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O sínodo pan-amazónico visto de S. Gabriel da Cachoeira, a diocese “mais indígena” do mundo

Uma superfície três vezes maior do que o território português no estado brasileiro do Amazonas. Cem mil habitantes espalhados pela floresta infinita e que pertencem a 23 etnias indígenas; e no entanto, 98% da população é batizada. Eis a diocese de S. Gabriel da Cachoeira, que entre as suas prioridades inclui a necessidade de garantir uma presença sacerdotal mais contínua nas suas muitas comunidades dispersas.

Talvez seja esta a diocese “mais indígena” do mundo. Visto de S. Gabriel da Cachoeira, a assembleia especial do sínodo dos bispos para a região pan-amazónica, que decorre de 6 a 27 de outubro, no Vaticano, assume uma dimensão concreta singular. Com efeito, à diversidade e riqueza étnica, junta a particularidade de ser aquela com maior percentagem de batizados católicos.

Este “canto”, ao mesmo tempo vastíssimo e remoto, da Amazónia brasileira, situa-se perto das fronteiras com a Colômbia e a Venezuela, na bacia do rio Negro, grande caudal que em Manaus, dois mil km depois, oferece ao Amazonas uma enorme quantidade de água.

Não são muitos os colossos multinacionais e os mineradores ilegais que lá chegaram. E também não chegaram os cristãos evangélicos. Mas os discípulos de S. João Bosco implantaram-se há mais de cem anos, começando a escrever uma longa página de evangelização e missão.



«O ano passado foi ordenado o primeiro sacerdote de etnia Baniwa, em dezembro ordenarei outro, de etnia Tukano. Celebrámos a primeira missa em língua tukano, estamos a traduzir o missal também noutras línguas»



Agora, no entanto, está a abrir-se uma nova fase, a da valorização do clero indígena, como explica o bispo diocesano, D. Edson Taschetto Darmian: «Aqui a Igreja está presente desde 1905, com a chegada dos Salesianos. Depois estiveram também os Capuchinhos, os Carmelitas, e outras congregações. Mas nunca faltaram as dificuldades. A começar pela língua, pela integração, pelo reconhecimento das diversas culturas».

«Mas aqui houve também uma longa tradição de protagonismo dos povos indígenas, que desde os anos 70 se organização, também com o apoio da Igreja, impedindo que o território amazónico fosse explorado e depredado. Desde 1992 90% do nosso território é protegido», acrescenta.

Após a longa fase da missão dos “brancos”, está a escrever-se uma nova página, a de «uma Igreja que tem realmente um rosto amazónico e indígena. Já ordenámos cinco sacerdotes diocesanos indígenas, além de um padre franciscano. O ano passado foi ordenado o primeiro sacerdote de etnia Baniwa, em dezembro ordenarei outro, de etnia Tukano. Celebrámos a primeira missa em língua tukano, estamos a traduzir o missal também noutras línguas», afirma.

O primeiro sacerdote de etnia Banuwa chama-se Geraldo Trindade Montenegro, mas todos o conhecem por padre Geraldo Baniwa. Como os outros sacerdotes indígenas, estudou no Seminário da Amazónia, em Manaus, capital do estado.



«A questão é a de passar de uma Igreja que visita a uma Igreja que permanece, que fica e que se incarna, é a de não deixar comunidades sem Eucaristia. É difícil imaginar as distâncias que há neste território. Para chegar a algumas paróquias, tenho de viajar de barca durante dois dias, para chegar a Manaus dois ou três dias»



«No meu primeiro ano de ministério, posso afirmar que estou bem inserido na cultura indígena, enquanto fazendo parte do povo baniwa. Acredito que esta proximidade e familiaridade com as pessoas, com a cultura local e a comunidade facilitou uma presença eficaz na atividade missionária», acentua o sacerdote.

E prossegue: «Temos no sangue as histórias ancestrais, a fé dos antepassados, o respeito pelos lugares sagrados, o significado das festas, as palavras de bênção, as regras de convivência, os projetos de vida. A religião cristã integra e enriquece os valores apreendido no interior da família. A formação teológica ajuda a iluminar esta realidade».

Quais são, para o P. Geraldo, as características de uma «Igreja de rosto amazónico»? «Posso falar da paróquia da Assunção de Maria, onde trabalho. A Igreja, através dos sacerdotes locais, é capaz de trabalhar integrando o modo de viver, a organização das pessoas e a participação de todos nas ações eclesiais. A Igreja de rosto amazónico mostra nas ações litúrgicas uma organização talvez menos rígida, mais simples e dialógica. Mas isto não significa que não trabalhemos segundo as indicações da Igreja».

Para o bispo diocesano, o sínodo «é um momento profético, que está a suscitar muita esperança». «Vivemos uma fase extraordinária e capilar de escuta, sem precedentes. A nível geral, em todo o Brasil, 87 mil pessoas participaram no processo de consulta, 22 mil tomaram parte nas assembleias. Cerca de metade das 390 etnias indígenas foi envolvida».



«O sínodo oferecer-nos-á novas oportunidades de agir na nossa realidade. Num contexto de distâncias imensas, acreditamos que será dada uma oportunidade para estarmos mais presentes na nossa ação missionária. Parece-me importante reforçar a inserção dos leigos nas suas comunidades»



Um dos grandes problemas da Igreja católica nesta região é a presença sacerdotal mais contínua em muitas comunidades longínquas e dispersas, «que veem um sacerdote a cada quatro meses».

É diante desta realidade que o “Instrumentum Laboris” do sínodo, documento de preparação, colocou a hipótese de, na assembleia, ser discutido o tema de ordenações sacerdotais circunscritas de «anciãos, preferencialmente indígenas», os denominados “viri probati”.

«A questão é a de passar de uma Igreja que visita a uma Igreja que permanece, que fica e que se incarna, é a de não deixar comunidades sem Eucaristia. É difícil imaginar as distâncias que há neste território. Para chegar a algumas paróquias, tenho de viajar de barca durante dois dias, para chegar a Manaus dois ou três dias. Devemos ter uma Igreja que está junto das pessoas, os evangélicos estão a chegar também aqui», salienta o bispo.

O P. Geraldo também tem muitas expetativas: «O sínodo oferecer-nos-á novas oportunidades de agir na nossa realidade. Num contexto de distâncias imensas, acreditamos que será dada uma oportunidade para estarmos mais presentes na nossa ação missionária. Parece-me importante reforçar a inserção dos leigos nas suas comunidades».

«Em geral, penso numa Igreja que não aceita só os pensamentos pré-confecionados, mas que propõe novos caminhos para a evangelização do mundo. A Amazónia já não é um lugar em que se cumpre uma pena de prisão, mas um lugar que merece sacerdotes com uma melhor qualificação intelectual, também prontos a partir para a missão “ad gentes”», conclui.


 

Bruno Desidera
In SIR
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 17.10.2019

 

 

 
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