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O canto popular religioso do Baixo Alentejo: Um contributo para a evangelização e para a cultura

A 27 de novembro de 2014, a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), declarou o cante alentejano como Património Imaterial da Humanidade, enchendo de júbilo as gentes do Alentejo e creio que também de todo o país.

Comungo plenamente desta alegria coletiva, tanto mais que fiz par­te da Comissão Científica que preparou a candidatura agora vencedora. E com todo o mérito. O cante é único, não tem similar em Portugal: é belo e poderoso, é solene e emotivo, toca a alma, é imagem de marca do povo alentejano.

Como é sabido, o cante tem duas vertentes: a vertente profana e a religiosa. Uma e outra se completam, porque são duas dimensões da mesma alma do povo alentejano.

Os alentejanos sempre usaram o seu cante para se relacionarem com Deus, para rezar.

Quero, a propósito, recordar aqui palavras encorajadoras do Concílio Vaticano II, num importante documento de 1963:

«Promova-se muito o canto popular religioso para que os fiéis possam cantar, tanto nos exercícios de piedade como nos próprios atos litúrgicos ... (SC,118). Em certas regiões (... ) há povos com tradição musical própria, a qual tem extraordinária importância na sua vida religiosa e social. Estime-se como se deve e dê-se-lhe o lugar que lhe compete ... " (Sacrosanctum Concilium, 119).

Esta declaração do Concílio Vaticano II é muito importante. Como diz o citado documento, «a tradição musical da Igreja é um tesouro de inesti­mável valor, que excede todas as outras expressões de arte...».



Com estes cânticos, hoje bastante divulgados e conhecidos mesmo fora do Alentejo, (em todo o país, pelo menos alguns), ajudámos o povo alentejano a louvar a Deus com a bela e majestosa música da sua terra, criada pelos seus antepassados



E na Instrução Musicam Sacram (n. 4, b), afirma-se: «Com o nome de Música Sacra designam-se aqui: o canto gregoriano, a polifonia sagrada antiga e moderna nos seus vários géneros, a música sagrada para órgão e outros instrumentos admitidos e o canto popular, litúrgico e religioso».

O canto popular religioso está, portanto, incluído na categoria de música sacra!!! A Igreja aceita-o, assume-o como parte do seu tesouro mu­sical e recomenda-o para sua liturgia!

Estimulados por esta importante declaração do Concílio, eu próprio e o Padre António Aparício (que comigo integrava a Comissão de Liturgia de Beja) iniciámos em 1978 um trabalho lento e refletido de recolha e recuperação do canto tradicional religioso do Baixo Alentejo.

Além da motivação cultural, sempre presente no nosso espírito, moveu-nos também uma motivação pastoral e litúrgica: recuperar, reatar os elos de corrente partida, pondo de novo na boca e no coração dos crentes as velhas e majestosas melodias que o povo alentejano outrora criou e cantou nas várias manifestações da religiosidade popular.

Aos poucos fomos então descobrindo um riquíssimo repertório utilizado especialmente em certas épocas do ano, ligado de algum modo ao ritmo do ano litúrgico e às grandes tradições populares religiosas (Natal, Reis, Quaresma, Festas de Nossa Senhora e dos Santos, etc.).



Pudemos experimentar como os cantos tradicionais religiosos do Alentejo (cantaram-se três) empolgaram as pessoas, fizeram-nas vibrar de entusiasmo e fervor, tocaram-lhes os corações. Que beleza ouvir esta multidão a rezar cantando a música da sua terra!



No trabalho sistemático de recolha dos velhos cantos tradicionais religiosos do Baixo Alentejo, que durou de 1978 até 1982, foram visitadas, al­gumas por duas e três vezes, mais de quarenta localidades, particularmente aldeias e "montes".

Desde os "montes" perdidos do concelho de Mértola a meios maiores, como Serpa, Vila Verde de Ficalho, Aldeia Nova de S. Bento, Pias, Baleizão, Cuba, Peroguarda, o concelho da Vidigueira, algumas povoações do concelho de Beja, etc., etc., nós contactámos muitas pessoas idosas que nos cantaram o que sabiam.

O vasto material recolhido em gravação, depois de selecionado, revisto literariamente e transcrito para a pauta musical, começou a ser trabalhado pelo Coro do Carmo de Beja, que o foi testando na Igreja do Carmo e a pouco e pouco o foi divulgando em celebrações transmitidas quer pela Rádio (RDP) quer pela Televisão, e também pela publicação de duas cassetes (agora já numa versão atualizada em 2 CDs) e dos dois livrinhos correspondentes com o título genérico de Cânticos Religiosos Alentejanos (hoje agrupados no livro Cânticos Alentejanos, copiado a computador, das Edições Paulinas, 2001).

Nesse livro figuram ao todo 35 cânticos, incluindo alguns que o saudoso Padre António Marvão tinha recolhido e publicado no seu "Cancioneiro Alentejano". Ultimamente, a partir das gravações efetuadas, que conservo, e de outras fontes que entretanto consegui, recuperei mais uns 5 ou 6, que foram cantados nos Concertos de Reis do Coro do Carmo de Beja, dos últimos anos. Mas isto é apenas uma parte do material recolhido...



Sem estes cantos a celebração seria mais pobre. Numa celebração que inclua cânticos alentejanos, estes são sempre os mais participados pela assembleia



O repertório deste tipo de canto está organizado em 6 grandes temas genéricos: cânticos do ciclo do Natal, certamente o tema mais vasto e mais rico: cânticos da Quaresma/Paixão; cânticos aos Santos Populares, cânticos a Nossa Senhora; cânticos para pedir a Deus a graça da chuva e cânticos das Almas.

Digamos alguma coisa sobre os dois primeiros temas:

O ciclo de Natal, com os seus cânticos do Deus Menino, das Janeiras e dos Reis Magos é certamente o mais rico de toda a tradição da música popular religiosa do Baixo Alentejo. Foram muitas as localidades onde encontrámos este tríptico completo, verificando também que foram esses os cânticos que mais resistiram à erosão do tempo. Essa constatação era já assinalada nos finais do séc. XIX:

«O que ainda subsiste, apesar da sua origem secular - tão secular como a do presépio é o costume dos descantes ao Deus Menino, às Janeiras e aos Reis» (Dias Nunes, em A Tradição de Serpa, janeiro de 1899).

Deste vastíssimo repertório encontrámos cantos ao Menino em S. Matias, Cabeça Gorda, Beringel, Trigaches, Trindade, Baleizão, Vidigueira, Selmes, Cuba, Vila Alva, Peroguarda, Pias, Aldeia Nova de S. Bento, Serpa, Brinches, A-do-Pinto, Vila Verde de Ficalho, Safara, Santo Aleixo da Restauração, Aljustrel, Messejana, S. Marcos da Ataboeira, etc.



A riqueza de um povo está nas suas raízes, na sua cultura que tem de ser preservada. Ao promover este trabalho, a Igreja deu um claro sinal de inculturação da fé



Encontrámos cantos dos Reis em Marmelar, Neves, Trigaches, Baleizão, Peroguarda, Aldeia Nova de S. Bento, Pias, Vila Verde de Ficalho, Brinches, Almodôvar, Monte dos Penedos (Mértola), S. Miguel do Pinheiro e Castro Verde.

Quanto às Janeiras, encontrámo-las em Cuba, Baleizão, A-da-Pinto, Vila Verde de Ficalho, Brinches, Aldeia Nova de S. Bento, Cercai do Alentejo, Vila Nova de Milfontes, Zambujeira, Espírito Santo (Mértola), Monte dos Penedos, etc.

Os cânticos da Quaresma / Paixão. Segundo testemunhos recolhidos, o tempo sagrado da Quaresma era escrupulosamente respeitado pelo povo. Durante ele, mesmo nos campos, não se cantavam as modas profanas, mas tão-somente os "romances" populares com algum fundo religioso, (por ex. O Lavrador da arada, Santa Iria, etc., como era o caso de Selmes e outras terras) assim como os cantos sacros à volta do tema da Paixão de Cristo. Este é, de facto, um dos temas mais caros à devoção popular.

Um dos cânticos mais interessantes é "Além vai Jesus", que ouvimos cantar em Aldeia Nova de S. Bento e em Vila Verde de Ficalho, por fontes diferentes, e cujo texto completo, com 20 quadras, encontrámos mais tarde num dos números da já citada revista etnográfica A Tradição, publicada em Serpa de 1899 a 1904; outros: "Os martírios do Senhor", "Senhora das Dores", de Pias, que sempre fez parte da tradição viva daquela terra; "Pelas vossas chagas", de Pedrógão; "Bendita e louvada seja" de Selmes e de Serpa, em versões bastante diferentes; "Perdão meu Deus" e "Ó meu divino Senhor", da região de Mértola, etc.



Criou-se nas populações um novo interesse pelos velhos cânticos ligados às suas tradições: os grupos corais aprenderam-nos de novo e, a pouco e pouco, voltaram a cantá-los à volta da fogueira de Natal, pelas ruas, de casa em casa, e mesmo nas igrejas das suas terras



Os frutos deste trabalho - seja do ponto de vista pastoral e litúrgico seja cultural - são bem visíveis:

Com estes cânticos, hoje bastante divulgados e conhecidos mesmo fora do Alentejo, (em todo o país, pelo menos alguns), ajudámos o povo alentejano a louvar a Deus com a bela e majestosa música da sua terra, criada pelos seus antepassados.

De facto, hoje no Alentejo quase não há Missa ou procissão em que não se cante algum cântico da tradição popular religiosa. Por exemplo, a 30 de novembro de 2014, na Missa de entrada na Diocese do Bispo Coadjutor de Beja, D. João Marcos, participada por largas centenas de pessoas do Alentejo e de fora dele, pudemos experimentar como os cantos tradicionais religiosos do Alentejo (cantaram-se três) empolgaram as pessoas, fizeram­nas vibrar de entusiasmo e fervor, tocaram-lhes os corações. Que beleza ouvir esta multidão a rezar cantando a música da sua terra! Sem estes cantos a celebração seria mais pobre. Numa celebração que inclua cânticos alentejanos, estes são sempre os mais participados pela assembleia.

Também nas procissões do Alentejo se incluem alguns destes majestosos cânticos. Assim acontece, por exemplo na procissão do Corpo de Deus, em Beja: ao longo das ruas da cidade, talvez perto de umas 1000 pessoas entoam o canto do "Bom Pastor" e o "Senhor Jesus Pão da Vida"acompanhados pela Banda Filarmónica Capricho Bejense.



Muitas destas pessoas não entravam nas igrejas e agora fazem-no sem problemas, arrastando também algum público consigo. Ajudam a uma vivência mais cristã do Natal



Creio poder afirmar que este trabalho de recolha e recuperação do canto popular religioso do Baixo Alentejo tem facilitado a aproximação dos alentejanos à Igreja:

- A nossa recolha e divulgação deste reportório chamou a atenção para um importante e rico património que, à altura, estava praticamente esquecido e ignorado; a riqueza de um povo está nas suas raízes, na sua cultura que tem de ser preservada. Ao promover este trabalho, a Igreja deu um claro sinal de inculturação da fé.

- Passados estes anos, podemos constatar que este trabalho e a sua divulgação, especialmente pelo Coro do Carmo de Beja, criou nas populações um novo interesse pelos velhos cânticos ligados às suas tradições: os grupos corais aprenderam-nos de novo e, a pouco e pouco, voltaram a cantá-los à volta da fogueira de Natal, pelas ruas, de casa em casa, e mesmo nas igrejas das suas terras.

- Alguns dos belíssimos cantos ao Menino, às Janeiras e aos Reis estão agora de novo na boca e no coração dos crentes quer nas celebrações litúrgicas de algumas paróquias, quer em encontros nas “Noites de canto ao Menino", organizados pelos grupos corais em várias terras do Alentejo - a começar por Beja, Santa Clara de Louredo, Trindade, Cuba, Faro do Alentejo, etc., etc. (em algumas delas eu estive presente), e até na zona da Grande Lisboa, onde há vários corais da diáspora alentejana.

- Isto é um fenómeno novo. Estes encontros envolvem no seu todo várias dezenas de grupos de cante, masculinos e femininos. A valorização destas manifestações da religiosidade popular também é, a meu ver, um contributo para a evangelização e para a preservação da cultura popular. Muitas destas pessoas não entravam nas igrejas e agora fazem-no sem problemas, arrastando também algum público consigo. Ajudam a uma vivência mais cristã do Natal.



Diz-se que Giacometti ficou tão fascinado por estas duas melodias natalícias que quis ser sepultado em Peroguarda - a terra que as criou e onde ele as ouviu cantar. E assim aconteceu



Além disso, as pessoas aprendem a amar e a dar mais valor ao que é seu. Por exemplo, no concelho de Ferreira do Alentejo, eu sei que as pessoas de Peroguarda têm orgulho nos dois belíssimos cantos natalícios ali nascidos: o sereno Canto ao Deus Menino (que a D. Inês cantou várias vezes com o Coro do Carmo nos nossos Concertos de Natal) e o solene canto dos Reis. E com toda a razão.

Parece que ainda estou a ouvir o Sr. Cara Nova a entoá-lo para nós na sua casa, à entrada de Peroguarda, com uma voz de barítono potente e bem timbrada. Aquele homem não passou por nenhuma escola de canto, mas ficaria muito bem em qualquer palco onde se fizesse música erudita. Como cantava bem! Como fazia de uma forma espontânea os difíceis melis­mas daquela bem trabalhada melodia!

Diz-se que Giacometti ficou tão fascinado por estas duas melodias na­talícias que quis ser sepultado em Peroguarda - a terra que as criou e onde ele as ouviu cantar. E assim aconteceu. Haverá outras razões... Mas estas devem ter pesado muito na vontade do musicólogo da Córsega...

A melhor forma de honrar este património é torná-lo vivo, cantá-lo. Eu próprio, quando oportuno, incluo sempre alguns destes cânticos nos programas dos concertos do Coro do Carmo de Beja: cânticos natalícios na quadra de Natal, cânticos quaresmais no Tempo da Quaresma e cânticos a Nossa Senhora especialmente no Tempo Pascal e no mês de maio.

Eu sinto, todos sentimos que a Declaração do Cante como Património Imaterial da Humanidade também diz respeito a esta parte importante do repertório e que isso nos trouxe ainda mais responsabilidade para continuar a preservar e a divulgar o rico e abundante canto popular religioso do Baixo Alentejo.


 

P. António Cartageno
Comissão de Candidatura do Cante Alentejano a Património da Humanidade, presidente do Serviço Nacional de Música Sacra
In Eborensia, n.º 53
Imagem: Monumento ao Cante Alentejano, Casével, Castro Verde | Alberto Novo/Bigstock.com
Publicado em 27.12.2019

 

 
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