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O perene paradoxo de perder para ganhar

Pessoas ambiciosas e egoístas não perdem as suas vidas de uma só vez, mas em pequenas renúncias aos seus verdadeiros eus por eus contrafeitos, de maneira a obter uma qualquer vantagem percebida. Com o tempo, tornam-se falsos eus, como as celebridades criadas por um publicitário, ou como políticos revestidos de máscaras criadas a partir de sondagens e de votos ganhos à custa de uma linguagem dúplice. Não é para admirar que algumas figuras públicas lutem a todo o custo para permanecerem agarradas aos seus cargos, porque sem as suas estratégias enganadoras tornar-se-iam como o solitário e temeroso “Nowhere man” dos Beatles:

«Ele é um verdadeiro homem de lugar nenhum
Sentado na sua terra de lugar nenhum
A fazer todos os seus planos de lugar nenhum para ninguém».

Todos somos capazes desta transformação, e é por isso que Jesus diz aos seus discípulos para não se negociarem a estes próprios de maneira a ganhar o que passa por sucesso, importância ou poder (Mateus 16,24-28). O paradoxo de perder para ganhar é evidente em muitas das suas afirmações: o primeiro será o último, e o último o primeiro; o serviço é a chave para a liderança; a grandeza vem da humildade. Jesus modela estas inversões através da sua própria descida à mansidão, para revelar o Deus que, ao se esvaziar, é o oposto do auto-engrandecido príncipe deste mundo que conheceu no deserto, o mentiroso que tudo lhe prometeu sob a única condição de Ele se ajoelhar para o reconhecer.

Deus é amor, e o coração do paradoxo é que, ao perdermo-nos a nós mesmos nos outros, tornamo-nos em quem somos supostos sermos, imagens de Deus. Quem é que ainda não entreviu esta realidade? Um único ato de genuíno amor vale o mundo inteiro. Não há maior amor do que dar a sua vida por outra. Por outro lado, um ato de traição, desonestidade, violência ou ódio afasta-nos não só do mundo, mas de nós mesmos. Nunca mais poderemos voltar para casa, orar ou encontrar paz e auto-aceitação até consertarmos o que está errado e restaurarmos esta intimíssima ligação com Deus, connosco mesmos e com o próximo.

O Evangelho de hoje termina onde começa o Evangelho da transfiguração. Jesus diz que alguns dos seus discípulos estão prestes a ver toda a glória plena do amor que se esvazia. Ele vai levar Pedro, Tiago e João montanha acima para testemunhar a sua afirmação divina e o seu encontro com Moisés e Elias, antes da sua descida rumo a Jerusalém para cumprir a Lei e os Profetas. Ao pegar na sua cruz e perder a sua vida, Jesus reivindicará a vida eterna não apenas para si, mas para nós. O que os discípulos veem na montanha será realizado no paradoxo de sua crucificação no Gólgota.

Ninguém encontra a sua vida de uma só vez, mas nos momentos do dia-a-dia do abandono de si por amor, essas pequenas cortesias que gradualmente nos formam em Cristo, cuja imagem nos afirmou no dia do nosso Batismo. Tomar a cruz de quem somos é como nos tornamos nos nossos verdadeiros eus, úteis na comunidade, disponíveis para o serviço, partes do mistério mais amplo da Igreja. Se fizermos isso, salvaremos as nossas vidas.


 

Pat Marrin
In National Catholic Reporter
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: shutter2u/Bigstock.com
Publicado em 07.08.2020

 

 
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