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O que é essencial na fé cristã?

«É falso até ao absurdo ver numa “crença” o sinal distintivo do cristão: apenas uma prática cristã, uma vida como a vive aquele que morreu na cruz, apenas isto é cristão… Ainda hoje uma vida assim é possível, para certos homens é até necessária: o autêntico e originário cristianismo será possível em todos os tempos… Não uma crença, mas antes um fazer, sobretudo um não-fazer-muitas-coisas, um ser diferente». Estas lúcidas palavras de Friedrich Nietzsche em “O anticristo”, um pensador que seguramente não foi macio em relação ao cristianismo, constituem um bom ponto de partida para nos interrogarmos sobre o que é essencial à fé cristã, isto é, sobre a singularidade do cristianismo.

A par do judaísmo e do islão, o cristianismo é um monoteísmo, e todavia é-o de maneira muito particular: é um monoteísmo no qual Deus se fez homem, e no qual um homem concreto e real, Jesus de Nazaré, nos narrou consumadamente o rosto de Deus. Em 1958 o teólogo luterano Oscar Cullmann afirmava uma verdade que continua intacta hoje: «O pensamento teológico dos primeiros cristãos parte de Cristo, e não de Deus… Daqui resulta que a teologia cristã primitiva é quase exclusivamente uma cristologia».

É exatamente aqui que reside todo o interesse do ensaio do biblista Romano Penna, “As múltiplas identidades de Jesus segundo o Novo Testamento”. O reconhecido biblista, professor emérito de Novo Testamento em várias Faculdades de Teologia em Roma, Urbino, Florença e Jerusalém, prossegue e aprofunda a sua amplíssima reflexão de cristologia do Novo Testamento com um estudo inteiramente consagrado às múltiplas identidades de Jesus traçadas pelas comunidades das primeiras décadas do cristianismo.

Com o conhecimento dos escritos neotestamentários a ele universalmente reconhecida, Penna faz emergir um Jesus inclassificável, que escapa a qualquer possível classificação. A riqueza das interpretações do Rabi de Nazaré e das suas identidades são o reflexo das maneiras diferentes, mas não discordes, plurais, mas não dissonantes, com as quais as comunidades das primeiras décadas do cristianismo responderam à pergunta: «Quem é Jesus?».



Quantas imagens de Jesus Cristo foram forjadas nas diversas épocas da história a partir de ideologias ou de fenómenos culturais em voga! Ao longo dos séculos de cristianismo a ideologia religiosa dominante tentou várias vezes alterar o cristianismo nascente, e é precisamente neste crisol que a fé cristã é especificada



Para Penna, cada tradição, autor ou escrito do Novo Testamento tem a sua interpretação de Jesus: quer seja a do apóstolo Paulo, do quarto evangelista, do autor da Carta aos Hebreus ou do apocalíptico João, «a sua multiplicidade não significa heterogeneidade, mas simples pluralidade de vozes numa amalgama que, toda pesada, é harmoniosa».

Segundo Romano Penna, o cristianismo nasceu duas vezes. A primeira nasce, não em Belém, mas quando Jesus o Nazareno começou a pregar a vinda do Reino de Deus pelas estradas e aldeias da Galileia. Daqui vem a sua identidade judaica de profeta, pregador, rabi, de Filho do homem que assume o destino do Justo sofredor.

Da segunda vez o cristianismo nasce em Jerusalém, quando os seus seguidores, na base do seu conhecimento e experiência, anunciam a sua ressurreição que faz dele o Cristo, o Senhor, o Filho único de Deus. E depois as primeiríssimas comunidades palestinenses exprimem a sua fé vendo em Jesus a sabedoria, o cordeiro, o sacerdote, o juiz, o intercessor, aquele que vem e o esperado.

Nas primeiras décadas do cristianismo a pessoa e a vida de Jesus de Nazaré tiveram tantas interpretações quantas as pessoas ou comunidades que nele se interessaram. Para Penna, «a variedade significa a impossibilidade de reduzir a sua figura a uma só dimensão… Desta variedade devemos precisamente dar-nos conta».

Este ensaio adverte que não é suficiente encher a boca de slogans, ainda que nobres, como aquele tomado de uma obra de Vladimir Soloviev: «O que temos de mais caro no cristianismo é Jesus Cristo»; o importante é dar-se conta do que se oculta por trás de frases como esta, ou seja, de que Jesus Cristo se está a falar. Quantas imagens de Jesus Cristo foram forjadas nas diversas épocas da história a partir de ideologias ou de fenómenos culturais em voga!

Ao longo dos séculos de cristianismo a ideologia religiosa dominante tentou várias vezes alterar o cristianismo nascente, e é precisamente neste crisol que a fé cristã é especificada, é expressa a nível de linguagem, toma a forma da profissão de fé em Jesus Cristo.

Solicitados por estes desafios em grande medida de natureza “religiosa”, também os cristãos de hoje devem procurar responder à pergunta «quem é Jesus?», indo constantemente à fonte que são os textos do Novo Testamento, nos quais, recorda-nos Romano Penna, «se poderá ver o quão variada e facetada foi a compreensão da identidade de Cristo, que não é comprimível numa só sufocante estreita interpretação, as requer a saudável disponibilidade própria de uma fecunda abertura mental».


 

Enzo Bianchi
In Altrimenti
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Cristo lava os pés dos apóstolos" (det.) | Dirck van Baburen | C. 1616
Publicado em 25.11.2021

 

 
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