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Martin Luther King: O sonho continua

O barril de pólvora já estava pronto. Faltava o rastilho, que explode, simbolicamente, num autocarro. Quando a modista e ativista norte-americana Rosa Parks é detida em Montgomery, a 1 de dezembro de 1955, depois de ter-se recusado ceder o lugar a um branco, explodiram os protestos contra as contínuas discriminações em relação aos afro-americanos. A motivação daquela prisão tinha derramado sal numa ferida há muito em sangue: Rosa Parks tinha “violado” as leis sobre a segregação. A aberta negação dos mais elementares direitos civis aos negros, em Montgomery como em muitas outras cidades do país, tinha já provocado acesas tensões na comunidade afro-americana.

O episódio de Parks teve um precedente significativo a 2 de março do mesmo ano, com a detenção da estudante de 15 anos Claudette Colvin: também ela se tinha recusado a dar o lugar a um branco, e também ela tinha pagado aquela “desobediência” com a prisão. Nesse dia, a indignação pelo que acontecera não desencadeou verdadeiras manifestações de protesto. A humilhação infligida a Rosa Parks espoletou, ao contrário, reações veementes, que culmiram, a 5 de dezembro de 1955, quatro dias após a sua detenção, no famoso boicote dos autocarros. A iniciativa consegue um grande sucesso, superior às expetativas mais otimistas: nesse dia, os autocarros viajaram vazios.

Foi neste cenário que se impôs a figura de Martin Luther King, nascido em Atlanta a 15 de janeiro de há 90 anos, o qual, como escreveu o jornal “The Washington Post” num editorial de 1955, «solidificou» os vários segmentos do movimento pelos direitos civis dos afro-americanos, tornando-se o seu líder. Direitos que deviam ser conquistados só através de uma atividade conduzida no signo da paz e do diálogo: estratégia esta que King foi buscar não só a Gandhi, convicto fautor da não violência, mas também a Richard Gregg, o primeiro americano a teorizar, de modo orgânico, sobre o conceito de “luta não violenta”.



«O seu testemunho espiritual»: assim o jornal “The New York Times” define o discurso de King pronunciado nesse inesquecível 28 de agosto



Depois de ter fundado a Southern Christian Leadership Conference, Martin Luther King começou, ou melhor, empreendeu de novo uma missão itinerante nas várias partes dos EUA – desta vez de maneira oficial –, com o propósito de sensibilizar a opinião pública sobre temas nevrálgicos respeitantes, sim, aos direitos fundamentais dos afro-americanos, mas na realidade estreitamente ligados ao princípio, de amplitude universal, do respeito e da promoção da dignidade humana. Discursos que muitas vezes evocavam passos do Evangelho, para infundir na consciência da coletividade a consciência da perene atualidade da mensagem cristã: uma mensagem apoiada nos valores da fraternidade, da igualdade, do amor recíproco e da paz.

Essa missão itinerante teve como momento icónico o célebre discurso proferido em Washington, nos jardins do Lincoln Memorial, a 28 de agosto de 1963: «I have a dream». Um sonho formulado por ocasião da “marcha pelo trabalho e pela liberdade” por ele organizada e à qual aderiram mais de 250 mil manifestantes. Graças a essa mobilização, testemunho cristalino de uma luta pacifista que se afirmava cada vez mais no tecido social e civil dos EUA (com fortes ecos também em países marcados por preconceitos e discriminações raciais), no ano seguinte era aprovado, depois de um atormentado processo, o “Civil Rights Act”, a lei que punha fim à segregação entre brancos e negros nos EUA. E no fim de 1964, King – como selo do seu empenho e da sua ação – recebe o prémio Nobel da paz.

«O seu testemunho espiritual»: assim o jornal “The New York Times” define o discurso de King pronunciado nesse inesquecível 28 de agosto. Em que consistia esse sonho? Antes de tudo, no facto de que os seus quatro filhos pequenos pudessem viver um dia numa nação na qual «não seriam julgados pela cor da sua pele, mas pela qualidade do seu caráter». Mas o caminho para a realização de tal sonho, denunciava King, ainda é longo e tortuoso. De facto, «o negro ainda não é livre». A sua vida «está ainda infelizmente paralisada pelas algemas da segregação e pelas cadeias da discriminação». O negro – evidenciava King diante de uma multidão aclamadora – «ainda vive numa ilha de pobreza solitária num vasto oceano de prosperidade material, e desfalece às margens da sociedade americana, e encontra-se exilado na sua própria terra».



Ao descarregarem com gestos extremos raiva e dor, testemunhavam a dramática consciência de ter perdido um guia iluminador e carismático, que deixava atrás de si um vazio impreenchível



Mas o símbolo autêntico daquele discurso apaixonado consiste na pregação da não violência, precisamente quando a aberta e espontânea denúncia de injustiças e abusos parecia ser o prelúdio, e até o convite, a vinganças armadas embebidas em sangue. «Neste nosso proceder para a justa meta – declarou – não devemos ser culpados de ações injustas. Procuremos não satisfazer a nossa sede de liberdade bebendo da taça do ódio e do ressentimento.» Surge por isso a exortação a elevar-se às «majestosas vestes» de quem «responde à força física com a força da alma». E, certamente, reveste particular relevo o apelo de King ao diálogo e à reconciliação: o branco não seja visto a priori como um inimigo. A comunidade negra não deve ser condicionada por uma «falta de confiança» na comunidade branca, porque os brancos – que em grande número participaram naquela manifestação - «compreenderam que o seu destino está ligado ao nosso destino, e que a nossa liberdade está inextrincavelmente ligada à nossa liberdade».

Mas aquela violência, que King desde sempre rejeitou, acabou por ir ao seu encontro. Com a morte. Foi atingido por um disparo de espingarda no terraço do Lorraine Motel, em Memphis. Era o dia 4 de abril de 1968. King tinha 39 anos. O assassinato desencadeou a virulenta reação da comunidade afro-americana. Mais de 100 cidades dos EUA foram postas a ferro e fogo. Em Shaw, histórico bairro a pouca distância da Casa Branca, habitado por negros, numerosos edifícios foram derrubados. Foi dado às chamas o Howard Theatre, que tinha marcado uma etapa fundamental nas fulgurantes carreiras de Ella Fitzgerald e Duke Ellington. Contaram-se 12 mortos. Por um lado, os manifestantes traíram o conselho de King: não reagir à violência com a violência. Por outro, ao descarregarem com gestos extremos raiva e dor, testemunhavam a dramática consciência de ter perdido um guia iluminador e carismático, que deixava atrás de si um vazio impreenchível. Mas aquele disparo não tinha estilhaçado o sonho incarnado naquela vítima. E nos anos seguintes, ainda que marcados sempre por numerosos episódios de discriminação racial (que podem, de resto, ser revistos ao vivo hoje em dia), foi possível registar progressos significativos ao longo do caminho da convivência serena e pacífica entre negros e brancos. A herança de Martin Luther King não se perdeu, não se desvaneceu com o tempo o eco das suas palavras. E o sonho continua.


 

Gabriele Nicolò
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 14.01.2019

 

 
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