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O nosso irmão Judas

Há um nome que se profere na missa em comemoração do Cenáculo do Senhor, um nome que assusta, o nome de Judas, o traidor. Um grupo das vossas crianças representa os apóstolos; são doze. Todas inocentes, boas, ainda não aprenderam a trair, e Deus queira que não apenas elas, mas todos os nossos filhinhos não aprendam a trair o Senhor. Quem trai o Senhor, trai a sua alma, trai os irmãos, a sua consciência, o seu dever, e torna-se num infeliz. O Senhor está presente no reflexo de dor desta traição, que deve ter dado ao coração do Senhor um sofrimento imenso.

Pobre Judas. O que passou pela alma dele, não sei. É uma das personagens mais misteriosas que encontramos na Paixão do Senhor. Nem sequer procurarei explicá-lo, contento-me em pedir-vos um pouco de piedade pelo nosso pobre irmão Judas. Não vos envergonheis de assumir esta irmandade. Eu não me envergonho, porque sei quantas vezes traí o Senhor; e acredito que nenhum de vós deve envergonhar-se dele. E ao chamá-lo irmão, estamos na linguagem do Senhor.

Quando recebeu o beijo da traição, no Getsémani, o Senhor respondeu-lhe com aquelas palavras que não devemos esquecer: «Amigo, com um beijo trais o Filho do homem!». Amigo! Esta palavra, que diz a infinita ternura da caridade do Senhor, faça-vos compreender por que neste momento eu o chamei irmão.



Quanta gente tem o ofício de Satanás: destruir a obra de Deus, desolar as consciências, espalhar a dúvida, insinuar a incredulidade, remover a confiança em Deus, eliminar Deus dos corações de tantas criaturas



No Cenáculo, Jesus tinha dito «não vos chamarei servos, mas amigos». Os apóstolos tornaram-se os amigos do Senhor: bons ou não, generosos ou não, fiéis ou não, permanecem sempre os amigos. Podemos trair a amizade de Cristo, mas Cristo nunca nos trai, nunca trai os seus amigos; mesmo quando não o merecemos, mesmo quando nos revoltamos contra Ele, mesmo quando o negamos, diante dos seus olhos e do seu coração somos sempre os amigos do Senhor. Judas é um amigo do Senhor mesmo no momento em que, ao beijá-lo, consumava a traição do Mestre.

Como é que um apóstolo do Senhor acabou como traidor? Conheceis, meus queridos irmãos, o mistério do mal? Sabeis dizer-me como nos tornámos maus? Vimos crescer o mal, não sabemos sequer porque nos abandonámos ao mal, porque nos tornámos blasfemos, negacionistas. Nem sabemos porque voltámos as costas a Cristo e à Igreja. De onde veio o mal? Quem o ensinou? Quem nos corrompeu? Quem nos tirou a inocência? Quem nos tirou a fé? Quem nos tirou a capacidade de acreditar no bem, de amar o bem, de aceitar o dever, de enfrentar a vida como uma missão?

Judas, nosso irmão! Irmão nesta miséria comum e nesta surpresa! Alguém, todavia, deve tê-lo ajudado a tornar-se o traidor. Há uma palavra no Evangelho, que não explica o mistério do mal de Judas, mas que o destaca de maneira impressionante: «Satanás ocupou-o». Tomou posse dele, alguém o deve ter introduzido.



Por vezes também nós nos vendemos, até por menos de trinta denários. Há quem acredite ter feito negócio ao vender Cristo, ao renegá-lo, colocando-se do lado dos inimigos. Acredita que ganhou um lugar, um pouco de trabalho, uma certa estima, uma certa consideração



Quanta gente tem o ofício de Satanás: destruir a obra de Deus, desolar as consciências, espalhar a dúvida, insinuar a incredulidade, remover a confiança em Deus, eliminar Deus dos corações de tantas criaturas. Esta é a obra do mal, é a obra de Satanás. Agiu em Judas e pode agir também dentro de nós, se não estivermos atentos. Por isso o Senhor disse aos seus apóstolos, no horto das Oliveiras: «Estai despertos e orai, para não entrardes em tentação».

E a tentação começou com o dinheiro. As mãos que contam o dinheiro. Quanto me dais para eu o pôr nas vossas mãos? Trinta denários. Pagos depois de Cristo ter sido preso e levado ao tribunal. Vede a troca! O amigo, o mestre, aquele que o tinha escolhido, que dele tinha feito um apóstolo, aquele que nos fez filhos de Deus; que nos deu a dignidade, a liberdade, a grandeza dos filhos de Deus. Trinta denários. Escasso lucro. Vale pouco uma consciência.

Por vezes também nós nos vendemos, até por menos de trinta denários. Há quem acredite ter feito negócio ao vender Cristo, ao renegá-lo, colocando-se do lado dos inimigos. Acredita que ganhou um lugar, um pouco de trabalho, uma certa estima, uma certa consideração entre certos amigos, que se regozijam por poder arrancar o que de melhor existe na alma e na consciência de alguns dos seus companheiros.



O que nos importa Deus? Deus não se vê, Deus não nos dá de comer, Deus não nos faz divertir, Deus não dá a razão da nossa vida. Os trinta denários. E não temos força para os manter nas mãos. E vão-se. Porque onde a consciência não está tranquila, também o dinheiro se torna um tormento



Vedes o ganho? Trinta denários? Em que coisa se tornam estes trinta denários? Vede Judas, no dia de amanhã, quando Cristo estiver para ser condenado à morte. Quando ouviu o «crucifica-o!», quando o viu espancado no átrio de Pilatos, o traidor encontra um gesto, um grande gesto. Vai até onde estavam reunidos os chefes do povo, aqueles que o tinham comprado, aqueles por quem se tinha deixado comprar. Tem na mão a bolsa, toma os trinta denários, lança-os na sua direção, tomem, é o preço do sangue do Justo. Uma revelação de fé avaliou a gravidade do seu delito. Já não contavam mais, estes denários. Tinha feito tantos cálculos sobre esse dinheiro. O dinheiro. Trinta denários.

O que importa da consciência, o que importa ser-se cristão? O que nos importa Deus? Deus não se vê, Deus não nos dá de comer, Deus não nos faz divertir, Deus não dá a razão da nossa vida. Os trinta denários. E não temos força para os manter nas mãos. E vão-se. Porque onde a consciência não está tranquila, também o dinheiro se torna um tormento. Há um gesto, um gesto que denota grandeza humana. Lança-lhes as moedas. Acreditais que aquela gente compreendeu alguma coisa? Recolhem-nas e dizem: «Dado que têm sangue, disponhamo-las à parte. Compraremos um pouco de terra e dela faremos um cemitérios para os forasteiros que morrem durante a Páscoa e as outras grandes festas do nosso povo».

Aqui a cena muda, amanhã será aqui, quando a cruz se descobrir, vereis que há dois patíbulos: há a cruz de Cristo e há uma árvore onde o traidor se pendurou. Pobre Judas. Pobre irmão nosso. O maior dos pecados não é o de vender Cristo; é o de desesperar. Também Pedro tinha negado o Mestre; e depois olhou-o e pôs-se a chorar, e o Senhor recolocou-o no seu lugar: o seu vigário. Todos os apóstolos abandonaram o Senhor e regressaram, e Cristo perdoou-os e retomou-os com a mesma confiança. Acreditai que teria havido lugar também para Judas se ele tivesse querido, se tivesse ido aos pés do Calvário, ou se pelo menos tivesse olhado para Jesus numa esquina ou curva do caminho da via-sacra: a salvação teria chegado também a ele. Pobre Judas.



Esta é a alegria: que Cristo nos ama, que Cristo nos perdoa, que Cristo não quer que nos desesperemos. Mesmo quando nos revoltamos contra Ele, mesmo quando o blasfemamos



Uma cruz e uma árvore. Pregos e uma corda. Experimentai confrontar estes dois fins. Dir-me-eis: «Morre um e morre o outro». Eu, porém, perguntar-vos-ei qual é a morte que vós escolheríeis, sobre a cruz, como Cristo, na esperança de Cristo, ou pendurados, desesperados, sem nada pela frente.

Perdoai-me se nesta tarde, que deveria ter sido de intimidade, eu vos trouxe considerações tão dolorosas, mas eu quero bem também a Judas, é o meu irmão Judas. Rezarei por ele também esta tarde, porque eu não julgo, eu não condeno; deverei julgar-me a mim, deverei condenar-me a mim. Não posso não pensar que também para Judas a misericórdia de Deus, este abraço de caridade, aquela palavra «amigo», que o Senhor lhe disse enquanto ele o beijava para o trair, não posso pensar que esta palavra não tenha feito caminho no seu pobre coração. E talvez o último momento, ao recordar aquela palavra e a aceitação do beijo, também Judas terá sentido que o Senhor lhe continuava a querer bem e o recebia entre os seus. Talvez o primeiro apóstolo que tenha entrado juntamente com os dois ladrões. Um cortejo que certamente parece que não presta honra ao Filho de Deus, como alguns o concebem, mas que revela a grandeza da sua misericórdia.

E agora, antes de retomar a missa, repetirei o gesto de Cristo na Última Ceia, lavando as nossas crianças que representam os apóstolos do Senhor no meio de nós, beijando aqueles pezinhos inocentes, deixai que eu pense por um momento no Judas que tenho dentro de mim, no Judas que talvez também vós tenhais dentro. E deixai que eu peça a Jesus, a Jesus que está em agonia, a Jesus que nos aceita como somos, deixai que eu lhe peça, como graça pascal, que me chame amigo. A Páscoa é esta palavra dita a um pobre Judas como eu, dita a pobres Judas como vós.

Esta é a alegria: que Cristo nos ama, que Cristo nos perdoa, que Cristo não quer que nos desesperemos. Mesmo quando nos revoltamos contra Ele, mesmo quando o blasfemamos, mesmo quando recusarmos o sacerdote no último momento da nossa vida, recordai-vos que para Ele nós seremos sempre os amigos.


 

P. Primo Mazzolari
Quinta-feira Santa de 1958
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 01.04.2021 | Atualizado em 03.04.2021

 

 
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