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Medo e virtude

O maior inimigo do ser humano é o medo. Este é diabólico, divide o ser humano, que fica incapaz de ação, precisamente nos momentos e para os atos que mais necessitam de coragem. Tempos difíceis não devem ser tempos de medo, mas tempos de coragem, de esperança, de fé.

Acabámos de aludir a três das sete virtudes cristãs. Estas sete – número perfeito e apanágio do divino – virtudes são o esteio prático e pragmático do cristão. O cristão, porque suportado por estas virtudes, não tem desculpa para ter medo e para não agir. O cristão tem obrigação de agir, pois está suportado por estas virtudes. Se o não fizer, não é cristão, é uma outra coisa qualquer. Não há cristãos que não se governem pelas sete virtudes: quem não se rege por elas não pode ser cristão. Ser-se cristão não é apenas ter fé: sem o restante do septenário das virtudes, tal nunca é fé, mas, sim, vã crença de estúpido ou de impotente. O cristão não é impotente, porque segue o homem paradigmaticamente potente, Cristo.

Esta potência de Cristo não é confundível com qualquer forma de mundano poder político em seu mais vasto entendimento: é o poder, a potência, única, do amor, da caridade. O cristão segue Cristo quando realiza plenamente – ou procura realizar no melhor que efectivamente consegue – as mesmas virtudes que Cristo praticou.

Não, Cristo não era um fraco, como, por vezes, se faz crer, a fim de justificar formas ignóbeis de fraqueza. Cristo era, como todos nós, frágil e vulnerável. Ora, é precisamente porque somos, com Ele, assim também frágeis e vulneráveis, que a todos se aplicam as virtudes: todas, plenamente.



É tempo de caridade. Todavia, não há caridade sem que esta se faça acompanhar por todas as «irmãs mais novas». Sem qualquer das outras virtudes, a caridade é impossível



Todavia, é pensável que Cristo tivesse fé, sobretudo no sentido propriamente teologal do termo? Cristo acreditar em Deus? Que quer tal dizer?

Como compreender que Cristo avance para a cruz, sem que o Pai responda ao seu pedido de possível afastamento do cálice, sem que acredite no Pai? Sem que coincida em amor, em Espírito, com o desejo do Pai, sabendo que a promessa do Pai é digna de quem a fez? Chama-se a este ato «beber o cálice», a que se pode acrescentar «da amargura». Não há «passos da cruz» sem fé de Cristo na palavra do Pai, sem que o Filho se metamorfoseie em acto de Espírito todo em repouso sobre o «logos» do Pai.

Todavia, este repouso é um ato, não uma paixão: Cristo aceita a morte, aceita carregar com a cruz e ser crucificado, na humana fé de que a vida lhe será restituída, que o pleno de seu ato ressurgirá.

Ora, de todas as virtudes, a fé é o ato mais difícil, pois é esse que não tem senão forma a que se ater: a forma do próprio acto de crer como pascaliana aposta no bom fim de tal aposta. Nada mais há a que esse que tem fé se possa «agarrar».

No entanto, sem fé, nenhum ato é possível. Não se trata apenas da fé teologal, mas de todo o ato de acreditar em algo, isto é, de pôr a inteligência, o desejo e a concretizadora vontade, em algo cuja presença é apenas da ordem da notícia, do possível, sem mais. Sem este ato de fé, radical, radical mesmo no mais profundo laicismo, ninguém age, porque não é possível qualquer movimento voluntário, próprio, sob pena de que, movido, me aniquile.



O antídoto para o medo não é apenas a evidente coragem, mas o septenário das virtudes, que permitem que se beba o cálice em ato de amor, inteligente e eficaz



Cada ato, dos meus atos de cada dia, implica, para ser possível, que acredite que a sua concretização, ao alterar o meu estado ontológico, não me precipite no nada. Por vezes precipita, pelo menos no nada mundano, que é o nada absoluto para o laico.

Dir-se-á que ninguém pensa assim cada vez que vai agir. Certo. Todavia, é este o quadro lógico da possibilidade humana de agir, sob pena de automatismo ou de bestialidade total.

São estes tempos pelos quais passamos excelente – se bem que dramático e trágico –, oportuno ato em que nos encontramos mergulhados de forma geral involuntária, mas em que podemos, em nossa fragilidade e vulnerabilidade, agir, segundo a temperança, a coragem, a prudência, a justiça, a fé, a esperança e a caridade.

É tempo de caridade. Todavia, não há caridade sem que esta se faça acompanhar por todas as «irmãs mais novas». Sem qualquer das outras virtudes, a caridade é impossível, ou porque não sabe de seu fim, ou porque não dispõe dos meios de agir.

Podemos, assim, perceber que o antídoto para o medo não é apenas a evidente coragem, mas o septenário das virtudes, que permitem que se beba o cálice em ato de amor, inteligente e eficaz, pelo outro, que é, como agora bem se compreende, toda a humanidade.

Não foi isto que Cristo fez?


 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: "Virtudes teologais (Fé)" (det.) | Rafael
Publicado em 17.03.2020

 

 
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