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Rumo ao amor, dia 11: O perdão

É manhã cedo. Acendi uma vela diante do ícone , o caminho ilumina-se e aquece, a Escritura esta aberta no livro do Sirácida que do lado de fora, em cada fora, está frio.

«Recorda-te do teu fim, e cessa de odiar.»

O difícil não é tentar, mas parar de odiar. Muitas vezes procuramos pôr pedras sobre o passado, nas nossas feridas causadas pelas nossas raízes, ou sobre histórias falhadas em amor ou amizade, mas basta pouco tempo para nos darmos conta de que tudo aquilo que tentámos sepultar sob as pedras tornou, depois, o próprio coração de pedra, e o nosso ódio e rancor continuaram lá, sem se transformar noutra coisa. Talvez em vez de sermos tão apressados, devêssemos olhar melhor as causas do nosso ódio e compreender por que nos faz tão mal.

 

O perdão reabre o futuro

Só um perdão verdadeiro reabre o futuro à nossa vida, um perdão aparente e superficial impede-nos de olhar para a frente com o coração livre.

Parece-te que cresces, mas não cresces, parece-te que caminhas, mas depois, se vires bem, estás parado.

O livro de Ben-Sira sugeria-me, esta manhã: «Recorda-te do teu fim, e cessa de odiar». Para mim também foi verdade o oposto: «Recorda-te das tuas raízes, do teu início, e cessa de odiar». Recordo bem o momento em que se me abriu de novo o futuro depois de anos de ódio.

O meu pai, quando eu era pequeno, batia e gritava, e eu não o suportava, nem compreendia o porquê. Suportei, mas mais cedo ou mais tarde, como um ladrão pela noite, chega o ódio.

Depois um dia, no primeiro ano do seminário, ele levou-me a uma colina onde habitava quando era pequeno. O seu pai tinha morrido jovem, e ele era o maior dos irmãos homens. Disse-me, pela primeira vez, que pelos dezoito anos estava na floresta a cortar a lenha, e com um cavalo levava-a para o vale. Recordou-me as noites na floresta e o cansaço.

Naquele momento, perguntou-me: que coisa podia fazer?

Não era, pois, tão estranho o instinto de gritar e de bater, com aquele passado tão pesado. Compreendi. E para mim e para ele reabriu-se o futuro, de tal maneira que já não dependeu daqueles gritos e daquele ódio. Quando se odeia, tornamo-nos iguais àquilo que odiamos, ainda que se acredite que se é completamente diferente.

Levar o perdão onde houve ofensa: isto gera em si uma verdadeira mudança.

 

Perdão é voltar a olhar-se nos olhos

Gostei de ler outro trecho. É o confronto entre Isaac e Ismael, filhos de Abraão. Dois meios-irmãos, anos de conflitos… de ódio. Na morte do pai, Isaac e Ismael sepultam-no na gruta de Macpela. Depois permanecem por um pouco próximos de um poço chamado, em hebraico, “Lacai-Roi”, que significa “Deus olha-te no rosto”. Belo!

Assim é o perdão: a coragem de voltar a olhar nos olhos uma pessoa que te fez mal, que te traiu, e que tu odeias por um qualquer motivo. Os olhos dizem o perdão é verdadeiro.

 

Quantas vezes devo perdoar?

No nosso mundo nascem novos integralismos, quando mais somos medíocres, mais precisamos de posições rígidas e fortes, radicais. O Evangelho defende-nos delas com as suas perdedoras certezas: não julgar, deixar crescer juntos o trigo e o joio, respeitar os tempos de crescimento e de mudança do homem, e os tempos de salvação de Deus, recorda-te de como eras, olha a trave no teu olho.

Pedro pergunta a Jesus: «Quantas vezes devo perdoar?». Quer regulamentar, organizar o perdão, estabelecer um tarifário, fixar um teto, precisar qual é a última possibilidade a dar a uma pessoa. Jesus diz-lhe que não há uma última vez, porque o perdão não se pode conter; diz-lhe que está na hora de parar de fazer contas, que na vida está na hora de entrar o Evangelho, não uma caprichosa contabilidade.

Quando me vem a ânsia pelo futuro, ou quando os diferentes integralismos se defrontam com aquilo que nasceu aqui em Romena, releio a história de Gedeão (Juízes 6/7).

O anjo espera-o, sentado sob o terebinto, e diz-lhe: «Vai salvar Israel… eu estarei contigo». É bela a história de Gedeão, porque não se fia de imediato, não quer ser enganado, e pede continuamente sinais. É muito humano. Deus pede-lhe para combater, mas transformará o seu exército de trinta e dois mil soldados em trezentos homens armados só de cântaros vazios e de tochas.

Desarma e perdoa, só com o teu cântaro vazio e com a tua luz acesa.


 

Luigi Verdi
In La realtà sa di pane, ed. Romena
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 06.03.2020

 

 
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