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Cinema: Os noventa anos de Clint Eastwood

Clint Eastwood, nascido em 1930, é realizador, ator, produtor cinematográfico norte-americano e várias vezes vencedor de Óscares, Globos de Ouro e outras distinções. Nos anos 60 personificou muitas vezes o rosto do cowboy “bom” e “justo” nos “westerns” dirigidos por Sergio Leone, em particular na denominada “Trilogia do dólar”: “Por um punhado de dólares” (1964), “Por mais alguns dólares” (1965) e “O bom, o mau e o vilão” (1966). Os anos 70 veem-no sobretudo empenhado no papel do inspetor Callaghan, Dirty Harry, duro e de pistola fácil, que procura levar, com métodos no limite da legalidade, a justiça às ruas violentas de S. Francisco. Mas é sobretudo com os anos 90 que Eastwood começa a sua ascensão como realizador e intérprete de filmes que pertencerão à história do cinema.

Com “Imperdoável” (1992), Eastwood cumpre o ensinamento de Sergio Leone – a quem, juntamente com Don Siegel, o filme é dedicado –, dirigindo e interpretando um “western” que sanciona o culminar, e talvez também o fim, deste género. Se, com efeito, os cowboys dos “westerns” foram sempre personagens de gatilho veloz, sem escrúpulos nem remorsos no matar em duelos ou emboscadas, nesse “Unforgiven” os protagonistas – William Munny (Eastwood) e Ned Logan (Morgan Freeman) – mostram que o tempo dobrou os seus físicos, e os audazes feitos e correrias parecem uma longínqua recordação.

Matar não parece coisa fácil, como afirma Munny depois de o jovem e inexperiente Schofield Kid ter declarado que matou um dos responsáveis pelo golpe no rosto de uma prostituta. «É uma coisa infernal matar um homem. Tira-se-lhe tudo o que tem e tudo o que alguma vez teria». Todavia, o final do filme será ainda noa esteira da vingança, segundo a mais clássica tradição “western”, em relação àqueles que mataram.










A misericórdia, ou seja, o fazer-se próximos dos humilhados da vida, está presente em “Gran Torino” (2008). Eastwood assume o papel de Walt Kowalski, um duro veterano da guerra da Coreia, que, após a sua morte da mulher, estreita amizade comum adolescente, Thao, e com a sua família. Este facto levá-lo-á a encarar um bando violento de jovens criminosos. O filme abre-se com um funeral, no qual as palavras do jovem sacerdote ressoam vazias e de circunstância, os jovens familiares parecem ter perdido o sentido do sagrado e da morte, os próprios filhos de Kowalski estão longe de um pai que «ainda vive nos anos 50».

Como em muitos filmes de Eastwood, a família não é o lugar dos afetos e da concórdia – como podemos ver em “Million dollar baby – Sonhos vencidos” (2004), e no mais recente “The mule – O correio de droga” (2018) –, e parece representar, sobretudo, o lugar da incompreensão e da separação.

Se em “Imperdoável” é a vingança que torna a trazer um equilíbrio, em “Gran Torino”, ainda que as últimas cenas façam pensar num duelo final com armas de fogo, a justiça realiza-se mediante a imolação do protagonista.










Eastwood indaga através do cinema os aspetos essenciais da existência, levando ao grande ecrã as problemáticas e temáticas sobre as quais cada ser humano reflete, e às quais procura dar uma resposta. Em “Million dollar baby”, vencedor de quatro Óscares (filme, realizador, atriz protagonista, ator secundário) encena uma história de ascensão e resgate social d euma jovem que decide empreender a carreira de pugilista.

Maggie Fitzgerald (Hilary Swank), proveniente de uma pequena cidade do Missouri, consegue convencer o carrancudo Frankie Dunn (Eastwood) a treiná-la. Trata-se de um homem solitário, com fortes sentimentos de culpa, cujo único amigo parece ser Scrap (Morgan Freeman), um ex-pugilista que ficou cego de um olho durante um encontro que Frankie não quis interromper.

Todos os protagonistas entraram em contacto com a violência e a pobreza da vida: retomando a metáfora do boxe, podemos dizer que foram ao tapete, mas tiveram a força de se reerguerem. E se a primeira parte do filme é a ascensão contínua da talentosa jovem e da ligação cada vez mais forte entre ela e o seu treinador – quase a mostrar como da vida é possível o resgate –, por causa de um erro da violenta campeã Billie Astrakhov, a jovem Maggie cai por terra, batendo com a cabeça no banco que Frankie tinha colocado ao canto para a fazer descansar no termo do “round”. A queda vai torná-la tetraplégica.










O filme parece inscrever-se na tragédia de Sófocles: o momento de máxima ascensão, o desafio com a campeã em título, coincide com a precipitação para um abismo de que Maggie não conseguirá voltar a sair. A queda mostrará a fragilidade e a mesquinhez dos afetos familiares, com a mãe e a irmã de Maggie que procuram tirar-lhe o dinheiro ganho com os seus sucessos.

O único que permanece fiel à jovem é Frankie, que parece ter contraído com ela uma aliança de sangue, que será derramado até ao fim. Na frente oposta, tinha estipulado outro pacto de fidelidade e de justiça: o mal trajado Scrap, que mantém aberto o ginásio de Frankie, intervém duramente contra o chefe de um grupo de pugilistas sobranceiros que tinham maltratado, no interior do ginásio, um jovem, também ele solitário e com problemas psicológicos.

Maggie, Frankie e Scrap têm vidas solitárias que se encontraram e que serão levadas ao limite. Muitas vezes a luz enquadra estes rostos a três quartos, mostrando a luminosidade e a obscuridade que pervade as suas vidas. Não há vencedores, mas vencidos que continuam a sua vida mostrando uma “pietas”, expressa nas suas contradições e nas suas dúvidas existenciais.

Em 2009, Eastwood dirige “Invictus”, um cinebiografia  sobre a vida de Nelson Mandela, interpretado pelo inseparável ator e amigo Morgan Freeman, e extraído do romance “Playing the enemy: Nelson Mandela and the game that made a nation”, de John Carlin, livremente inspirado em factos noticiosos. Neste filme, o realizador opta por matizes muito claras para fazer realçar os personagens, em particular Nelson Mandela, que, uma vez obtida a presidência, procura de todas as maneiras sarar as feridas provocadas pelo apartheid, utilizando o râguebi como aposta para uma repacificação e uma reconstrução do tecido social da África do Sul.










Também neste caso, Eastwood quer narrar uma história que, de uma possível, e também lógica, opção pela vingança – uma vez no poder, Mandela poderia querer vingar-se de todas as injustiças realizadas pelos brancos durante o apartheid em relação ao seu povo, opção que todos esperariam – escolhe outra solução, mais complexa e ambiciosa: a reconstrução social e humana de um povo através do perdão das injustiças recebidas por causa de uma longa política racista. Cada pessoa deve aprender e aceitar o mundo do outro, ainda que este possa constituir um elemento de ódio e de rancor.

Os personagens levados ao ecrã por Eastwood não têm nada de heroico, no sentido comum do termo, mas são homens e mulheres que, encontrando-se no interior de uma situação limite, obedecem à consciência, sempre entre as luzes e as sombras da sua humanidade. Não é por acaso que, na realização cinematográfica do cineasta, os rostos dos protagonistas, como já referimos, são muitas vezes enquadrados com uma luz lateral que, se aclara fortemente uma parte da face, deixa a outra parte na sombra ou na obscuridade. São as matizes fortes de uma existência, da gravidade das opções, na consciência de que talvez nem tudo ficará bem.

Mas também nesta tortuosidade da vida, de abismos que se abrem, esperanças que se encerram, dores que se têm de enfrentar, fica a ideia de o único verdadeiro caminho consiste em enfrentar a existência na consciência de que a vida se exprime na relação com o outro. A este respeito, é interessante o delicado final de “Hereafter – Outra vida” (2010), no qual a jornalista Marie Lelay e o sensível George Lonegan, depois deterem atravessado peripécias que os conduziram a reflexões metafísicas, se encontram num café ao ar livre, em Londres. Neste encontro, parece sugerir Eastwood, está toda a vida: o presente, único tempo dado, que é pressuposto por um futuro que exigirá opções de responsabilidade e de beleza, como acontece na história de amor de Marie Lelay e George Lonegan, que parece começar precisamente no fim do filme.


 

Claudio Zonta
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Clint Eastwood | D.R.
Publicado em 03.08.2020

 

 
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