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Rumo ao amor, dia 13: Ousar a confiança

Escrevo quando tudo se cala, quando o silêncio se torna mestre interior, quando os pensamentos se recompõem, e parece que o tempo já não os leva embora. E assim, de novo, um dia acabou sem ainda desvelar-se no seu infinito mistério, e a noite prepara um crédito de confiança ao novo dia. Confiar-se às quatro paredes que me contêm, confiar-se ao silêncio profundo desta noite e da Sua intensa e fina presença. Uma noite onde buscar paz para o coração inquieto, onde haja verdadeira paz, e não a quietude do egoísmo que em nós procura reapossar-se daquilo que o dia deu.

Escuto a Missa em Mi bemol maior de Schubert. Diz-se que quando a escreveu tinha 32 anos, que são os anos da minha crise-afastamento de espaço e de alma. Mas faz bem saber que o valor numérico da palavra “glória” em hebraico é precisamente 32, que quer dizer que todos os contrastes humanos são tomados e absorvidos pela comunhão com Deus. Schubert era assaz religioso, assaz pobre, assaz só: maldito pelo pai, gozado pelas mulheres, escarnecido pelos críticos, idolatrado e mal-entendido pelos amigos. Na sequência de uma incauta aventura de amor foi afligido por uma doença, então incurável, que lhe causava violentas dores de cabeça, terríveis dores nos olhos, de tal maneira que todo o seu corpo era uma chaga. Como podia um homem assim poder-nos dizer alguma coisa? E ao contrário, precisamente nessas condições, escreve o seu canto de adeus, a Missa em Mi bemol maior.

Dá-me muita consolação o seu ousar a confiança e o seu não esquecer a beleza nos momentos difíceis. A desconfiança corta as raízes da vida, a confiança fortifica-a. Até quando Deus permanece incompreensível, o essencial é dar-lhe confiança. Não apanhámos nada numa noite de pesca? Não te preocupes, faz-te ao largo e lança as redes. Confia-te!

Confiar-se é tornar-se vulnerável, mas não se pode fazer por menos. «Tudo provém de ti; nós, depois de o termos recebido da tua mão, tornámos a dar-to» (1 Coríntios 25,14).

É o dom recebido que funda e suscita o nosso abandonarmo-nos à confiança.

Sem confiança não se cresce. Na minha vida nunca encontrei um pai tão inteligente que se dirija ao filho, mesmo que pequeno, para lhe dizer: «Hoje discuti com a mamã, que posso fazer?». A criança escutará, e talvez diga duas frases aparentemente banais como: «Papá, vai lá, a mamã está a lavar a loiça, aproxima-te, ajuda-a a limpar, depois dá-lhe um beijinho». Não creio que dirá muito mais, mas naquele momento a criança torna-se pai do pai, sente que o pai lhe deu confiança e começa a crescer.

Temos muito medo em nos confiarmos para não sermos enganados de novo, mas quando se perdeu a confiança não há outra possibilidade a não ser voltar a confiar.

É melhor ficar desiludido cem vezes do que aproximar-se do próximo com suspeita.


 

Luigi Verdi
In La realtà sa di pane, ed. Romena
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Bignai/Bigstock.com
Publicado em 08.03.2020

 

 
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