

Um rio de palavras transborda da boca de cada um, para demonstrar que tem razão. Tantas vezes a instintividade ganha asas e, sem fundar as suas razões com o debate, cada qual luta para vencer e enterrar o outro.
Cada ocasião pode tornar-se num campo de batalha, sobretudo quando estamos convictos de que o outro está sempre errado. Somos muito corajosos, com efeito, a relevar os seus aspetos negativos e a ridicularizá-los, para julgar, criticar e condenar o interlocutor, descarregando sobre ele toda a responsabilidade pelos acontecimentos.
O campo neutro desaparece e emerge a vingança, a raiva que provém do ressentimento ou do desafio, para demonstrar que se é o melhor.
Deixámos de ser guardadores do silêncio, que permite a cada pessoa estar com tudo o que é juntamente com o outro sem preconceitos, em atitude de quem sabe que pode aprender uma dimensão desconhecida da narração, não necessariamente em contraposição às próprias ideias.
Já não cuidamos do silêncio que nos permite entrar em contacto com a profundidade de si animada pelo Espírito de Deus, para dele chegar ao mesmo comprimento de onda, para permanecer sempre em relação.
Deixámos de imergir no silêncio que educa para a busca, para aprender, aprender sempre, para não ficarmos bloqueados no que já se fez, antes descobrir novos horizontes que podem tornar possível a mudança.
Quando defendemos as nossas ideologias criamos um muro na comunicação e empobrecemos. A defesa a todo o transe do próprio pensamento impede-nos de nos colocarmos à escuta do outro em vista do bem comum, de fazermos a análise concreta e objetiva da situação e não ter uma visão global da realidade.
A ostentação daquilo que se faz, chegando ao ponto de atribuir a si próprio méritos infundados, e a denigração dos outros conduzem a um recontro contínuo.
Escreve o papa Francisco na “Alegria do Evangelho”: «O todo é mais do que a parte, sendo também mais do que a simples soma delas. Portanto, não se deve viver demasiado obcecado por questões limitadas e particulares. É preciso alargar sempre o olhar para reconhecer um bem maior que trará benefícios a todos nós» (n. 235).
Se a pessoa apresenta uma identidade esboroada, esta reflete-se na atitude, e portanto sobressai na expressão verbal, comportamentos, etc. Ela tenta desesperadamente unificar num puzzle os seus pensamentos e sentimentos, mas habitualmente exprime-se com uma comunicação que não se mostra linear, fundada, direta, respeitosa, espontânea, simples, coerente, íntima.
A unificação da pessoa, que parte do sentido da sua vida, permite a cada uma estar sempre em relação, ter o outro no coração, medir cada palavra dirigida ao tu frontal para que não fique ferido e com o qual se pode construir um mundo mais humano.
Cada um de nós é chamado a acolher o outro na diversidade, consciente de que desencadear a luta do muro contra o muro só conduz à destruição de ambos, ainda que aparentemente vencedores. Quando não somos guardiães da pessoa real, todos nós perdemos.
Se o sentido da nossa vida é Jesus e o seu Evangelho, terá a sua Palavra passado de moda? Onde colocamos o Evangelho nas nossas disputas, nos ataques frontais, nas murmurações, nas calúnias, nas construções de factos inexistentes que visam destruir o outro, em persistir, inclusive com agressividade, em ideologias pela defesa do indivíduo e não pelo bem real da pessoa?
O que falta para sermos constantemente iluminados pela Palavra do Senhor nos pensamentos, nos sentimentos, nas ações, para levarmos a todo o lado um pouco de ar fresco que fale de acolhimento, de respeito, de silêncio, de escuta, de partilha, de cuidado, de dom, de bem comum, de perdão e de misericórdia?
Provavelmente construímos um Deus à nossa imagem e semelhança que, no quotidiano da nossa vida, exumamos durante os ritos, e que, no dia a dia, deixamos na gaveta como um talismã. Talvez tenhamos perdido pelo caminho a relação com o Senhor, tornando a incarnação de Jesus Cristo evanescente: com os factos dizemos que não há tempo para Ele… nem para nós.
É urgente regressar ao contacto real connosco próprios, para cuidar da vida segundo o Espírito e testemunhar Cristo sempre e em todo o lado, com o olhar voltado para os homens e mulheres que encontramos.
Da opção diária de um outro modo de viver, verdadeiramente humano e divino, inicia a credibilidade da presença do Senhor ressuscitado na História, que se revela já na santificação da comunicação e das relações com cada pessoa.