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O semeador de parábolas

A parábola do semeador (Mateus 13,1-23), proclamada hoje no Evangelho, é a primeira da ampla coleção de histórias notáveis de Mateus, porque é uma história sobre parábolas. Jesus foi um semeador de parábolas, cada qual com uma pequena semente destinada a germinar na imaginação do ouvinte, ao oferecer lições para toda a vida sobre a relação e interação de Deus com a Criação e connosco, enquanto filhos da Criação.

As recolhas de ditos e histórias devem ter sido a base das primeiras pregações, e podem ser o mais próximo que conseguimos chegar à mente de Jesus, cujos ensinamentos foram mais tarde adaptados para se encaixarem nas narrativas e nos padrões teológicos de cada Evangelho. As parábolas originais revelam um mestre brilhante, capaz de resumir ideias profundas em imagens simples: um tesouro escondido, uma pérola de grande valor, sal, luz e fermento, negócios, construção, casamentos, ovelhas perdidas, moedas perdidas e filhos perdidos.

Estes pequenos dramas e imagens responderam a uma pergunta central: a que se assemelha o Reino de Deus? E por trás disto, o mistério mais profundo: como é que Deus é realmente? Algumas parábolas adquiriram modelagens artísticas pela mão dos evangelistas, de maneira a aplica-las às necessidades das comunidades cristãs primitivas. O “filho pródigo", de Lucas, revela um pai amoroso que quer os seus dois filhos à mesa da família, juntando justos e pecadores. Outras parábolas foram adaptadas e alteradas para julgar inimigos da Igreja ou conflitos dentro da Igreja, como as parábolas do "trigo e do joio”, da "vinha" e dos "convidados para o casamento".



Pensar e sentir em parábolas é uma maneira de rezar, de transmitir questões espirituais em imagens, a partir das nossas próprias memórias. Encontramos Deus através das nossas experiências humanas de desejo, ansiedade, esperança e frustração



Para nós, hoje, a grande bênção das parábolas não é apenas meditar em cada uma e buscar significado pessoal, mas imitar Jesus ao encontrar parábolas nas nossas próprias vidas. Já o podemos fazer, pois de cada vez que descrevemos a nossa experiência com uma metáfora, recorrendo a "como", ou comparando-a a determinado processo natural, estamos a revelar significado através da narrativa. Um “nascer do sol após uma noite longa e difícil”, uma “chuva após um longo período de seca”, ajudam-nos a descrever e a explicar as nossas vidas, e, ao fazê-lo, estamos a mergulhar em ideias mais profundas sobre os momentos ensinadores ​​da vida e as verdades transcendentes.

Por isso, se perguntarmos sobre que tipo de terra somos para as sementes da fé, ou apenas a tentar plantar um jardim enquanto lidamos com pássaros e esquilos famintos, muita ou pouca sombra, solo pedregoso ou ervas daninhas, estamos no modo de parábola. Se experimentamos dores de parto ou esperamos em “ponta dos pés” (uma tradução de Romanos 8,22) para que algo de maravilhoso aconteça, estamos a usar a imaginação para entender o anseio da Criação e do coração humano para que as promessas de Deus se tornem realidade.

Pensar e sentir em parábolas é uma maneira de rezar, de transmitir questões espirituais em imagens, a partir das nossas próprias memórias. Encontramos Deus através das nossas experiências humanas de desejo, ansiedade, esperança e frustração. A maneira como sabemos que as histórias inspiradas por esta forma de encontro são de Deus é que as parábolas divinas acabam sempre em Boas Novas. A adversidade conduz à esperança, a perda inspira determinação. Deus inspira-nos para continuar a bater à porta, pedindo e buscando até encontrarmos o nosso caminho.

Ainda que a maioria das sementes plantadas pelo semeador tenha sido perdida, aquelas que encontraram um bom solo multiplicaram-se várias vezes, para produzir uma colheita real. Por isso, escute uma parábola. Aqueles que têm ouvidos para ouvir, escutem, porque as parábolas estão por todo o lado.


 

Pat Marrin
In National Catholic Reporter
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "O semeador" (det.) | Van Gogh | 1888
Publicado em 12.07.2020

 

 
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