

Por estes dias, a Igreja e o mundo recordam os 800 anos da morte de S. Francisco de Assis. A Igreja e o mundo – porque, de todos os santos do calendário católico, poucos terão tido um eco semelhante na história. Filho da Itália central na passagem do século XII para o século XIII, nasce numa época expansiva do Ocidente. Graças a um aumento da produtividade agrícola e a um clima talvez mais benigno, a população cresce continuamente há quase dois séculos. Em certas regiões – a Flandres, o Norte de França, o Norte de Itália -, é provável que tenha duplicado. São sobretudo as cidades que absorvem esta explosão demográfica. Burgos episcopais encolhidos atrás de velhas muralhas tornam-se centros de comércio de longo curso, atraem migrantes em busca de trabalho ou riqueza, galgam limites herdados da Antiguidade. As rotas de tráfico e peregrinação com o Oriente, tão importantes para as repúblicas italianas, são percorridas por viajantes que procuram Jerusalém ou especiarias. Mas também os contactos entre o Mediterrâneo e o Norte da Europa se intensificam, fazendo a fortuna de muitos portos atlânticos, de Lubeck a Lisboa. Com o dinamismo urbano e mercantil, surge uma nova classe: a burguesia. Organizada em corporações e comunas, vai exigir a partilha do poder com o rei, o bispo, os senhores de outrora. Mais de meio milénio depois do fim do Império romano, os municípios voltam à Europa, agora pela mão da gente do dinheiro. A mesma que vai financiar, com a Igreja e as monarquias, onde as há, as catedrais góticas, expressão de uma “estética da verticalidade”, nas palavras de Jacques Le Goff, pela qual o orgulho cívico ergue às alturas arcos de pedra. À sua sombra, multiplicam-se as universidades, criação da Idade Média destinada a um futuro brilhante.
É a este mundo rico, activo, seguro de si, que Francisco de Assis prega a pobreza, a humildade, a penitência. A radicalidade de “seguir nu o Cristo nu”, na fórmula de Jacques de Vitry, um dos primeiros a notar, por volta de 1220, o estranho sucesso de “uma ordem que não cessa de crescer em toda a parte pela simples razão de observar fielmente o modo de vida da Igreja primitiva e dos Apóstolos”. Ainda antes da morte de S. Francisco, por volta dos 45 anos, o movimento po ele fundado está presente em toda a Itália, em França, na Alemanha, na Hungria, em Inglaterra, em Aragão, em Castela. Chega a Portugal em 1217. G. K. Chesterton dirá, sem a mesma estranheza mas sobre o mesmo fenómeno, que cada época é convertida pelo santo que mais se afasta dela. Em rigor, os franciscanos e outras ordens mendicantes (dominicanos, carmelitas, eremitas de Santo Agostinho, trinitários) situam-se na sequência de reformas da vita apostolica que, desde o século XI, agitam o monaquismo tradicional e tentam responder às mudanças: as variantes do eremitismo, a Cartuxa, Cister, os cónegos regrantes, as ordens militares, até os Humiliati e os Valdenses, grupos inorgânicos de leigos, aparentemente próximos do franciscanismo, que acabarão por cair na heresia. Mas os mendicantes propõem a mensagem cristã com uma radicalidade inovadora. O Papa Leão XIV fala de “uma revolução evangélica” em que a pobreza se torna “sinal profético da missão” (Dilexi Te, 63).
O que é particularmente verdade no caso de S. Francisco. Para o homem que um dia, perante o bispo e o povo de Assis, deixou as suas roupas aos pés do pai, Pietro Bernadone, e com elas todos os bens, a família, os amigos, os sonhos de juventude, a posição social, a segurança económica, o passado e o futuro, entregando-se a um chamamento de que não conhecia então mais do que o misterioso pedido “Vai e reedifica a minha casa”, a pobreza não era uma circunstância. Não era só um dos votos da vida consagrada ou uma exigência ascética. Era a “Dama Pobreza”. Uma paixão cujo nome tomou de empréstimo à poesia trovadoresca.
Não há, em Francisco, nada do cálculo a que tantas vezes se reduz a religião: o cumprimento de uma moral para obter uma recompensa. O Cristianismo é uma história de amor. A pobreza é a condição existencial do Homem, infinitamente pobre diante de Deus criador e redentor. Por isso a anuncia, não apenas aos seus frades, mas a todos os homens. Ao lado de um ramo masculino, a Ordem dos Frades Menores, e de um ramo feminino, as Clarissas, o Poverello funda uma Ordem Terceira, composta por leigos que querem viver a mesma espiritualidade no quotidiano familiar e profissional. Mas não pára nas fronteiras da Cristandade. Consciente de que todos os filhos de Deus são chamados a amá-Lo, parte durante a V Cruzada para Damieta, onde tenta converter à fé cristã o sultão do Egipto, episódio extraordinário que influenciará profundamente a ligação dos franciscanos ao Oriente e às missões. A tal ponto que a sua Regra dedica um capítulo específico aos irmãos “que vão para entre os mouros e outros infiéis”.
Porque a pobreza é também o ecossistema da missão. Ao contrário das ordens anteriores, o espírito inicial dos franciscanos, depois suavizado (não sem a longa polémica que provocará o cisma entre conventuais e observantes), impede que vivam em casas próprias, e por maioria de razão em clausura, a fim de pregarem e pedirem esmola pelos caminhos do mundo. Francisco faz-se pobre para levar Cristo aos pobres. Carregando só “uma túnica com capelo e outra sem capelo, se for necessária, e cordão e bragas”, como a Regra descreve o hábito, percorre milhares de quilómetros a pé durante vinte anos. A metáfora da vida cristã como peregrinação é para ele uma realidade prática. “A sua pobreza é relacional”, resume Leão XIV: “brota da convicção de que só se recebe a Cristo na entrega aos irmãos” (Dilexi Te, 64).
A pobreza é, por fim, um modo de olhar a Criação, dom que pede ao Homem o louvor e a acção de graças. O tema surge quase obsessivamente na escassa literatura que S. Francisco nos deixou, por exemplo no Cântico das Criaturas ou Cântico do Sol. Escrito em língua vulgar, este texto mostra-nos um místico próximo da cultura popular, o mesmo que usa uma imagem tomada de empréstimo aos trovadores para nomear a pobreza. Mas o Cântico das Criaturas não é apenas um poema: é uma oração. Evidência banal, embora nem sempre notada, que ajuda a desfazer alguns mitos, sobretudo o de S. Francisco como “o primeiro ecologista”. Há uma diferença essencial entre a visão franciscana da natureza e o pensamento ecológico moderno. O ecologismo nasce de um sentimento de perda. Nasce da consciência, muito intensa nas sociedades desenvolvidas contemporâneas, de que a Revolução Industrial e o capitalismo destruíram o frágil equilíbrio da nossa convivência com o mundo natural. Timothy Morton compara esta ideologia pessimista ao “luto por uma mãe que nunca tivemos”, tragédia em que o sentimento de perda cósmica se associa ao de orfandade metafísica.
O Cântico das Criaturas não é isso. Não é uma elegia fúnebre pelo passado utópico que a máquina e o mercado nos tiraram, mas um hino de alegria pela realidade que o Criador nos dá. Não é a melancolia do paraíso perdido, mas a gratidão do paraíso renovado. Não é uma confissão da derrota de Adão, mas um grito de vitória da Humanidade redimida. “Mesmo que fale somente de pedras ou de brisas, a obra do artista vem dizer-nos isto: que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência, mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser.” Está na Arte Poética III de Sophia de Mello Breyner. Mesmo que fale somente de pedras ou de brisas, Francisco de Assis não diz outra coisa sobre a obra de arte absoluta: a Criação.