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Nem toda a arte “religiosa” está ao serviço das igrejas

A liturgia precisa da arte, quer enquanto liturgia da incarnação, quer porque não se pode conceber uma liturgia sem arte. A liturgia confessa a transfiguração da realidade, e a arte é capaz de evocar de modo particular essa transformação, de aludir a este processo de metamorfoses que têm como sujeito o Espírito Santo. Por isso, é verdade que a liturgia necessita da linguagem da arte, expressa na arquitetura, na escultura, na pintura, nos vitrais, na música.

Ao mesmo tempo, porém, a liturgia cristã deve discernir e julgar que obras de arte podem entrar nela e adquirir a capacidade de serem concelebrantes, de serem mistagógicas, isto é, capazes de conduzir ao mistério de Cristo; ou deve avaliar-se se, ao contrário, as obras de arte constituem uma contradição, um impedimento à própria liturgia.

Não nos esqueçamos que há uma arte religiosa, por vezes extraordinária, que, todavia, não é adequada, não tem a capacidade de entrar na liturgia. Hoje reina muita confusão sobre o assunto, e por isso aventura-se com demasiada facilidade pelas sendas da experimentação e do improviso, mas esse modo de proceder contradiz o estatuto da liturgia cristã.

Por isso, é preciso recordar que uma coisa é a arte religiosa, inclusive cristã, e outra é a arte cristã litúrgica; esta é julgada a partir da sua capacidade mistagógica. Nunca devemos esquecer as palavras ditas por Henri Matisse (que suscitaram inclusive alguma surpresa): «Toda a minha obra é religiosa, mas nem todas as minhas obras religiosas podem estar numa igreja».

Qual é, então, o fim a que deve tender a arte quando quer entrar na liturgia? Com a sua beleza, beleza da matéria e da arte humana, é chamada a narrar a beleza da presença e da ação do Senhor vivo. Símbolos e arte testemunham a convicção de que o invisível existe, que a liturgia é uma janela aberta para o invisível, que o crente quer exercitar-se a ver o invisível, para permanecer ancorado num mundo em que o visível parece ser a única possibilidade de leitura. Num mundo limitado ao visível, e, consequentemente, ao empírico, símbolos e arte pedem para serem lidos, para estarem presentes para ajudar os homens a uma compreensão mais profunda e total da sua vocação.

Dito de outra forma, o problema é qual a simbólica, qual  a linguagem e imaginário simbólico pode ativar o desejo espiritual do homem atual e abrir a sua mente e o seu imaginário para o “eschaton” e o eterno, coisa já difícil por si, e hoje ainda mais para o homem contemporâneo constantemente a correr, “em fuga”.

Esta simbólica (e arte) na liturgia deve ter como fim o suscitar a capacidade de gratuidade e de contemplação, não de consumo ou de posse; deve saber introduzir no sentido do mistério, que não o incognoscível, mas aquilo pelo qual o interesse e a procura nunca se esgotam, mesmo quando se lo conhece parcialmente: o mistério, com efeito, e em particular o mistério de Deus, torna-se sempre mais interessante, sedutor, capaz de conduzir a si, na medida em que a ele há uma aproximação progressiva e dele se conhece alguma coisa.

São necessárias uma longa disciplina e uma constante educação de cada cristão, para que possa percecionar a verdadeira beleza na arte, a qual, se é autêntica, ensina, faz memória, emociona, plasma o próprio cristão. E nós devemos acreditar, juntamente com a tradição cristã oriental, que a arte não só pode narrar o agir de Deus, mas pode também refletir-se sobre o cristão que a lê e a habita, transfigurando-o de glória em glória, à imagem daquele que é a fonte de toda a beleza.


 

Enzo Bianchi
In Monastero di Bose
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: BILLPERRY/Bigstock.com
Publicado em 14.02.2020

 

 
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