeiramente, nos derrubam ou, pelo menos, arriscam fazer-nos vacilar.

Trata-se precisamente do demónio do meio-dia, que sobrevém para nos perturbar, colocar em crise, conduzindo-nos para a beira do precipício do desespero. A questão é sempre a mesma: quando é que vai acabar?

O demónio do meio-dia, da antiguidade em diante, foi sempre vencido com a paciência, e também um pouco de prudência. Nesta nossa situação comum, é a paciência que nos ajudará a vencer, a debelar o vírus, a proteger-nos e a retomar uma vida cada vez mais normal.

Este demónio tortura durante algumas horas, depois, quase imprevistamente, vai-se embora, para voltar, talvez, alguns dias depois, no momento em que menos se espera, quando parece que está tudo calmo. Os medos mais recônditos voltam à superfície, e de novo o demónio vem deteriorar o capital de serenidade acumulado.

A paciência é autêntica quando se reconstrói a cada momento. É uma virtude do eterno começo. Mas não nos deixemos derrotar: a nossa paciência é e deve ser à prova do demónio do meio-dia, à prova de vírus, a nossa paciência deve ser a mesma de Job, que sofreu um número despropositado de provações. A este personagem bíblico nos devemos inspirar, na sua paciência, na esperança de um futuro melhor do que o passado atravessado na preocupação.


 

Alberto Ambrosio
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Job"
Publicado em 01.04.2020

 

 
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