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Na ladeira do Imemorial

«Ao interpretar a figura de Cristo quis propositalmente excluir qualquer forma oleográfica. Em vez disso, procurei, ao contrário, a matéria para o meu trabalho no imaterial e de me colocar com a mente diante da grande questão e, portanto, da grande abstração, visto que refigurar Cristo e o motivo da Ressurreição só pode refigurar o não visível. O invisível como ressurreição e a ressurreição como transmutação, circularidade mística entre a terra e o céu. O Cristo crucificado não apenas representa a carne, mas indica o invisível que está dentro da carne; matéria que se corrompe e matéria que se sublima. Vida na morte e morte na vida.» Por isso, na obra que o artista apresenta em forma de ícone, a Crucificação e a Ressurreição são expressas como uma figura luminosa, um momento único, incindível, emblema da dupla essência material e espiritual que habita o humano. «A aspiração do Ícone é representar o metafísico, dar forma visual à Palavra, participar com o olho da mente na ascese da Imagem, dar imagem ao divino. Um ícone, portanto, que aspira a representar o que é transfigurado pela ressurreição de Cristo, no qual é a luz que narra Deus. A luz como palavra e imagem absolutas, como pura manifestação do divino» (Claudio Parmiggiani).

É num tempo grávido de metamorfoses inesperadas, entre o drama da situação e o onirismo de um tempo a vir transmutado, que a potência metafórica da Ressurreição evoca, como princípio de um novo começo, que o cristianismo poderá fazer a diferença, como o último reduto onde a Palavra e a história humana se encontram como caminho salvífico. E porquê excluir a arte contemporânea desse caminho? Há, certamente, uma certa arte que é irrelevante, porque assente somente no aparato mediático e no bónus comercial. Mas há ainda um punhado de artistas do essencial e do transcendental, que não vivem dos holofotes e do totalitarismo das redes, que impõem critérios gustativos massificados, sem qualquer enraizamento na história ou no pensamento imagético, sem qualquer relevância para a existência humana.



É possível reduzir a arquitectura de uma igreja ao modelo único de um tempo áureo, como se um tempo paradisíaco existisse? É viável replicar um modelo do passado sem ter em conta os dispositivos do presente que abrem o futuro?



Claudio Parmiggiani, cujo pensamento colocamos em exergo, a partir da sua obra pictórica “O Cristo ressuscitado” (2006), avesso às modas grupais de sucesso imediato, fala de uma religiosidade ou espiritualidade da arte, e não de arte religiosa. Toda a arte é uma sublevação ou levantamento (ressurreição) do espírito, mas a arte enquanto tal não é religiosa, no sentido de propagação ideológica ou catequética, caso contrário, deixaria de ser arte enquanto tal, instaurando-se uma arte como teologia dogmática (ao serviço do dogma) ou litúrgica (ao serviço do ritual). Isso não significa que não haja arte religiosa ou arte litúrgica, mas em todo o caso, ela deixa de ser arte para passar a ser um modo de expressão do dogma religioso, como acontece na arte política ao serviço de um regime totalitário, por exemplo.

Mas esta arte continua a ser arte? Sê-lo-á nos seus meios de expressão, mas não na sua essência, porque lhe falta o elemento de universalidade, a possibilidade que todos os humanos se sintam tocados na respiração da matéria. E não só, isso significaria impor um protótipo único a toda a arte, em qualquer tempo e lugar, independentemente da sua situação actual. Ora é possível defender um rosto pictórico único de Cristo, sobretudo aquele que a sedução neoliberal impôs como dominante, o Jesus à Hollywood, como sendo o verdadeiro rosto? É possível reduzir a arquitectura de uma igreja ao modelo único de um tempo áureo, como se um tempo paradisíaco existisse? É viável replicar um modelo do passado sem ter em conta os dispositivos do presente que abrem o futuro? O que teria sido de Tomás d’Aquino, e no seu tempo algumas das suas teses foram consideradas suspeitas, se se limitasse a repetir a patrística ou Agostinho? Se o contemporâneo é verdadeira obra de arte, não se trata de ruptura abruptas, mas de instauração de significados novos no interior do antigo, de ir à raiz para germinar metáforas de sentido na existência humana. Só homenageia verdadeiramente o mestre quem não ousa repeti-lo!



O critério de artistas eremitas que sem se inserirem em modas, em muitos casos vivendo até ao limite da miséria por não cederem às suas convicções artísticas, filosóficas ou poéticas, procuram a força dessa verdade na história complexa da humanidade e das suas criações. Toda a grande obra de arte é a reunião de todas as precedentes e ponte de passagem para a sua permanência futura



O êxtase da eterna novidade é tão nocivo quanto a nostalgia do passado. A verdadeira obra de arte ou do pensamento antigo faz-nos olhar de um modo novo a vida corrente. Do mesmo modo, as obras contemporâneas vivificam os significados das obras mestras do passado. É um diálogo infindável, não sem choque ou contradição, mas porque ele existe, há invenção e criação. Álvaro Siza Vieira di-lo doutro modo: «Os arquitectos não inventam nada, transformam a realidade». Toda a invenção humana é um reencontro existencial, por vezes inconsciente e pré-reflexivo. de experiências, emoções e mitos humanos originários. É neste âmbito do "ser selvagem" que a figuração do Invisível surge como imemorial, que nos transporta desde o começo imemorial primitivo, de metamorfose em metamorfose, para uma paragem definitiva desconhecida, a que poderíamos designar de arquétipo ressurrecional. O pensamento científico tem um mito para o início do mundo, mas não tem logos mítico para a sua metamorfose final do corpo da matéria. Ah, o ser-para-a-morte como o último bastião ou mito teleológico, talvez no limite até o sejamos, mas a própria metamorfose biológica não o permite afirmar em absoluto, pois há a “matéria que se corrompe e a matéria que se sublima. Vida na morte e morte na vida”. Como poderemos ser tão cáusticos na evidência da impotência da matéria e das suas metamorfoses, do invisível inexplorado que habita a minha carne e a carne do mundo?

Que critérios assumir então? O critério da arte que encontra o humano na sua aspiração dramática ao transcendente, a sua verdade, não num interior irreal, mas a verdade de uma relação sempre tensa e combatente com a alteridade. O critério de artistas eremitas que sem se inserirem em modas, em muitos casos vivendo até ao limite da miséria por não cederem às suas convicções artísticas, filosóficas ou poéticas, procuram a força dessa verdade na história complexa da humanidade e das suas criações. Toda a grande obra de arte é a reunião de todas as precedentes e ponte de passagem para a sua permanência futura. A força de uma proposição será encontrada por um punhado de homens e de mulheres que saberão vislumbrar aí qualquer coisa de intemporal. O pintor figurativo parisiense Balthus escrevia: «Se uma obra é somente expressão da pessoa que a criou, então não vale a pena fazê-la […]. Expressar o mundo, entendê-lo: é o que me parece mais interessante. A grande pintura deve ter um significado universal. Isto já não é assim hoje em dia e, por isso, quero devolver à pintura a universalidade e o anonimato perdido, porque quanto mais anónima é a pintura, mais real é».



Os humanos falam, Deus silencia-se. Deus Silêncio absoluto, por isso, hoje mais do que nunca, tão poucos são capazes de o escutar. E talvez se encontre mesmo onde e em quem menos se espera



Na ladeira de pedra imemorial, da irradiação espacial que brota da sua imobilidade rugosa, do anonimato temporal, uma arca de hospitalidade será possível? Cada contacto real é sempre uma desvelação, por vezes, inesperada e surpreendente. E nessa desvelação do si mesmo, mais filosófica que psicológica, esse pensar alto, por vezes incontrolável, se anunciam por vezes modos novos de ver e ser, os humanos "não continuar assim”. Ou, por vezes, o dito supõe uma poética onírica..., quase heterónima..., pois uma presença que se oculta na ausência de nomeação ou que não sabemos nomear o que desejamos ardentemente.

E no nascimento matinal de si mesmo, após uma anamorfose sensível, uma certa clareira nos aparece inadvertidamente. Como dizia Rimbaud, “a verdadeira vida é ausente”, não é aqui, é alhures, como aquele dito sapiencial ressurrecional: «Por que buscais entre os mortos aquele que está vivo? Não está aqui…!». A ausência é o coração do ser. A verdade do ser é a ausência que se faz presente de um modo bem mais potente do que ver a olhos nus… Ah, mas os teólogos de profissão só vêem evidências. Mas, na verdade, não o são, como o grande Inquisidor, que se aterrorizou diante do Grande Silêncio, do Deus Silente. Sabia e falava de tudo, de teologia, de filosofia, de poesia, de humanismo…, ‘radioso e feliz pela estima e considerações universais’, e ao mesmo tempo negava-O com o que proferia e fazia (ateísmo religioso prático!). Os humanos falam, Deus silencia-se. Deus Silêncio absoluto, por isso, hoje mais do que nunca, tão poucos são capazes de o escutar. E talvez se encontre mesmo onde e em quem menos se espera.



Onde residirá então o verdadeiro conhecimento, a via do pensamento vagaroso e paciente, que traz à tona o inusitado, mesmo correndo o risco de ser apelidado irracional diante da lógica biométrica actual?



O filósofo alemão Schelling diz-nos: «A experiência de ver um cometa exercerá sempre uma acção particular sobre o coração humano; é como se a aparição de um tal astro ameaçasse a própria terra de um retorno à desolação e ao vazio originários» (Les âges du monde). E depois há um salmo de Mário Castrim, que proclama: «A luz da tua face teus passos no caminho a tua mão em nós esta é a hora de colhermos os frutos» (Do Livro dos Salmos).

Dois modos, duas dialécticas, a do filósofo e a do poeta, que se tocam e dialogam connosco, pois aí está a sua universalidade, a do humano comum. Ora, o que muitos dos atletas do academicismo purista esquecem, é que arte e filosofia conjugam-se, como diz um dos maiores filósofos da actualidade, por sinal, também académico: «O que me anima é a convicção de que a filosofia e a arte estão ambas do mesmo lado, o do poético" (Renaud Barbaras). Ou como constata recentemente Byung-Chul Han: «Eu sou um professor de filosofia numa grande escola de arte em Berlim. Provavelmente sou muito turbulento para ensinar no departamento de filosofia de uma universidade tradicional. A filosofia universitária na Alemanha está, infelizmente!, totalmente congelada e inanimada. Ela não se envolve no tempo presente.»! Para uma melhor compreensão do estado calamitoso da Universitas do conhecimento, o excelente ensaio Sem Fins Lucrativos. Porque precisa a democracia das humanidades?, de Martha Nussbaum. Creio que no futuro próximo a páscoa da Universitas passará por uma reabilitação das antigas Casas da Sabedoria que, no medievo árabe-cristão, proliferam como lugares abertos e integradores do melhor pensamento artístico, humanístico, religioso e científico disponível. O todo do saber disponível vertido num único lugar aberto e criativo.



Como o diria outro poeta eremita, recentemente falecido, «que o meu apagamento seja o meu modo de resplandecer. Não foi isso a vida do Ressuscitado, a de um insondável anonimato até ao fim iluminador, e por isso mais real e presente, e que ainda permanece como o último reduto da sua efectiva potência transformadora?



A tarefa suprema do saber será de “construir uma contradição” e de fazer aparecer a alternância de contradições e de expansões, diástoles e sístoles, como a fonte irradiante de toda a vida. E eis que uma terceira via se instala inadvertidamente nas frinchas do tempo, e aí se faz dom, irradiação de si a outrem. Todavia, a “ruptura instauradora” (Michel de Certeau) começa; o êxodo imparável do provir e dos lugares ancestrais e dos arquétipos não declarados que fazem a nossa percepção e conhecimento do mundo. Onde residirá então o verdadeiro conhecimento, a via do pensamento vagaroso e paciente, que traz à tona o inusitado, mesmo correndo o risco de ser apelidado irracional diante da lógica biométrica actual? Os grandes do pensamento, da criação artística ou da experiência mística religiosa foram inicialmente vistos com desconfiança ou até desdém pelos mestres da academia… Mas já o velho Kant pensava que o conceito sem intuição é vazio como a intuição sem conceito é cega. Um conceito ou discurso lógico pode ser formalmente irrepreensível, mas inócuo, incapaz de instaurar algo novo, no pensamento e na existência.

E todavia, o movimento imparável do desejo do Desejo (de desiderio, estar orientado, saber para onde se vai),a força vidente siderativa, que não se apaga nunca, pois não é da ordem da satisfatio, que nos transporta para o mundo do qual nos sentimos sempre separados, mas que é o nosso solo, a nossa fonte... Poderíamos dizer, os actos crentes são ônticos ou regionais, mas a aspiração, o Desejo, é ontológico, uma deflagração eterna, um rasgão incessante no coração da matéria. Algo como uma geografia (paisagem) ontológica, um espaço que sustém toda a coesão, a do passado, presente e futuro...

Onírica Ressurreição? Talvez desejo profundo de metamorfose, de tudo, ou para o dizermos com o artista eremita Claudio Parmiggiani, de uma «fé em nada mas total», ou como o diria outro poeta eremita, recentemente falecido, «que o meu apagamento seja o meu modo de resplandecer» (Philippe Jaccottet, “Que o fim nos ilumine”). Não foi isso a vida do Ressuscitado, a de um insondável anonimato até ao fim iluminador, e por isso mais real e presente, e que ainda permanece como o último reduto da sua efectiva potência transformadora?



Se há algo que estas páscoas podem fazer por nós, é retirar-nos das zonas sinistras em que podemos mergulhar em diversos momentos da nossa existência pessoal ou colectiva



Ah, luminosa ausência tão presente – a arte da Ressurreição em contramão dos que afirmam tudo perceber mas sem se aperceberem de nada, na verdade, como dizia Kierkegaard, com uma ironia pascal paradoxal: «Ver alguém que jura ter-se dado conta de como Cristo caminhou com a aparência humilde de servo, pobre, desprezado, objecto de escárnio e, como dizem as Escrituras, debaixo de escarros, e ver esse mesmo homem esconder-se cuidadosamente em lugares do mundo onde se está tão agradavelmente, anichar-se no melhor abrigo; ou vê-lo fugir, com tanto receio como para salvar a sua vida, protegida da sombra da direita ou da esquerda, da menor corrente de ar; vê-lo tão bem-aventurado, tão celestemente feliz, tão radioso! E, para que nada falte ao quadro, que a sua emoção o leva até agradecer a Deus – de tão radioso ficar pela estima e pela consideração universais!» (Desespero a doença mortal).

Esperar-nos-á, assim, a promessa de uma Páscoa da Arte, do Pensamento, do Espiritual, como nova e antiga metamorfose do Humano? Que o Sentido do traçado não se obnubile no traço visível, o Ilimitado na fronteira, a Atmosfera na geografia, o Afecto rítmico no monómetro, o Agraciamento no agradecimento imposto… Se há algo que estas páscoas podem fazer por nós, é retirar-nos das zonas sinistras em que podemos mergulhar em diversos momentos da nossa existência pessoal ou colectiva.


Imagem "Il Cristo risorto" | Claudio Parmiggiani | D.R.

 

Paul Séguy
Imagem de topo: "Il Cristo risorto" | Claudio Parmiggiani | D.R.
Publicado em 03.04.2021 | Atualizado em 04.04.2021

 

 
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