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O que acontece quando um católico deixa o seminário ou a vida religiosa?

Joe Heschmeyer estava tão seguro da sua vocação para o sacerdócio, que se esqueceu que era suposto discerni-lo.

Todos à sua volta pensavam que ele devia ser padre. Quando era criança, a sua mãe, descobriu ele mais tarde, tinha-o oferecido a Deus, como Ana fez no Antigo Testamento. Heschmeyer escreveu com frequência sobre a sua vocação no seu blogue, falando da sua ordenação como se fosse inevitável. O processo estava a correr tão bem, que ele perdeu a noção de que estava no seminário para testar e explorar a sua vocação.

«Logo depois de ter entrado [2011], deixei de perguntar a Deus se era isso que Ele queria. Sentia que a pergunta já tinha sido respondida. As minhas notas foram boas; era muito estimado; tudo o que dizia respeito ao seminário parecia bem-sucedido. Tudo isso parecia uma validação suficiente. Só que me esqueci de perguntar se «ainda estávamos na mesma página», recordou.

Foi só depois de familiares e amigos terem comprado passagens de avião e reservado quartos de hotel para a sua ordenação como diácono que ele começou a sentir alguma dúvida. Tentou, então, atribuir as suas apreensões a "nervosismo de última hora", mas uma nuvem negra de apreensão pairava sobre a sua cabeça.

Eis a sua descrição de como foi a viagem de autocarro no regresso de um retiro.

«O arcebispo tinha um lugar aberto ao lado dele. Uma espécie de assento rotativo, onde cada pessoa podia partilhar o que estivesse a sentir no seu coração. Geralmente é uma coisa muito curta, 10 minutos. Eu fiquei lá cerca de meia hora, a despejar todas essas dificuldades .» O arcebispo tranquilizou-o de imediato, dizendo-lhe que se tivesse alguma dúvida, deveria levar mais tempo antes do compromisso final.

«Foi um peso tremendo que me foi tirado dos ombros. Foi uma experiência iluminadora e dolorosa. Percebi o quão feliz estava por não ir ser ordenado. Não era o que queria sentir, ou esperava sentir », disse.

Decidiu tirar um tempo para pensar, e depois considerar voltar ao seminário - um plano que, segundo o diretor da pastoral vocacional de uma diocese em torno de Nova Iorque, não é incomum. Mas ao nono dia de um retiro de dez dias, Heschmeyer sabia com certeza que não era para ser padre, afinal.

Sair do seminário ou da vida religiosa pode assemelhar-se à liberdade, seguida de desorientação, ou à rejeição, seguida de clareza. Para muitos, a experiência acaba por produzir frutos de autoconhecimento e um relacionamento mais profundo com Deus. Mas primeiro vem o sofrimento.

 

Como um namoro

"Discernir" é um processo extremamente mal compreendido, e muitos católicos veem-no como sinal de fracasso, e não como aquilo que é: uma maneira de responder ao chamamento de Deus para outra vocação. De acordo com um relatório do Centro de Investigação Aplicada no Apostolado, da Universidade de Georgetown, cerca de 74% dos seminaristas completaram em 2019 quatro anos de seminário universitário, o que significa que 179 dos 695 homens que começaram o estudo avançado de teologia em 2015 não continuaram a lecionação. De acordo com o P. Mason, a maioria das pessoas que sai do seminário fá-lo depois de dois ou três anos. «Estar no seminário não é o equivalente a casar-se com a Igreja», sublinhou. «Sair do seminário pode ser considerado um divórcio, mas na verdade ainda não se chegou a esse género de relação. É mais parecido com um namoro.» E é uma relação em que ambas as partes são livres de romper, acrescentou.

Os homens que se preparam para serem padres diocesanos passam, normalmente, de seis a oito anos no seminário (há também um “ano pastoral”, com trabalho em paróquia(s), e a ordenação diaconal), antes da ordenação presbiteral. As mulheres passam entre cinco a sete anos (também aqui se devem considerar as exceções) a viver em comunidade religiosa antes dos votos finais. Deve ser um tempo de formação e discernimento, um tempo para aprender sobre a vida que podem ter permanentemente, e, com orientação espiritual, para decidir se consideram que Deus quer que fiquem para sempre, ou se os está a chamar para outra coisa.

Heschmeyer ficou constrangido ao ter de dizer à sua família, amigos e leitores do blogue que ia sair do seminário. «Parecia, provavelmente, que eu estava a ter uma crise de fé, apesar de estar a fazer o que parecia que Deus estava a chamar-me a fazer. Eu estava a dar um passo na fé que não pareceria um passo na fé. Parecia o contrário.»

 

Um tempo de transição

Para Magdalene Visaggio, deixar o seminário foi o primeiro passo para uma transição ainda maior. Como seminarista, ela identificou-se como homem; vários anos e escolhas difíceis depois, identifica-se agora como mulher. Visaggio, hoje autora de banda desenhada, com um programa de televisão que foi para ar este ano no canal SyFy, já quis tornar-se padre, ou pelo menos descobrir se deveria. O seu tempo no seminário foi curto; mas sair não aconteceu por não tentar.

«Encontro pessoas que agem como se eu tivesse deixado a Igreja assim que ficou difícil. Não é verdade. Fiz o meu trabalho. Tentei ficar. Não podia.»

As suas palavras referem-se à decisão de abandonar a fé, mas muitos homens e mulheres usam palavras semelhantes quando falam da decisão de deixar a vida religiosa. Foi uma agonia decidir sair; implicou quer vergonha quer alívio; foram recebidos com apoio e condenação; e mesmo quando sabiam que era claramente a coisa certa a fazer, não estava claro o que haveriam de fazer a seguir.

«A última vez que fui à missa foi na Páscoa de 2017. No dia seguinte, segunda-feira, estava a regressar do trabalho para casa. Era um dia luminoso e brilhante. Sentei-me nos degraus da igreja do Bom Pastor, em Inwood [Manhattan], e tive uma conversa de separação com Deus», recordou Visaggio.

Para ela, entrar no seminário foi uma tentativa de ser decidida, após anos de deriva. Converteu ao catolicismo na adolescência. Descreve-se como uma autodidata que se envolveu fortemente no ministério laical quando ainda se identificava como homem. Nesse tempo, mais e mais pessoas sugeriram que explorasse a possibilidade de entrar no seminário. Após 10 anos de vacilação, Visaggio atirou-se. O seu semestre e meio no seminário «começou muito positivo, e foi caindo cada vez mais na miséria».

«A instrução que recebemos foi excelente. A vida litúrgica era robusta. Adorei a liturgia das horas. Adorei as missas da manhã e da noite. Adorei a oração da noite e alguns dos sacramentos. Adorei a adoração.» Mas ela foi impiedosamente intimidada pela comunidade, e sentiu-se intensamente deslocada, social e espiritualmente. Esse sentimento de não pertença realçou a sua crescente necessidade de lidar com a sua identidade, e sabia que não podia fazer isso no seminário.

Um ponto positivo: o reitor deixou claro, desde cedo e com frequência, que sair não era um fracasso. O seminário era algo para experimentar, um tempo para discernir; e muitos foram embora. «Nunca houve vergonha ou julgamento nisso», declarou Visaggio.

 

Quando a decisão é de outros

Tal como no namoro, quando apenas uma parte deseja a rutura, o processo pode ser doloroso, mesmo quando é apropriado.

Jessica Packard, que agora dirige programas para jovens e grupos no jardim zoológico de Kansas City, não teve escolha sobre o seu futuro quando era noviça. «Basicamente fizeram-me sentar e mandaram-me embora. Foi muito como um rompimento, uma conversa do género “não somos nós, és tu”. Fiquei completamente cega.»

Packard compreende agora que não pertencia ali, e que, provavelmente, se juntou à Ordem pelas razões erradas. A mais velha de sete filhos tinha passado o primeiro ano de faculdade a beber e em festas. Hoje, considera que o seu desejo de entrar num convento foi, em parte, uma sobrecorreção dos seus excessos, e, parcialmente, uma tentativa desesperada de evitar responsabilidades.

No início, a decisão de entrar parecia pré-ordenada. Percecionava continuamente, na sua vida diária, pequenas ligações ao fundador da Ordem, que começaram a parecer-se como sinais irrefutáveis de Deus. Pouco antes de vender o carro e dar as suas roupas, enviou uma mensagem para o diretor vocacional, dizendo, em tom de brincadeira, que sentia que o fundador a estava a perseguir.

«Vou tomar esta grande decisão, e pronto», disse a si mesma. Ficou 61 dias.

Ela gostava de muitos dos aspetos da vida conventual, mas chocava, frequentemente, com as suas superioras, e questionava as regras escritas e não escritas da vida no convento. Relutante em admitir para si mesma o quão miserável se sentia, Packard ficou chocada quando religiosas líderes da comunidade lhe disseram que tinha de sair. Durante o terço, pediram-lhe que fosse à lavanderia, onde decorriam reuniões importantes, e transmitiram-lhe a decisão. Não lhe foi permitido despedir-se das suas amigas. Uma das irmãs trouxe-lhe um prato de sopa, para comer sozinha.

«Isso foi às 17h00. E disseram: “Vamos acordar-te às 6h00 e levar-te ao aeroporto”.»

Embora Packard abomine a maneira como o convento geriu a sua partida, acredita que as religiosas pensaram que estavam a fazer o melhor possível para evitar uma cena. «Acho que elas pensaram que estavam a lidar bem com a situação.» «A Igreja é santa, mas é composta por seres humanos, como também as ordens religiosas.» A prática de fazer sair abruptamente as mulheres em segredo está a perder adeptas, mas continua em algumas comunidades.

Também já foi comum em seminários, mas muitos diretores vocacionais tentam agora dar mais ênfase à liberdade e à transparência. «Em épocas anteriores, poderia ter acontecido que um homem desaparecesse no meio da noite, mas hoje estamos muito abertos a respeito de “esta pessoa decidiu sair; desejamos o melhor para ela, manter-mo-la-emos na oração”», apontou o P. Mason.

Packard disse que não se arrepende do seu tempo no convento, embora ainda guarde rancor contra o fundador. «Penso nela [experiência na vida religiosa] como um retiro muito longo. Caí na oração “faça-se”. Esse tem sido o meu mantra desde então. Quando não consigo pensar em palavras para orar, só rezo “faça-se”».

A transição de Packard de regresso à vida secular foi dolorosa. Ela voltou para a faculdade e ingressou numa irmandade, que sumariamente a expulsou após três semestres. «Não sou feita para estar com grandes grupos de mulheres», comentou, rindo-se.

Packard vê-se agora como uma espécie de embaixadora para outros católicos que não se encaixam num molde de piedade e decoro. «Não me apresento a dizer “olá, sou a Jess, fui expulsa de um convento"», mas está disposta a compartilhar a sua experiência, especialmente com jovens em discernimento. Algumas das jovens que ouviram o seu testemunho entraram em conventos, e ela orgulha-se disso.

 

Em busca de apoio

Uma transição difícil para a vida secular é comum para as mulheres que deixam a vida religiosa, especialmente se deixam o convento de forma involuntária e abrupta. «Essa experiência de formação intensa deixa efetivamente uma marca», diz Penny Renner, que administra o blogue da Leonie's Longing, uma organização pequena, mas internacional, fundada para apoiar pessoas que deixaram a vida religiosa.

Renner, que deixou o convento aos 24 anos, afirma que muitas mulheres têm uma vida espiritual ferida. «A vocação dos religiosos é serem esposa de Cristo. O que vai direto ao âmago da natureza feminina. As mulheres procuram-nos, perguntando-se se falharam com Deus, ou se Deus as rejeitou. Questionam: “Porque é que Deus me chamou para isto, e depois me mandou embora?”»

A organização promove a ideia de que as mulheres que saem do convento não foram rejeitadas por Deus. Também oferece uma ajuda mais tangível, incluindo treinamento profissional e orientação financeira. Uma mulher que esteve num convento muitos anos, quando sai pode nem sequer saber comprar um telemóvel para si, assinalou Renner.

«O problema de deixar tudo [para entrar na vida conventual] é que tens de começar do nada [quando se sai]. O nosso trabalho é ajudá-las a expandir a sua rede», prosseguiu. Os gabinetes vocacionais são orientados para as pessoas que estão a entrar, mas muitas vezes não existe um programa formal para acompanhá-las se elas saírem, explica. «Há uma lenta, mas crescente, consciencialização de que essa é uma área de necessidade.»

A instituição ajuda principalmente mulheres, embora esteja aberta a apoiar homens. Não parece haver uma organização comparável centrada em ex-seminaristas. O P. Mason relata que, como diretor da pastoral das vocações, faz um esforço para acompanhar os homens que saíram e manter o contato, se é o que desejam. «Não vamos simplesmente largá-los e dizer “boa sorte”.»

Ele também vê como parte da sua missão educar os colegas católicos de um seminarista sobre o que significa discernir uma vocação, para que haja menos julgamento e mais apoio quando alguém sai.

Mas é difícil explicar a alguém que nunca esteve no seminário ou no noviciado como é que uma pessoa se sente quando se sai.

Penny Renner revela que tanto homens como mulheres podem sentir-se à deriva depois de partir, mas, na sua experiência, os homens parecem mais propensos a gerir a sua perda como um problema a ser resolvido, enquanto as mulheres a percebem como um julgamento sobre si mesmas. Elas, frequentemente, retiram-se durante algum tempo, especialmente se estiveram enclaustradas. Muitas mulheres tornam-se deprimidas, tornando mais difícil construir uma nova vida.

A Leonie's Longing ajuda a ligar as mulheres a cuidados de saúde mental, e, se necessário, com instituições de caridade locais e um conselheiro de carreira. As mulheres procuraram a instituição porque lutam com obstáculos para reentrar na vida secular. Mas algumas transições são mais simplificadas.

 

Coragem para sair

Carrie Chuff, no claustro durante cinco anos, estava, como Packard, sem roupas, bens ou perspectivas de emprego quando deixou o convento. As religiosas devolveram os 500 dólares que ela lhes entregou quando entrou, e acrescentaram 500 para a ajudar a reerguer-se. À semelhança de Packard, a partida de Chuff foi mantida em segredo, mas a decisão foi uma escolha sua, e sair foi como uma libertação, não rejeição.

«Senti-me tão livre. Estávamos a conduzir... o sol estava a nascer, e eu queria sair [da cidade] antes do amanhecer. Era como um céu dourado, a coisa mais linda que eu já vi. Senti-me tão livre e em paz. Foi glorioso. Foi um presente de Deus», realçou Chuff.

Tinha 18 anos quando entrou na Ordem religiosa. Ainda que tivesse alguns medos, sentiu-se atraída por tornar a sua vida um presente para Deus. «Queria oferecer a minha vida como sacrifício pela conversão dos pecadores. Queria estar completamente à disposição de Deus. Apaixonei-me verdadeiramente por Deus quando estava na escola, e queria devolver-lhe a minha vida. A melhor maneira de o fazer, talvez a única maneira de o fazer isso, era tornar-me religiosa», recorda.

Mas, surpreendentemente, ninguém a avisou de que as irmãs da comunidade a que ela se juntou mantinham o silêncio, exceto em dias de festa. Ela estava preparada para uma vida de obediência e rigor, mas não para a miséria que cada vez mais a engolia.

Procurou adaptar-se, pensando que era a vontade de Deus. «Tentei tornar-me muito maleável. Olhando para trás, as coisas não estavam como deviam. Talvez eu fosse maleável demais.»

Percebeu logo no primeiro ano que não pertencia àquele meio, mas ignorou os sinais vermelhos, esforçando-se para continuar a mudar, para «se tornar mais santa». «Tinha muito medo de dececionar as pessoas. De dececionar a minha família paroquial, com medo do que as pessoas iriam pensar. Esse medo fez-me ficar muito mais tempo do que eu teria ficado de outra maneira.»

As suas superioras fizeram acomodações incomumente generosas para ela, na expectativa de que as suas dúvidas fossem uma tentação. «Elas estavam abertas a ajudar-me, mas era mais para me ajudar a ficar, em vez de me ajudar a discernir se eu tinha uma autêntica vocação religiosa para começar.»

A depressão de Chuff tornou-se, por fim, insuportável. Macilenta, a tremer de medo, disse à madre superior que queria ir para casa. Ligou para a mãe e ficou animada, sem oportunidade de dizer adeus.

Uma das irmãs, sentindo o que estava a acontecer, tomou-a à parte e perguntou-lhe se estava de saída. Chuff admitiu que sim. «Ela deu-me um grande abraço e disse: “Tens a coragem de fazer o que nunca fiz”. Fiquei com o coração destroçado. Lembrar-me-ei disso para sempre.»

Chuff agora está bem casada, tem seis filhos, e é amiga de algumas das outras mulheres que deixaram o mesmo convento. Apesar da dor daqueles cinco anos, Chuff não considera que o seu tempo no convento tenha sido desperdiçado.

A Ordem organizava retiros regulares para os leigos, e ela absorveu silenciosamente não apenas ideias espirituais, mas lições sobre a vida conjugal e familiar. «Eu sei que Deus trabalhou isso. Nunca sinto que sou um fracasso. Sou grata pelo tempo que lá passei. Moldou-me naquilo que sou.»

Para Joe Heschmeyer, também, a formação que recebeu no seminário foi inestimável, ainda que o tenha conduzido para uma direção inesperada. «Está tudo bem se continuar a seguir a voz de Deus não quiser dizer que se acaba onde se pensa que se vai acabar. Ele precisa mais de santos do que precisa de padres.»

O P. Mason reitera que as vocações não consistem simplesmente numa decisão ou um momento no tempo. «Deus nunca deixa de nos chamar, mesmo dentro das nossas vocações.»

 

Um chamamento dentro do chamamento

A direção do chamamento pode ser surpreendente. «Tive de voltar para a casa dos meus pais. Não era onde eu esperava estar aos 30 anos», conta Heschmeyer. Depressa aceitou um emprego na Escola de Fé, onde a sua formação lhe permite evangelizar como um padre, sem as dores de cabeça das tarefas administrativas.

E logo após deixar o seminário, voou para Phoenix, para fazer uma visita surpresa a uma amiga com quem tinha interrompido o contacto quando tentava discernir o sacerdócio. Quando apareceu à porta dela para a pedir em namoro, ela nem sabia que tinha saído do seminário.

«Houve muitas surpresas reunidas numa só», disse Heschmeyer. «Felizmente, ela disse que sim, ou poderia ter sido uma viagem extremamente estranha.» Os dois namoraram três meses e casaram-se. Hoje têm um filho.

Ele sabe que o seu novo relacionamento levantou algumas sobrancelhas, e algumas pessoas poderão suspeitar que ele deixou o seminário por causa de uma mulher. Não foi assim, retorque Heschmeyer. «Se a Anna tivesse dito não, eu não voltaria [ao seminário]. O que aconteceu foi eu ter considerado que fui chamado [por Deus] para me casar, e, a ser verdade, sei a quem vou bater à porta.»

Heschmeyer, tal como Chuff, testemunha que o que aprendeu ao discernir a vida religiosa acabou por o ajudar na vida de casado. Heschmeyer disse que a sua esposa chama o seminário de "escola de charme para homens", onde aprendeu etiqueta e tato, e também ganhou alguma maturidade psicológica

«Aprendi a levar a vida emocional a sério. Tens de entrar nesses lugares assustadores e desconfortáveis ​​e ser totalmente humano, e não ser cabeça dura. O seminário fez-me confrontar-me com isso e tratá-lo de maneira adulta.»

 

Discernir, discernir, discernir

O processo de autoescrutínio começa antes da entrada no seminário. O processo de inscrição leva meses, e nem todos são convidados. «Não aceitamos pessoas do nada», refere o P. Mason. A sua diocese, em geral, familiariza-se com um candidato muito antes de ele se inscrever; e o próprio processo de inscrição é longo e intenso.

Para ordens religiosas, como os Jesuítas, o processo é ainda mais moroso. Philip Florio, S.J., diretor vocacional das duas províncias da Costa Leste dos EUA da congregação, esclarece que os homens se submetem a uma avaliação em várias camadas, às vezes durante um ano, antes mesmo de serem convidados a inscrever-se. Trabalham com um diretor espiritual, diretor vocacional, e mentor vocacional. Rezam com uma comunidade, fazem retiros e limpam sanitários.

Seis meses depois, um possível seminarista escreve uma autobiografia espiritual de 12 a 15 páginas, e passa por uma entrevista de cinco horas para rever a história pessoal e familiar, o desenvolvimento pessoal, espiritual e psicossexual, perspetivar o relacionamento com a Igreja e a sua compreensão do sacerdócio. Em seguida, começa o processo formal de inscrição de quatro meses, que culmina em entrevistas com três jesuítas e uma leiga.

«Insistimos que seja uma mulher porque 50% da Igreja é feminina. Se não consegues falar com uma mulher, não estamos interessados», aponta o P. Florio.

Mesmo se um candidato for aceite e entrar, nada é conclusivo. «Os rapazes ainda entram e saem.» A liberdade para o fazer é primordial. «O Espírito Santo trabalha em liberdade, e nós honramos essa liberdade.» A Ordem espera que se os homens forem embora, seja em termos amigáveis, com maior clareza sobre as suas próprias vidas.

Magdalene Visaggio experimentou essa clareza quando deixou o seminário. Embora tenha acabado por rejeitar a maneira como a Igreja avalia os atos morais, reconhece que o tempo passado no seminário foi, em última análise, psicologicamente esclarecedor.

«Julgo que precisei de passar por esse processo para me forçar a levar realmente a sério, pela primeira vez, o que é que estava a acontecer na minha cabeça. Mesmo tendo tomado algumas más decisões depois de sair, pelo menos tomei decisões. Eu estava a morar com a minha futura ex-mulher menos de um ano depois de sair. Ia começar a faculdade e dois anos e meio depois casei. Foram todos erros enormes, mas é enorme que eu tenha sido capaz de os cometer.»

Visaggio lembra, em particular, o cuidado que um padre lhe ofereceu depois de ela se ter assumido transsexual. «Deixou-me falar sobre isso, e perguntou-me como é que eu me estava a sentir. Não partiu de uma posição de crítica, mas de cuidado pastoral. Ainda estou em contacto com ele. Um homem maravilhoso.»

A Leonie's Longing foi fundada, precisamente, para oferecer esta escuta acrítica, e muitas mulheres entram em contato simplesmente para expressar gratidão pela existência dessa comunidade. «Dizem: “É a primeira vez que me sinto compreendida"», assinala Renner.

«Para mim, a coisa mais curadora de fazer parte de uma comunidade é que posso ver que são mulheres generosas, talentosas e adoráveis», acrescentou. «Olho para elas e não consigo pensar: “Estas são as mulheres que Deus rejeitou”. E se eu não consigo pensar assim sobre elas, também não consigo pensar em mim dessa maneira.»


 

Simcha Fisher
In Simcha Fisher
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Yulia/Bigstock.com
Publicado em 30.06.2020

 

 
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