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Rumo ao amor, dia 36: Justiça

Dois homens viviam na mesma cidade, um rico e outro pobre. O rico tinha ovelhas e bois em grande quantidade; o pobre, porém, tinha apenas uma ovelha pequenina, que comprara. Criara-a, e ela crescera junto dele e dos seus filhos, comendo do seu pão, bebendo do seu copo e dormindo no seu seio; era para ele como uma filha. Certo dia, chegou um hóspede a casa do homem rico, o qual não quis tocar nas suas ovelhas nem nos seus bois para preparar o banquete e dar de comer ao hóspede que chegara; mas foi apoderar-se da ovelhinha do pobre e preparou-a para o seu hóspede» (2 Samuel 12,1-4).

A maior injustiça é não cuidar, é tirar a dignidade às pessoas, é o não considerar o seu valor, é a dureza do coração, é romper aquela amizade que é salvaguardada nas coisas.

Há um mal-estar espalhado pela civilização que se manifesta do fenómeno do descuido, do desinteresse e do abandono; se se ocupa dos outros, faz-se isso, possivelmente, sem sujar as mãos, muitas vezes evitando um contacto direto. Mas para cuidar é preciso mais: é preciso sentir que a existência de alguém é importante para nós.

Cheira a mofo este tempo, de não sinceridade e mentira, de orgulho e desesperação. Que delito é a frieza e a dureza do coração.

Não há tempo, nem cabeça, nem coração para os detalhes, e cada relação de amor é, precisamente, feita de detalhes, de pequenas atenções.

Justiça quer dizer levar a peito, ser para o outro, habitar no outro, deixar-se habitar pelo outro, pelos seus sofrimentos, pelos seus cansaços, amar com fidelidade e paixão. Que este cheiro a mofo, de fechamento e de “não-te-rales” não nos impeça de ter no coração outros odores e outros rostos.



É preciso estar à escuta e seguir os passos dos homens e das mulheres que se puseram a caminho, levando um Deus oculto, levando uma aurora de justiça



Ter no coração o perfume da giesta, do jasmim e da tília destes dias que a primavera inaugura.

É o mesmo perfume que Jesus trazia consigo nos últimos dias, presente recebido das mãos cheias de óleo de uma mulher na casa de Simão. O mesmo perfume que fez despertar Lázaro da morte. O mesmo perfume que a Madalena tinha ao voltar do sepulcro de mãos vazias. Aquele perfume que ninguém lhe podia tirar.

Ter no coração a clausura de uma monja, que antes de morrer escreve a sua saudação à Terra: «Adeus claustro mais pobre do mundo, adeus corredor das celas, adeus pura simplicidade, adeus salas comuns, adeus mesa fraterna, adeus amassadeira do pão… Adeus celas habitadas pelas minhas criaturas. Perdão! Obrigado! Vigiarei sempre!».

S. Paulo diz que mesmo que falássemos todas as línguas, incluindo as dos anjos, se tivéssemos feito todos os milagres possíveis, sem o amor teria sido zero. O amor é a paciência, a vida quotidiana, a doçura, a benevolência, a ajuda recíproca.

A justiça é amor feito de detalhes, de gestos, de atos diários que não se fazem notar.

Tenho no coração uma jovem morta com cancro aos 24 anos, a gentileza dos seus gestos, um sorriso, uma palavra, um silêncio, um olhar atento para uma invisível presença que se manifestava nela e à volta dela. Tinha sempre uma intenção bem reta e uma vontade íntegra, uma coragem sem cálculo e uma piedade sem defesa. Podia estr na dor mas não sem beleza, sem a beleza sentia-se sufocar.

É preciso estar à escuta e seguir os passos dos homens e das mulheres que se puseram a caminho, levando um Deus oculto, levando uma aurora de justiça.

Os seus testemunhos são fogos de acampamentos acesos na noite: não basta que nos aqueçam por um momento, de fugida, é preciso vigiá-los, alimentá-los e propaga-los para que ardam para onde o vento os conduzir.


 

Luigi Verdi
In Il domani avrà i tuoi occhi, ed. Romena
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: paul shuang/Bigstock.com
Publicado em 02.04.2020

 

 
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