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O abismo, a voz e o eco

No final do conto de Sophia de Mello Breyner Andresen, «A viagem», lê-se: «Compreendia que agora era ela que ia cair no abismo. Viu que, quando as raízes se rompessem, não se poderia agarrar a nada, nem mesmo a si própria. Pois era ela própria o que ela agora ia perder. / Compreendeu que lhe restavam somente alguns momentos. / Então virou a cara para o outro lado do abismo. Tentou ver através da escuridão. Mas só se via escuridão. Ela, porém, pensou: / – Do outro lado do abismo está com certeza alguém. / E começou a chamar.»

  Entre mitos, antigos e modernos, que procuram encontrar sentido até para o que parece não ter sentido algum, e, assim, dar algum alento aos seres humanos, no meio de um movimento que parece sempre ameaçar a sua existência, e meras mentiras com que se educam as pessoas para melhor as dominar, habitualmente acredita-se que a vida não é um permanente possível abismo. Ora, a magnífica metáfora que Sophia criou para dar a ver a profunda angústia da vida humana, é paradigma do que esta é em cada momento que dela se queira considerar.

A vida não é um abismo. Tal seria, mais do que uma certeza – que ainda é do âmbito psicológico – algo necessário, isto é, algo que não pode não ser. Algo de inevitável, portanto. Ora, que a vida seja um abismo, não é inevitável. Se assim fosse, Sophia não poria a Mulher do conto a chamar, dirigindo rosto e voz para o outro lado do abismo. É que o abismo não é um lugar, é uma situação; uma possível última paixão.

O abismo não é a vida, é a vida sem sentido, seja este sentido imanente, transcendente ou imanente-e-transcendente.



Para os que encontram todo o sentido apenas na transcendência, negando sentido, sequer possível, à imanência, o caminho mais rápido é o da anulação da imanência, vivendo a vida não como um abismo, mas como um mal, quanto mais rapidamente a imanência – o mundo – for destruído, tanto melhor



O primeiro caso é o dos ateus, cuja vida pode ter sentido apenas enquanto processo exclusivamente físico, pois nada mais há do que a física entendida em termos modernos; a «matéria», se se preferir. Todo o sentido possível e realizável e realizado começa e acaba absolutamente com e nesta matéria. Do mais belo poema, à mais bela criança, ao mais elevado feito, qualquer, humano, tudo se esgota no que exactamente foi e no inexorável movimento entrópico que constitui isso a que se chama universo.

Aqui, a vida não é um abismo, enquanto é vida, pelo menos vida que se aceita como tal e que provisoriamente prossegue anti-entropicamente o seu caminho. O abismo é o fim da vida. Fim que é apenas um abrupto terminar, pois, como parece no conto de Sophia, tudo desaparece finalmente. Tudo: nada fica, nada permanece. Nem mesmo o néscio subterfúgio da alheia memória dura mais que o último ato memorial de alguém.

O abismo é, então, o nada. O nada absoluto do que se é, mas também o nada absoluto, sem mais. É este abismo, todavia, que, contemplado, nos pode fazer dar ao que somos, ao que se é, a devida importância ontológica, isto é, segundo o ser, que é precisamente isso que nos põe no ainda-não-nada.

Deste ponto de vista, os ateus de verdade – os outros já se mataram – são os que, contemplado o abismo do nada, permanecem no ser, no que é o maior ato de fé que se pode imaginar. Fé humana, dura, difícil, em que o ‘crente’ apenas se apoia na intuição do absoluto do ser e ama tal absoluto, mesmo que tudo acabe em tragédia.

Estranhamente, faz lembrar a famosa cena evangélica do «cálice». Há um momento necessário de ateísmo em cada crucificável. Tem, assim, de o haver em cada dito cristão: contemplar o nada «de tudo» como possibilidade. Depois, avançar resolutamente para a cruz que é a vida de cada dia, cruz não porque seja sofrimento, mas porque a vida pode caminhar para um abismo.



O cristão vive e ama a imanência como dom de Deus, e como meio de se aproximar de Deus. A vida, para o cristão, não é um abismo, embora não saiba exatamente como se relaciona a imanência com a transcendência



É neste sentido que a fé, a teologal e a básica-humana, é isso que vence a cruz; isso sem o que ninguém daria um primeiro passo, isso sem o que a entropia venceria imediatamente o ser humano.

Neste sentido, também, os passos da cruz de Cristo são o melhor remédio anti-entrópico: é a ação pelo universal bem que vamos fazendo que adia – e, ao adiar, vai matando provisoriamente – a entropia nossa de cada dia. Nossa, mas nós, enquanto pudermos, não-dela.

Ainda neste sentido, terrível, abissal, Cristo seria o maior ateu se não desse os passos que deu até à cruz, pois estaria a negar Deus, negando-se, deste modo, a si próprio como Deus e como homem.

É mesmo muito sério o símbolo abissal da paixão de Cristo. A paixão é abissal, não a Páscoa, que é triunfo sobre a possibilidade do abismo.

Para os que encontram todo o sentido apenas na transcendência, negando sentido, sequer possível, à imanência, o caminho mais rápido é o da anulação da imanência, vivendo a vida não como um abismo – para eles, não há abismo algum, pois a transcendência não é abismo, é porto único –, mas como um mal, quanto mais rapidamente a imanência – o mundo – for destruído, tanto melhor, acabando com o sofrimento que é viver.



A Mulher do conto, tendo desbaratado todas as oportunidades de viver, ainda assim, acredita que há um outro lado do abismo, deste modo acreditando que será possível aniquilar o abismo em vez de ser o abismo a aniquilá-la



Os transcendentalistas extremos são os maiores aliados da entropia, tudo fazendo para a acelerar. Felizmente, a entropia – que não é uma senhora que oiça coisas que se dizem por aí – é de tal modo grande que, na verdade, nada do que façam interfere grandemente com ela no sentido de a acelerar em termos gerais; apenas em termos estreitamente paroquiais.

Deste grupo, não sai ou pode sair ‘cristo’ (sem maiúscula propositadamente) algum, antes se produz o maior número de mártires possível, forma considerada inteligente de apresar a desimanentização da imanência.

O cristianismo – não é o ‘social’ ou o ‘histórico’, que bem podem ser anticristãos – é o modo de viver – segundo o Homem-Cristo/Cristo-Homem – que consiste em amar todo o ser, pois todo o ser, no que é de ontologicamente positivo, é dom, feito imanente, da transcendência. É isto que é dito miticamente em Génesis 1.

O cristão vive e ama a imanência como dom de Deus, e como meio de se aproximar de Deus. A vida, para o cristão, não é um abismo, embora não saiba exatamente como se relaciona a imanência com a transcendência. É aqui que entra a fé, a humana imbricada pela teologal. É esta fé que liga ontologicamente a imanência e a transcendência para o cristão. Esta fé é a parte «de Cristo» que cada cristão é. Se não a é, não é cristão. Pertence a uma das duas categorias já expostas.



Num tempo de humana catástrofe, em que muitos encaram os últimos dias de sua vida como certo abismo, que os cristãos vivam a alegria do amor, do amor seu, que é amor de Deus em suas mãos



Todavia, Sophia tem razão no seu conto: na imanência, tudo corre – bom Heraclito! – para um qualquer fim. Tudo o que foi desaparece, tudo matando do que foi – bom Agostinho! –, nada deixando senão a nós próprios com a memória, como memória do que vivemos; do que não vivemos, nada há.

Todavia, a Mulher do conto, tendo desbaratado todas as oportunidades de viver, ainda assim, acredita que há um outro lado do abismo, deste modo acreditando que será possível aniquilar o abismo em vez de ser o abismo a aniquilá-la.

Ora, apenas uma voz que responda à voz da mulher elimina o abismo: se houver quem responda, haverá possibilidade de anular o abismo, com a ajuda de tal voz. Se não, então, tudo é abismo.

A Páscoa não é abismo, porque a Páscoa não é a negação da voz que nos pode responder. Pelo contrário, a Páscoa é a voz que nos responde. A Páscoa é a negação do sofrimento. Não é a negação da realidade do ato da cruz, mas é a negação de que tal ato triunfe. E que é o sofrimento uma vez terminado? Apenas uma memória, que nada é se não fizermos dele, morto, que é já nada, o nosso ídolo e a ele adorarmos, na pior forma de ateísmo que existe que é a que consiste em praticar a religião do «nosso umbigo».

Num tempo de humana catástrofe, em que muitos encaram os últimos dias de sua vida como certo abismo, que os cristãos vivam a alegria do amor, do amor seu, que é amor de Deus em suas mãos.

Há um absoluto de bem em cada ato de amor e nesse absoluto encontra-se um especial prazer espiritual que nos põe imediatamente um gosto a transcendência na alma.

Que se viva!


 

Américo Pereira
Universidade Catóica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: 1STunningArt/Bigstock.com
Publicado em 07.04.2020

 

 
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