Observatório da Cultura
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Nativos digitais: linguagens e rituais

Era uma vez a bússola. A bússola indica o Norte. Se a bússola não indica o Norte é porque não funciona, e não porque não existe o Norte. E a bússola, até há umas décadas atrás, era uma boa metáfora do sentido da vida. Ou seja, uma vez o homem era firmemente atraído pelo religioso como uma fonte de sentido fundamental. Como a agulha de uma bússola, sabia que era radicalmente atraído para uma direção precisa, única e natural: o Norte. Se a bússola não indica o Norte é porque não funciona, e não porque não existe o Norte.

Depois o homem, especialmente com a Segunda Guerra Mundial, começou a usar o radar, que serve para observar e determinar a posição de objetos físicos ou móveis. O radar vai à procura do seu alvo e implica uma abertura indiscriminada até ao sinal mais fraco, e não à indicação de uma direção precisa. E também assim o homem começou a andar à procura de um sentido para a vida, bem como de um Deus presente em qualquer sinal de reconhecimento, capaz de fazer sentir a sua voz. A expressão desta lógica é a pergunta: «Deus, onde estás?». Brota culturalmente daqui “A espera de Godot” e muitas páginas da grande literatura do século XX, por exemplo. O homem era compreendido como um «ouvinte da palavra» - para usar uma célebre expressão do teólogo Karl Rahner, que implicitamente deu forma teológica à metáfora tecnológica do radar - à procura de uma mensagem da qual sentia a necessidade profunda. E hoje? Esta imagem ainda vale?

Na realidade, mesmo se a bússola e o radar continuem ativos como metáforas, não servem já para os jovens. A imagem que hoje tem mais impacto é a do homem que se sente perdido se o seu telemóvel não tem rede ou se o seu equipamento tecnológico (computador, tablet ou smartphone) não pode aceder a nenhuma forma de conexão de rede sem fios. Se antes o radar estava à procura de um sinal, hoje somos nós a procurar um canal de acesso através do qual os dados possam passar. Hoje o homem, mais do que procurar sinais, procura estar sempre pronto para a possibilidade de os receber, sem no entanto procurá-los necessariamente. A consequência extrema é a lógica introduzida pelo sistema "push": quando um dado fica disponível (um e-mail, por exemplo), recebo-o de maneira automática porque tenho aberto um canal de receção.

O homem da bússola, primeiro, e do radar, depois, está portanto a transformar-se num "decoder", isto é, num sistema de acesso e de descodificação da pergunta a partir das múltiplas respostas que lhe chegam sem que ele se preocupe em procurá-las. Vivemos bombardeados por mensagens, sofremos de excesso de informação, o denominado "information overload". O problema atual não é encontrar a mensagem de sentido mas descodificá-la, reconhecê-la sobre a base das múltiplas respostas que recebo.

 

Este texto integra o número 19 do "Observatório da Cultura" (abril 2013).

 

Antonio Spadaro
Assembleia plenária do Pontifício Conselho para a Cultura
Roma, 6-9.2.2013
© SNPC | 11.04.13

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