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O medo dos pobres é o novo e verdadeiro racismo

«Eu não sou racista, mas…» Quem fala assim poderá ter razão. Não, não é racista. Não detesta todos aqueles que envergam uma pele “diversamente branca”. Não é como Hitler, que se recusa a apertar a mão a Jessie Owens, que em 1936 chega a Berlim, contra o parecer de uma parte significativa do Comité Olímpico dos EUA e dos seus próprios irmãos negros, e “rapina” em poucas horas quatro medalhas de ouro. Quem fala assim, tiraria de boa vontade com um Owens uma selfie, e dela se vangloriaria com os seus compadres, que também não são racistas, «mas…».

«Mas» o quê? Provavelmente não é propriamente racista, mas muito pior. Sofre de “aporofobia”, palavra que em Portugal ainda não entra nos principais dicionários, e que talvez nunca chegue à linguagem comum. É formada por dois termos gregos: “áporos”, sem recursos, e “phóbos”, temor: medo dos pobres. Eles, os pobres, são desprezados e postos à margem.

Se em Portugal desembarcassem frotas de norte-africanos bem vestidos, com o porta-moedas cheio de cartões de crédito, alguém levantaria algum tumulto contra o invasor? Acontece já para os desportistas, as modelos, todos aqueles que pertencem ao grande circo do sucesso. Se és rico, a cor da tua pele, a tua religião, a tua terra de origem são detalhes irrelevantes.

O pobre negro é desprezado não porque é negro, mas porque é pobre. As causas devem ser procuradas na natureza profunda da sociedade de consumo a que pertencemos muito mais profundamente do que poderíamos supor, ou seja, com o corpo, mas também com a alma.



O pobre, privado de capacidade contratual, torna-se um indivíduo “não necessário”. Inútil, supérfluo, sacrificável. Indigno de piedade e compaixão. Um perdedor sem direitos. Daqui emergem todos os lugares comuns que enchem bocas ávidas e áridas



Se somos aquilo que consumimos, e medimo-nos a nós próprios e somos medidos a partir dos nossos consumos (hábitos, automóvel, telemóvel, férias… estilo de vida em geral), quando perdemos isso, deixamos de ser alguém.

Pode acontecer por ganância, por gastarmos mais do que podemos; ou por desgraça, porque perdemos o trabalho, despesas médicas inesperadas secarem os nossos recursos, ou qualquer outro imprevisto. Quem se torna pobre perde a identidade, se a identidade depende do que consome.

Explica-o bem o sociólogo Pietro Piro: o pobre «é o fantasma da mentira em que vivemos». A mentira: os  pobres são a outra face da sociedade de consumo, os descartados que ela necessariamente produz.

É cruel dizê-lo, mas há quem – os devotos da capitalismo predatório, os idólatras do consumo – precise dos pobres, porque quanto mais aumentarem os excluídos, mais os grupos de privilégio podem sentir-se semelhantes aos deuses. Venceram por causa dos seus méritos; os pobres perderam por causa dos seus deméritos, e por isso são desprezados. Uma mentira colossal, mas é assim.

“Aporofobia” foi declarada “palavra do ano” em 2017, em Espanha, tendo entrado no dicionário da Real Academia. Levou-a à ribalta a filósofa Adela Cortina, autora de “Aporofobia, a recusa do pobre”. Expulso do circo do consumo, o pobre precipita-se num vazio socio-político, ficando sem papel social.

O pobre, privado de capacidade contratual, torna-se um indivíduo “não necessário”. Inútil, supérfluo, sacrificável. Indigno de piedade e compaixão. Um perdedor sem direitos. Daqui emergem todos os lugares comuns que enchem bocas ávidas e áridas: «Primeiro nós, depois os outros»; «porque fazem tantos filhos, se são pobres?» (como se eles, os ricos, os fizessem); e «eu não sou racista, mas…»: têm razão, são muito piores.


 

Adaptado a partir de texto de Umberto Folena
In Avvenire
Trad. / adapt.: Rui Jorge Martins
Imagem: motortion/Bigstock.com
Publicado em 03.03.2020

 

 
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