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Os “Exercícios Espirituais” de Santo Inácio meditados por Bergoglio

A 31 de julho a Igreja celebra a memória litúrgica de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus e autor dos célebres “Exercícios Espirituais”. Em algumas reflexões escritas por Jorge Mario Bergoglio entre 1980 e 1986, publicadas em 1987, reencontram-se elementos para compreender traços da espiritualidade inaciana amadurecida pela experiência pessoal, comunitária e pastoral do papa Bergoglio. Estes escritos, de que apresentamos alguns excertos, permitem entrar no olhar do pontífice e compreender melhor a sua maneira de julgar e agir.

 

Meditações sobre os “Exercícios Espirituais”
P. Jorge Mario Bergoglio
In “Cambiamo”, ed. Solferino

No início dos “Exercícios Espirituais”, Santo Inácio coloca-nos perante este Deus verdadeiro, Deus nosso Senhor, Jesus Cristo, testemunha de verdade. E isto faz-nos considerar algumas verdades sobre a nossa vida, essas verdades basilares às quais nos fará recorrer nos momentos mais decisivos da opção.

A primeira é a nossa verdade criatural. «O homem é criado» (ES 23). Vem de Deus, foi feito por Ele. Mas criado como pessoa, como se fosse o único, «plasmado» pelas mãos de Deus, que nele pôs as suas expetativas. Eu não deixo Deus indiferente. Ele tem-me na mente, ama-me, cuida-me, faz de mim o senhor da criação, que – com a minha liberdade – devo orientar para Ele, Senhor absoluto. E para o fazer, devo servir, como servo inútil (cf. Lucas 17,10), para ser reconhecido definitivamente como um servo fiel (cf. Mateus 25,21-23). Sou chamado a louvar, a reverenciar, a esforçar-me por afirmar com todo o meu ser, a minha mente, a minha palavra, o meu corpo, a minha modéstia, que há um só Senhor digno de todo o louvor: «O Cordeiro, que foi imolado, é digno de receber poder e riqueza, sabedoria e força, honra, glória e bênção» (Apocalipse 5,12).

A verdade sobre acontecimentos da vida: saúde e doença, vida longa e vida breve, riqueza e pobreza, honra e desonra. O meu efetivo comportamento perante eles. A verdade sobre estes acontecimentos que não dependem de mim, mas que me dizem respeito na sua aceitação; e a verdade sobre aqueles que dependem de mim, sobre a escolha e sobre a recusa.

A verdade sobre a minha liberdade: a maneira como a escolho, a maneira como a recuso. A minha família religiosa, a minha comunidade, a minha atitude de «máxima abnegação e contínua mortificação» ao serviço do mais a que sou chamado.

A verdade sobre os nossos desejos, a fim de que sejam fecundos: «Desejando e escolhendo apenas aquilo que mais nos conduz ao fim para o qual fomos criados».

Esta é a verdade que nos torna livres, de uma liberdade de coração inédita para as nossas possibilidades meramente humanas, porque esta liberdade é uma graça, um dom. Um dom, todavia, do qual não nos podemos desinteressar: um dom a merecer com o nosso trabalho e com o nosso agir. Esta verdade significa indiferença a tudo aquilo que não é Deus.

(…)

Duas coisas atraem a atenção quando se inicia a meditação sobre os pecados. A primeira é a oração preparatória. Pedimos a Deus nosso Senhor, ou seja, Jesus Cristo, o Senhor do «Princípio e fundamento», que «todas as minhas intenções, ações e atividades sejam puramente ordenadas ao serviço e louvor da sua divina majestade» (ES 46). Aqui repetimos o "Princípio e fundamento", mas há algo mais: surge explicitamente a ideia de ordem, «ser ordenado a», que contrastará com a desordem da tragédia do pecado. Santo Inácio quer que consideremos esta desordem do pecado a partir de um coração que deseja ser ordenado; e aqui já há faíscas, porque se chocam duas realidades.

A segunda coisa que toca em ambos os exercícios sobre o pecado é a composição do lugar: «Consistirá no ver, com a vista imaginativa e considerar estar a minha alma aprisionada neste corpo corruptível, e todo o composto neste vale, como exilado, entre brutos animais. Por composto entende-se alma e corpo» (ES 47). Duas realidades da nossa existência: a ausência de liberdade (estar aprisionados) e o exílio: ambas consequências do pecado original e embas recorrentes na história de salvação do povo de Israel.

O povo foi feito escravo (Egito, Babilónia, Roma). O próprio Jesus, o Senhor do "Princípio e fundamento", conheceu o exílio (no Egito e nas breves expatriações na Galileia) e a escravidão (na noite de Quinta-feira Santa).

Quando considero a minha pessoa, acorrentada e deportada, submetida à corrupção e aos assaltos dos brutos animais, identificar-me-ei como Senhor glorioso do "Princípio e fundamento" que quis levar para o Céu as suas chagas como recordação da escravidão e do exílio que padeceu. Farei a meditação sobre o pecado com esta disposição, e concluirei contemplando este Senhor «diante de mim e posto na cruz», considerando que «como Criador veio fazer-se homem, e da vida eterna a morte temporal, e assim a morrer pelos meus pecados» (ES 53), que equivale a considerar Cristo deportado e feito escravo por mim, esse Cristo que, «apesar de estar na condição de Deus, não considera um privilégio o ser como Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo uma condição de servo, tornando-se semelhante aos homens. De aspeto reconhecido como homem, humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até à morte, e a uma morte de cruz» (Filipenses 2,6-8). Perante a desordem da primeira desobediência ergue-se, majestoso na sua humilhação, o cometimento de instaurar a ordem com a obediência.

Faremos o primeiro exercício sobre três pecados que nos propõe Santo Inácio: em primeiro lugar, o pecado dos anjos. Apresentaremos à memória o pecado dos anjos, «como sendo eles criados em graça, não querendo servir-se da sua liberdade para prestar reverência e obediência a seu Criador e Senhor, caindo em soberba, passaram do estado de graça ao da malícia e foram expulsos do Céu ao inferno» (ES 50). Portanto o pecado de Adão e Eva, e, por fim, o terceiro pecado, «o pecado particular de alguém que por um pecado mortal tenha ido para o inferno» (ES 52).

(…)

Imediatamente após o "Princípio e fundamento", Santo Inácio dedica amplas páginas ao exame de consciência.

A leitura mostra o cuidado escrupuloso que ele coloca, de maneira que apareça a verdade sobre nós mesmos, e, desta forma, sejamos libertados de qualquer engano. O exame de consciência inaciano é o percurso da busca da nossa verdade na presença de Deus. Mas é também o percurso no qual buscamos a verdade de Deus sobre nós e a verdade do mau espírito sobre nós, de modo que, ao examinar as moções, compreendemos em que ponto estamos e aprendemos a discernir a verdade da mentira.

Por isso o exame prolonga-se, de maneira instrumental, nas «Regras para sentir e conhecer, de alguma maneira, as várias moções que se produzem na alma: as boas para as acolher, e as más para as rejeitar» (ES 313-336). Enfim, todo este processo de conhecimento da verdade é apoiado da urdidura das anotações (cf. ES 1-20) e das várias notas complementares (cf. ES 73-90; 127-133; 157; 199; 204-207; 226-229).

Santo Inácio está consciente do facto de que não é fácil conhecer a verdade sobre nós próprios e sobre Deus nosso Senhor, e a verdade de Deus nosso Senhor sobre nós. A boa semente semeada no bom campo cresce juntamente com o joio, semeado de noite pelo inimigo (cf. Mateus 13,25). Aprender a reconhecê-lo é parte da nossa vida espiritual. Perguntemo-nos com S. Paulo: «Quem foi que vos deteve, impedindo-vos de obedecer à verdade?» (Gálatas 5,7). Não acolhemos o amor da verdade  (cf. 2 Tessalonicensses 2,10) por várias razões. É preciso descobri-las. O próprio Jesus nota-o: «As preocupações do mundo e a sedução da riqueza sufocam a Palavra» (Mateus 13,22). E o engano enfraquece-nos, torna-nos semelhantes certas mulheres mundanas «que são incapazes de chegar ao conhecimento da verdade» (2 Timóteos 3,7-8). Para manter-se no caminho da verdade é preciso lealdade e fortaleza, porque «o caminho da verdade será coberto de desprezo» (2 Pedro 2,2), e é preciso combater continuamente para não ficarmos enganados. Agora compreendemos porque é que Santo Inácio deu tanta importãncia ao exame de consciência (que nunca dispensava), e tenha chegado a examinar-se a si próprio ao toque de cada hora.

Por fim, para nunca perder de vista a possibilidade concreta de se afastar da verdade, de viver na mentira, convem estar abertos às advertências dos irmãos: «Meus irmãos, se algum de vós se extravia da verdade e alguém o converte, saiba que aquele que converte um pecador do seu erro salvará da morte a sua alma e obterá o perdão de muitos pecados» (Tiago 5,19-20).

Corrigir e deixar-se corrigir. Ter a coragem de dizer a um irmão (procurando a maneira de tornar aceitável aquilo que digo) que se está a afastar da verdade. E ter a abertura de coração de deixar que mo digam quando é o caso. Santo Inácio, nas Constituições, insiste nesta abertura de coração e na disponibilidade para sermos advertidos das próprias falhas e a receber bem estas advertências.


 

In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Santo Inácio de Loyola"
Publicado em 31.07.2020

 

 
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