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Rumo ao amor, dia 35: O que sonho

«Não vos conformeis com a mentalidade deste tempo, mas transformai-vos…» (Romanos 12,2).

Hoje, muitos conformam-se com a mentalidade deste tempo, outros experimentam arduamente rebelar-se. Pensei sempre que estas duas dimensões não servem de muito. Sufoco quando uma forma está fechada ou quando a rebelião é feita de palavras sem gestos.

A amendoeira primeiro dá flores e depois os frutos, recordando-me que se na minha vida quero ver frutos, primeiro tenho de florir. Recorda-me que o futuro depende daquilo que soubermos fazer no presente, que não devemos encerrar o passado, mas conduzi-lo até ao futuro, nem combater o futuro, mas encontrá-lo, prepará-lo em nós.

O futuro pertence àqueles que são constantes, àqueles que procuram direcionar as forças para antecipar a mudança que gostariam de ver neste mundo.

Dizia Giovanni Vannucci: «É necessária uma vida muito severa, muito austera, muito generosa, para não se ser tomado pelo vórtice das coisas, para encontrar a posição apropriada que permita à nossa terre mental ser fecundada por aqueles gérmenes que estão no ar, mas que descem apenas onde encontram uma terra fértil, uma terra que não esteja fechada com portas e janelas».

Creio que esta crise, que hoje vivemos, não nos vai fazer mal, aliás, evitar-nos-á o pior. O pior é permanecer à superfície das coisas; por isso, penso que a hora presente, apesar das afirmações de muitos pessimistas, oferece-nos uma grande oportunidade.



Nesta estação difícil devemos ter olhos atentos aos sinais que estão dentro dos dias invernosos, saber colher aquilo que nasce da passagem para a primavera. Nunca nos devemos desesperar, mas escutar a voz subtil que fala na noite, quando todos os rumores calam



O papa João abriu o concílio dizendo que não dava ouvidos aos «profetas da desventura», mas que prestava atenção aos «sinais dos tempos», que não punha obstáculos ao seu devir, como a terra acompanha os rebentos até à primavera. Devemos vislumbrar os sinais que possuam a transparência da aurora original, a luminosidade de uma ternura sobrenatural.

Há no ar um otimismo sem esperança, um medo agressivo que não sabe usar as contrariedades deste tempo. O mundo não se vence destruindo-o, mas abraçando-o.

Em tempos de crises, é-nos pedido viver os gestos de Jeremias, que, em anos de exílio e de deportação, convidava a plantar vinhas e a construir casas. Viver não é só um crescimento contínuo, mas também a capacidade de aderir à vida, apesar daquilo que a contradiz, os seus medos, as suas crises, os seus momentos de aparente esterilidade. Viver é sair de todo o fechamento para um espaço aberto de liberdade.

«Há no mundo muita imundície, há sabedoria no facto de muitas coisas no mundo cheirarem mal: mesmo a náusea faz nascer as asas e cria energias pressagiosas de mananciais» (Nietzsche).

Nós tendemos a simplificar a realidade porque é mais cómodo, dividimos claramente o bem do mal, quem está dentro ou quem está fora, quando devíamos ter olhos astutos que prevejam os indícios e não se assustem diante da complexidade. É preciso compreender este tempo, é preciso estender o ouvido e ficar à escuta da polifonia das suas mensagens muitas vezes contraditórias.

Há instantes que tornam novo o mundo não tanto porque acrescentam alguma coisa de novo, mas porque mergulham até à origem, onde a diversidade é harmonia.



«O mundo move-se se nós nos movermos, transforma-se se nós nos transformamos, faz-se novo se o ser humano se faz nova criatura, barbariza-se se desencadeias o pior em ti. A ordem nova começa se alguém se esforça por se tornar um ser humano novo»



«Jeremias, o que vês? Vejo um ramo de amendoeira» (Jeremias 1,11).

Em hebraico, a amendoeira é chamada “aquela que vigia”, o primeiro despertar após o inverno, aquela que tem os olhos atentos, que floresce mesmo quando ainda punge o gelo.

Aquilo que Jeremias vê não é uma flor do ramo na bela estação, mas no momento mais duro do ano, o das geadas repentinas.

Nesta estação difícil devemos ter olhos atentos aos sinais que estão dentro dos dias invernosos, saber colher aquilo que nasce da passagem para a primavera. Nunca nos devemos desesperar, mas escutar a voz subtil que fala na noite, quando todos os rumores calam, contemplar as estrelas, para compreender o caminho a seguir e estar presente quando o amor despertar.

«O mundo move-se se nós nos movermos, transforma-se se nós nos transformamos, faz-se novo se o ser humano se faz nova criatura, barbariza-se se desencadeias o pior em ti. A ordem nova começa se alguém se esforça por se tornar um ser humano novo» (Primo Mazzolari).

Não é fora de nós, mas dentro de nós que alguma coisa pode mudar, e o só o facto de ter esperado e desejado a aurora de alguma coisa de novo não terá sido vão.


 

Luigi Verdi
In I domani avrà i tuoi occhi, ed. Romena
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Anna Kucherova/Bigstock.com
Publicado em 31.03.2020

 

 
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