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Rumo ao amor, dia 16: O quotidiano

Muitas vezes como Job, observei o correr dos meus dias, naquele doloroso desequilíbrio que se sente na organização de cada dia. Estamos todos como a uma janela, na expectativa que passe este mundo da confusão e da devastação, da angústia e da preguiça, da indolência e da ausência de fantasia, dos interesses ávidos e das justificações hipócritas.

Vivi dias repletos com uma desoladora sensação de vazio, só depois compreendi que amar a verdade significa, qualquer que seja o dia, suportar o vazio, e que o amor não é consolação, mas luz. A harmonia nunca é estática, nunca se realiza de uma vez por todas, e nem sequer é questão de dosagem: é o esforço de vigiar sobre cada rebento de esperança, sobre cada movimento da fantasia ou impulso de coragem, sobre cada aceno de uma liberdade que se desperta em nós.

Pergunto-me a cada dia como fazer para reencontrar uma nova qualidade de vida, onde reinventar um espaço humano de liberdade e criatividade, e um novo sabor do quotidiano, onde redescobrir a utilidade das coisas inúteis e fazer florir a hospitalidade, a amizade, a solidariedade e o silêncio.

Transformámos o cristianismo de vida em rito, enquanto Jesus tinha a trepidação, a sensibilidade, a emotividade, a tensão de esperar qualquer coisa de novo a cada dia. O quotidiano é feito de previsível e de salto na surpresa. A maior das graças é conseguir ver as coisas do quotidiano da parte de Deus, e sentir que cada dia é preparado para nós, sem ter nada de demasiado nem nada de insuficiência, nada de indiferente ou de inútil.

Devemos parar de tratar o nosso dia como uma folha de agenda, sem atenção, sem ver naquilo que acontece uma ocasião. Devemos aprender dos camponeses, para os quais cada coisa, cada peregrino, cada estação é uma ocasião.



Os poucos anos da nossa vida são suficientes a fim de que Deus possa manifestar-se inteiramente. Não conta num dia quanto fazes, mas como o fazes



Muitas vezes vivemos bem as pequenas esperanças sem as colocar numa esperança verdadeira, não sabemos colocar as pequenas alegrias numa alegria maior. O engano é exaltar o momento, sem o colocar num momento maior.

Os poucos anos da nossa vida são suficientes a fim de que Deus possa manifestar-se inteiramente, assim como um dia é suficiente para manifestar o todo.

Como a alma não precisa nem de bens nem de tempo, mas de pobreza e de eternidade, assim também os nossos dias, feitos de trabalho, de alimento, de oração e de encontros com os outros, devem deixar de ser meios para a paz, mas tornarem-se a paz.

Sinto que não estou bem quando o meu coração, durante um dia, não repousa. Tudo me aparece inutilidade, um desperdício, como termo hebraico diz.

Não conta num dia quanto fazes, mas como o fazes. Jesus olhava como lançavam as moedas no templo: o rico lançava muitas para o tesouro do templo, para fazer ouvir o som das moedas, a pobre viúva, ao contrário, pousava timidamente só duas moedinhas, mas era tudo quanto tinha para viver. Isto conta em cada dia.

Há três coisas que me continuam a emocionar após tantos anos passados entre as pessoas: uma criança que nasce, dois namorados e cada homem que morre. São momentos idênticos em que contam os olhos e as poucas palavras, em que contam os abraços e as mãos estendidas; gostaria de, a cada dia, amplificar estes momentos raros de olhares e atenções, do canto do galo ao pôr-do-sol.


 

Luigi Verdi
In La realtà sa di pane, ed. Romena
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: VectorMine/Bigstock.com
Publicado em 11.03.2020

 

 
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