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Leitura: “O verme de Deus”

O verso «Sou verme, não homem!», extraído do Salmo 22, que Jesus rezou na cruz, inspira um conjunto de 95 ensaios do P. Ricardo Tavares «sobre o ser humano, em toda a sua miséria e dignidade, na perspectiva da humanidade» de Cristo.

O biblista açoriano, referente da Pastoral da Cultura da diocese de Angra, propõe em “O verme de Deus”, da editora Letras LAVAdas uma  «cristopoética», neologismo que configura a «abordagem alegórica, a preferência pela estética, na beleza e na fealdade, enquanto sensibilidade que toca o ser humano na sua globalidade, mente e coração, alma e carne». 

«“Cristopoética” é uma poética de Cristo, a mensagem de Cristo através de uma nova linguagem, mais próxima do século XXI e da contemporaneidade que nos habita dia-a-dia, para, de acordo com o sentido original da palavra “poiesis”, ser uma arte de “fazer” através da palavra», assinala o sacerdote doutorado em exegese bíblica.

A obra, com o subtítulo “Ensaios de Cristopoética – I”, e pensada sobretudo como manual de formação para leigos , nas áreas de Sagrada Escritura, teologia, espiritualidade e diálogo com a cultura contemporânea», pode ser adquirida na FNAC e na Paulus, bem como nas livrarias da Editora Letras LAVAdas e do Seminário Episcopal de Angra.

O Cristo apresentado na capa é o último desenho do arquiteto e artista plástico português Luís Cunha, falecido em 2019, o ano da escrita do livro.

Licenciado em Engenharia Electrotécnica e de Computadores, além de Teologia, o P. Ricardo Tavares completou pós-graduações em Arte e Educação, Arqueologia e Hieróglifos Egípcios, e Filologia Antiga — Hebraico, Aramaico, Grego, Latim e Siríaco. É professor de Educação Moral e Religiosa Católica, pároco dos Fenais da Luz e é o delegado diocesano para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso.

 

In “O verme de Deus”
P. Ricardo Tavares

O coração deste verme, do Verme de Deus, é o centro do ser, umbigo da personalidade, relíquia da ligação à placenta divina, buraco negro onde mergulhamos para o transcoração, órgão de carne e espírito. Chamam-lhe consciência profunda, transconsciência… É o lógos ou, melhor, o trânslogo (neol.), que somos nós, palavra de carne viva, espírito vivo, comunicação corporal, identidade em si, inacessível, santuário de Deus, pessoa em partilha, diálogo, emoção e inteligência.

O coração é aquele diamante cristalino, transparente, a caverna mais abscôndita do nosso ser, o tesouro guardado por Deus, em nós, quando nos forjou no ventre da mãe; por ele se refractam, em uma, em duas, em três, em quatro, em cinco, em seis ou em sete cores, todas as luzes exteriores; a única luz que passa no coração sem qualquer perturbação vem de dentro, é a Luz de Deus.

Motor do ser, em fluxo de sangue e irradiação espiritual, tecido de sentimentos e pensamentos, conselho dos íntimos sábios, mensageiros das sensações e suas sistematizações, o coração, único órgão interno que sentimos, rosto do metacoração (neol.), tem o peso de toda esta carne, a leveza de todo este espírito.

Sentindo, pensando, aconselhando-se junto dos mais velhos, embaixadores da tradição, vai o coração, shamir rígido, devorando o túnel da estultícia, alimentando-se de boas decisões, nunca se enganando, cada vez mais próximo do Verme de Deus — o coração do cosmo — na sua câmara divina.



No fundo, não temos coração, ele é que nos tem, foi-nos dado, somos responsáveis por ele, não o deixemos endurecer, para que possamos sempre ver e ouvir através dele



Um coração inteligente e sensitivo, justo e amoroso, só diz a verdade se tal for um ato de amor, só ama se tal for um ato verdadeiro, porque é uma tábua de pedra (Ex 24, 12; Jr 31, 33), transmutada em carne, onde o dedo do Coração divino escreve os mandamentos do amor e da verdade (Ex 31, 18; Pr 3, 3; 7, 2s), indeléveis, inapagáveis, palavras faladas ao ouvido do coração vasto, largo (Dt 6, 6; 1Rs 3, 9; 5, 9), nem o pó da história as esconde, bastará o pano da memória profunda, dois ventrículos, duas aurículas, dois amores inseparáveis (Dt 6, 5; Mt 22, 37-39), o amplo Coração de Deus.

Todo Ele é coração, amor, verdade, misericórdia, inteligência, justiça, perdão, fonte abundante que nos dessedenta e terra árida que tem sede de nós. Ele quer encher o nosso coração, tornando-o um só coração com o coração daqueles que Ele aproxima de nós.

Que somos nós, também, senão um verme em forma de coração, com olhos, boca, ouvidos, cabeça, garganta, mãos, pés, ventre e seios, desejosos de receber e dar amor? O coração é um motor elétrico, movido a cargas e descargas elétricas, altas e baixas, doces e amargas, oriundas das células nervosas, misteriosos radares da vida que fazem mover este verme na estrada da existência.

Por isso, estamos aqui e agora de alma e coração — isso é sabedoria! —, no fundo, não temos coração, ele é que nos tem, foi-nos dado, somos responsáveis por ele, não o deixemos endurecer, para que possamos sempre ver e ouvir através dele (Mt 13, 15), sem a agressividade da palavra, mas com a mansidão do coração assertivo (Mt 11, 29; Jo 2, 15): quando o abismo do coração está pleno, até os lábios se calam.



É na câmara oculta do coração que são tecidas todas as raízes do amor



Não sejamos como Dalila, que, para invadir o coração de Sansão e esvaziar-lhe o segredo que partilhava apenas com Deus, teve de o molestar até à angústia de morte (Jz 16, 16); por mais que o matrimónio funda duas carnes, por mais abundante que seja a paixão, não deve cilindrar corações (Jz 16, 17), que pertencem exclusivamente a Deus. Porque o homem é um coração, a mulher são tantos corações quantas as células, regaço inesgotável, amor incontido, mãos sempre abertas.

Vejamos o tesouro do Coração de Maria: guardava, ruminava, revivia em Si todos os acontecimentos — melífluos e acres — do seu Filho, era uma biblioteca cordial de pergaminhos vitais do Verme de Deus, Mãe sábia que tinha o Coração na suave língua, era como agradável espada de dois gumes… como aquela lança que abriu o Coração infinito do seu Filho, dele manou o sangue do amor e a água da verdade, porque colocou o Coração na obra que fez, deu-Se até à última gota (Jo 19, 34).

Nós, vermes no Verme, coração no Coração divino-humano, moldamos a vida no coração, sem espetáculo, marketing, encriptamos no segredo interior os diálogos com o Pai, cuja verdade só Ele julga (Mt 6, 6), a renúncia a si mesmo, cujo sacrifício só Ele entende (Mt 6, 18), e a partilha com o próximo, que só o seu Coração valoriza e agradece devidamente (Mt 6, 4).

É na câmara oculta do coração que são tecidas todas as raízes do amor. Este nosso coração é como um verme: inútil aos olhos do mundo, vermeja nos túneis do Coração de Deus, baloiçado pelas batidas da sua mão de Pai.


 

Edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 27.02.2020

 

Título: O verme de Deus – Ensaios de Cristopoética I
Autor: Ricardo Tavares
Editora: Letras LAVAdas
Páginas: 152
Preço: 15,00 €
ISBN: 978-989-735-232-4

 

 
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