

Um dos beijos mais célebres da história do cinema, da época dourada de Hollywood, foi o de Cary Grant e Debora Kerr no filme “O grande amor da minha vida”: os rostos não estão enquadrados, e dos atores, colocados numa escada de navio de cruzeiro, vêem-se apenas as pernas. E todavia esse beijo, ocultado, é para os espetadores ainda mais intrigante e sugestivo.
E o mistério do não visto, ou do só intuído, é igualmente a joia da coroa da celebérrima fotografia obtida a 14 de agosto de 1945 em Times Square pelo fotógrafo da revista “Time” Alfred Eisenstaedt: os protagonistas do disparo são um marinheiro e uma enfermeira, capturados numa pose ágil e desarticulada.
Os seus rostos não são bem visíveis, e este particular foi decisivo ao consagrar, no imaginário coletivo, o sucesso da imagem. Cada um, desta maneira, pôdee identificar-se nos dois ternos namorados.
O marinheiro era George Mendonsa, desaparecido no domingo, 16 de fevereiro, aos 95 anos. No entanto, da verdadeira identidade do homem, imortalizado na fotografia, nunca se teve certeza absoluta. Tanto que o jornal “New York Times”, ao publicar a notícia da sua morte, no título do artigo usa a expressão “[George Mendonsa,] Most likely the sailor in a famous photo”. A parceira, Greta Zimmer Firedman, faleceu em 2016.
Para conhecer os seus nomes foi preciso esperar por 2012, graças à publicação do livro “The kissing sailor: The mistery behind the photo that ended world war II”. Ainda assim, mesmo depois da divulgação do volume, houve quem suscitasse reservas.
Para dirimir a questão foram interpelados importantes antropólogos forenses, que analisaram minuciosamente a fotografia, confrontando-a com os traços do rosto de Mendonsa: a comparação eliminou todas as dúvidas.
Uma coisa, no entanto, é certa: o verdadeiro protagonista daquela fotografia – reproduzida ao longo dos anos em incontáveis pósteres e roupa – é o contexto.
Com efeito, a segunda guerra mundial tinha acabado há pouco, e as pessoas, depois de terem sofrido muito, inundaram as ruas de Nova Iorque para festejar; e Times Square foi tomada de assalto por uma multidão em júbilo.
Aquele beijo, roubado pela máquina fotográfica, depressa se tornou a síntese perfeita e o símbolo solene da reconciliação reencontrada, da aurora de um novo amor depois do ocaso do ódio.
Do mistério ao mistério. A beijada não teria sido na verdade “a namorada” do marinheiro, mas uma jovem que Mendonsa tinha encontrado em Times Square alguns segundos antes do beijo.
«Quando vi aquela enfermeira – explicou numa entrevista o marinheiro [lusodescendente] –, veio-me espontaneamente a vontade de lhe dar um beijo, para exprimir a minha gratidão a todas as enfermeiras que durante a guerra cuidaram, mesmo suportando grandes sacrifícios, dos soldados feridos».