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O surpreendente dom do Cântico dos Cânticos no festival de Sanremo

Que alegria o Cântico dos Cânticos no festival de música Sanremo! Obrigado a Roberto Begnini que surpreendeu e espantou o festival com aquele livrinho da Bíblia que a tradição judaica e cristã conservou como a canção mais bela, a «cançãozíssima», segundo uma sugestão de Gianluigi Prato. São três os transcendentais: verdadeiro, bom e belo. É importante o belo. A arte, nas suas formas mais nobres - como a música, a pintura, a poesia -, é capaz de fazer emergir o divino que se aninha na Palavra, mais do que qualquer outra linguagem.

E a ideia de dar a conhecer e apreciar o Cântico foi verdadeiramente estupenda, apropriada, preciosa para um público tão vasto e popular como o de Sanremo em mundovisão (e não pode anulá-la, sequer, a forçada "licença interpretativa" que traduziu, traindo-o, o amor entre amado e amada noutros amores que estão longe e fora do límpido horizonte bíblico).

De resto, os duetos do Cântico, intervalados pelas vozes do coro, assemelham-se aos textos das canções a concurso [no festival], e também eles nascem num ambiente popular; quadros de vida rural que têm o sabor das noites de verão ou do primeiro outono, quando, depois das colheitas ou da vindima, à noite, se fazia festa, e os olhos e os braços dos rapazes e das raparigas se atravessavam, cruzavam, inebriavam ao sonho dos beijos. No Cântico - escreve Guido Ceronetti - não há o nome de Deus, porque tudo é puro, portanto tudo é sagrado!



Amor que reduz a zero os possessivos: «Eu sou sua, enquanto ele é meu»; o êxtase de uma união que não responde à tentação de devorar o outro



A força do amor desperta a primavera sobre os passos do amante que - inverosimilmente - é uma mulher. A «irmã» do Cântico é transgressiva, obstinada, subtrai-se à autoridade dos irmãos, não trata da sua vinha mas corre para a «tenda dos pastores», sai para os desertos, bate os campos, desafia os guardas nas muralhas da cidade, «doente de amor»! Uma verdadeira anomalia para um mundo em que as mulheres não podiam escolher os seus homens, mas eram dadas como esposas com o propósito de proporcionar aos maridos uma descendência. Não tinham direito ao próprio corpo, mas a mulher do Cântico rapta-o e dele faz guia e gramática da viagem do Amor. Há um êxodo de si, uma rutura do eu, para ousar os caminhos ignotos, as curvas arriscadas, as tortuosidades do rosto do Outro.

O Amor é uma aventura sem garantias, uma estrada sem retorno, «mais forte do que a morte». Irreversível, fonte de criaturas novas, diferentes, banhadas de futuro. Amor que reduz a zero os possessivos: «Eu sou sua, enquanto ele é meu»; o êxtase de uma união que não responde à tentação de devorar o outro, tornando-o num cadáver. Há, antes, a plenitude do "tu": do entregar-me a ti.

Boca de infinito, sorvo de eternidade, arranhadela de Vida! No texto originário as suas consoantes são enxutas, límpidas, impossíveis de ser mal-entendidas. Os sentidos são sentinelas e janelas do corpo, em tensão para fora de si.

«Uma voz, o meu amado»: o primeiro sentido é casto como a audição. «Como és bela, amiga minha, como és bela, os teus lábios uma linha de púrpura». Os olhos dele descobrem o encanto da pele dela «cor de mel», traduz magnificamente Luca Mazzinghi. O teu perfume é a quinta-essência de cada aroma das plantas mais requintadas do Oriente; «há leite e mel debaixo da tua língua»; o olfato e o gosto aliam-se no êxtase de Amor onde o teu nardo é muito mais forte do que qualquer vinho  aromatizado. Restituem ao corpo a sua alma. Um minuto só dura o tato, mas procura um verdadeiro desvanecimento; como era para os gregos, assim no Cântico o Amor é "lelymmenos", "desatador de membros". Para fazer «dos dois um corpo só», diria o apóstolo Paulo.

O Amor é expetativa, esforço, suor de desejo e de temor; ele oferece instantes de êxtase e anos de deserto, mas esses instantes valem bem os anos! O Amor é corpo nu, vazio, puro, como o Santo dos Santos. Por isso o Cântico é o livro dos místicos, terra suspensa, Deus como numa passagem, a "meghillà" de Páscoa. No corpo que se perde está o perfume de Deus. Por isso é um grande pecado que a Igreja tenha impedido durante séculos o acesso a este pequeno livro, grandíssimo tesouro, fonte de saúde e salvação para o corpo e para a alma. Tenhamos o coração desperto, agora que "o tempo do canto voltou".


 

Rosanna Virgili
Biblista, autora de "Os aposentos do amor - Amor, casal, matrimónio na Bíblia", ed. Paulinas
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Estudo para o Cântico dos Cânticos IV" (det.) | Marc Chagall | D.R.
Publicado em 09.02.2020

 

 
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