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«Kintsugi» e «sadō»: A subtileza do imperfeito e da quietude

Era segunda-feira, o meu dia de descanso. Há muito tempo que eu desejava fazer o percurso de Yamanobe no Michi, na Província de Nara. Cerca de 15 quilómetros através de serenos campos de arroz, por caminhos que conduzem a importantes santuários xintoístas, tais como Ōmiwa, um dos mais antigos do Japão. Casas tradicionais, túmulos imponentes e aldeias antigas; o aroma da ruralidade no sopé do monte sagrado Miwa.

Optei por ir sozinho, uma vez que queria refletir sobre um pedido que me tinham feito e que tinha a ver com fragilidade e silêncio. Parei sobre uma colina e vagueei o olhar pelo campo de arroz que se estendia preguiçosamente, iluminado pelo sol matutino. Ali me sentei, pois o silêncio era interpelador e convidava à introspeção. Nada perturbava a linha de pensamento com que queria cobrir o estrado da minha reflexão. O caderno e o lápis estavam preparados. E a primeira palavra surgiu: kintsugi.

 

«Kintsugi» («Reparação com ouro»)

Era quase audível o som estilhaçante da peça de porcelana que despontava na minha imaginação. O que é o kintsugi? Trata-se de um termo japonês que significa, literalmente, «ouro» e «junção, reparação», isto é: «reparar com ouro». Em sentido mais abrangente, significa a reparação de uma peça de cerâmica com metais nobres (ouro, prata ou platina). E aqui temos já o que pode ser considerado uma poderosa filosofia de vida: valorização do imperfeito e do vulnerável; uma relação intrínseca com outro termo: wabi-sabi, que é um ideal filosófico, assim como uma abordagem estética que se foca na aceitação da transitoriedade e da imperfeição dos objetos e dos seres humanos. Tal ideal filosófico de wabi-sabi desenvolveu-se no século XVI, no contexto do budismo zen e da cerimónia do chá. Tem a ver com o sentido de despojamento, introduzido na cerimónia do chá pelo grande reformador Sen no Rikyū (1522-1591): simplicidade, quietude, subtileza, harmonia espiritual. O verde dos arrozais sussurrava tradições amontoadas, mistério que as nuvens sombreavam num trajeto sinuoso. E o lápis escreveu outra palavra: sadō.

 

Sadō («Via do Chá»)

Via» é uma expressão que no Japão tem o significado de tradição de uma arte. Sem este conceito de «Via» não há progressão, uma vez que, em sentido japonês, a tradição não é um ensinamento estático obtido a partir de um mestre, mas sim reflete um grande dinamismo na busca de um horizonte perdido (1). A tradição da «Via» expandiu-se na sua relação com o budismo zen, principalmente na época de Kamakura (1192-1333). Considera-se ter sido na mesma época de Kamakura que a «Via do Chá» teve os seus inícios no Japão, embora desde as primeiras décadas do século VIII este já se tomasse nos mosteiros e nos templos. Seria, contudo, no século XII que o monarca Eisai (1141-1215), fundador da escola Rinzai do budismo zen, deu novo impulso ao costume de tomar o chá, considerando-o uma bebida de significativas qualidades terapêuticas. Tradição originária da China, trouxe elementos budistas, confucionistas e taoistas, tornando-se, na qualidade de rito de conhecimento de valores filosóficos, sociais e religiosos, uma pedra fundamental da espiritualidade japonesa (2).

No século XVI, as regras da «Via do Chá» tornaram-se cada vez mais exigentes, por influência das renovações efetuadas pelos mestres, deixando de ser uma simples forma de etiqueta social e tornando-se expressão de um estado interior. De entre os maiores mestres, sobressai Sen no Rikyū (1522-1591), o grande reformador do sadō. Alguns estudiosos defendem a teoria de que Rikyū teria tido contacto com a liturgia eucarística, através de uma pessoa da sua família que se teria convertido ao cristianismo e, assim, teria feito a reforma da Cerimónia do Chá de acordo com o espírito da celebração da Eucaristia. Na realidade, existem numerosos elementos que poderiam ser considerados comuns – incluindo a entrada na sala de chá, denominada nijiriguchi, aparentemente baseada na «porta estreita» do evangelho –, se bem que o vínculo de «sacrifício», «memorial» e «banquete» não estaria isento de um certo artificialismo.

O desenvolvimento da vida citadina e burguesa da época da dinastia dos Tokugawa (1600-1868) trouxe consigo uma nova dimensão da «Via do Chá», que passou a ser apreciada como símbolo de estrato social. Foram construídos belíssimos edifícios para a Cerimónia do Chá, com utensílios altamente valiosos, numa forma de competição social, permanecendo o verdadeiro espírito do chá apenas num estreito círculo de pessoas. Atualmente, com o stress dos tempos modernos, os japoneses buscam novamente a essência da mensagem do sadō e do zen, como formas de sobrevivência num mundo de competição e materialismo.

 

«Sadō» e «Zen»

Todos os mestres do Chá estudaram em templos do budismo zen. Compreende-se que exista uma relação intrínseca entre sadō e zen, porque foram principalmente os monges que trouxeram ambas as tradições da China para o Japão. Em todo o caso, esta tradição não se limitou à permanência no interior dos confins monásticos, mas sim estendeu-se às famílias japonesas, sendo considerada como a alta cultura do wabi (a beleza que se encontra na pobreza e na simplicidade).

Poderá condensar-se o sistema cultural do sadō nos quatro elementos de «arte», «moral», «filosofia» e «religião».

- A arte manifesta-se na forma de construção do caminho que conduz à sala de chá (chashitsu), na beleza dos instrumentos próprios do sadō, na decoração com arranjos florais (ikebana) ou pintura de ideogramas (shodō), na harmonia de tudo (3).

- No campo da moral, o sadō reveste-se de um significado profundo, uma vez que deve ter uma relação direta com a vida quotidiana. Shinichi Hisamatsu, na sua obra sadō-no tetsugaku [Filosofia do sadō], é perentório ao afirmar que se deixar de existir esta relação íntima entre a Cerimónia do Chá e a vida diária, tudo não passará de um passatempo estético.

- A filosofia verifica-se nas ideias apresentadas no manual do sadō compilado por Rikyū, denominado «Nanpōroku» e considerado a Bíblia do sadō. Uma filosofia repleta de elementos taoistas e relacionada com o zen.

- Como elemento religioso, considera-se o satori, ao qual se pode chegar por meio da Cerimónia do Chá. Não se trata de um despertar espiritual, mas sim de um regresso ao íntimo do coração, para que se possa desenvolver as características mais humanas do ser (4).

 

Epílogo

A porta de entrada na sala de chá (nijiriguchi) é baixa, de modo a que o convidado seja obrigado a debruçar-se para entrar, com humildade e confiança, seguro de que o anfitrião receberá cada um com igual cordialidade, sem distinção de estrato social, algo muito significativo numa cultura rigorosamente hierarquizada, como é a japonesa.

Sentámo-nos na sala de tatami. O mestre de sadō, natural de Quioto, que convidáramos para que nos visitasse naquela tarde do dia de Páscoa, fazia os preparativos necessários. A chaleira fumegava e ouvia-se a água a ferver. Respirava-se uma leve brisa de paz que nos banhava de eternidade. Cada um recebia, com deferência, a chávena de superfície rugosa. Bebia e demorava-se a observar a peça de cerâmica gasta pelo uso. Os veios da reparação eram como veias que lhe davam uma serena vitalidade. Senti a comunhão com aquele objeto que tinha nas mãos. E pensei que vivemos num constante refazermo-nos, sempre incompletos, sempre imperfeitos, sempre falíveis e quebradiços, mas colaborando com o Criador «no aperfeiçoamento da criação visível», como diz o número 378 do Catecismo da Igreja Católica. Cometemos erros e aprendemos com esses mesmos erros; recorremos à imaginação criativa e à liberdade no exercício prático entre criatividade e fidelidade. O ser humano não é perfeito, podendo gaguejar, hesitar, comover-se, rir ou chorar; pode ferir-se e ser «consertado» com material precioso, à semelhança do kintsugi. Nada poderá ultrapassar o mistério de que o ser humano é filho. Imperfeito e incompleto, sim, mas não será na sua imperfeição que se encontra a sua beleza?

Assim como a peça de cerâmica é consertada com metais nobres, permitamos que Deus nos conserte e valorize as nossas fragilidades; Ele será o «metal nobre» que nos costura, nos recompõe e nos conserta na nossa quietude.


(1) Cf. Horst Hammitzsch, Zen in der Kunst des Tee-Weges, Otto Wilhelm Barth Verlag, Bern-München-Wien, 2000, p. 27.
(2) Cf. Shinichi Hisamatsu, sadō-no tetsugaku [Filosofia do sadō], 26ª edição, Kondansha, Tokyo, 2004, p. 12.
(3) Cf. Ibidem, pp. 52-53. Ver, ainda, H. Hammitzsch, Zen in der Kunst des Tee-Weges, p. 26.
(4) Cf. Ibidem, pp. 54-55. Esta síntese da tradição do sadō expressa-se, concretamente, em sete características peculiares: (a) arte assimétrica; (b) simplicidade; (c) austeridade; (d) naturalidade; (e) profundidade subtil; (f) liberdade incondicionada; (g) calma. A cultura do sadō é uma síntese. Se não existem estes sete elementos, não se poderá denominar cultura do sadō. Ver, também, Ibidem, p. 62.


 

Adelino Ascenso
Este texto foi publicado no "Observatório da Cultura" n. 28 (abril 2026)
Imagem: Adelino Ascenso
Publicado em 12.04.2026

 

 
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