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A Paixão de Cristo com os textos de Paul Claudel: 1ª- 3ª estação

A recordação da Paixão de Cristo contém e reassume todos os dramas da humanidade, hoje como há dois mil anos. Não é necessário evocar, estação após estação, as muitas, demasiadas, situações de dor e de pecado da nossa história passada ou recente, porque o sofrimento do ser humano está toda lá, na tragédia do Gólgota.

O piedoso exercício da via-sacra torna atual aquele único drama da história da humanidade de cuja partilha pode brotar uma opção de vida, um estilo de pensamento, um fá capaz de ultrapassar todo o obstáculo.

As meditações que propomos são extraídas de “Le chemin de la croix”, de Paul Claudel, grande voz da literatura do século XIX. As suas palavras traduzidas do francês talvez percam em musicalidade, mas não em intensidade e poder expressivo.

É um texto significativo, que nos interpela profundamente, propondo-nos um caminho de saída do absurdo da dor humana, e também no momento que muitos países atravessam. Um texto em que a cruz de Cristo não é pretexto para falar do outro, mas é instrumento capaz de dar sentido às nossas existências.

Ainda que a via-sacra ocorra habitualmente nas ruas das vilas e cidades, ou no interior das igrejas – muitas têm ao longo das suas paredes representações das estações –, a sua meditação através da internet pode tornar-se numa oportunidade de conversão, comunhão e graça.

 

Oração inicial

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.
Ámen.

Senhor, colocámo-nos no lugar do Criador, e, sem humildade nem sabedoria, acreditámos que podíamos dirigir cada coisa seguindo o caminho do domínio e da posse. Transformai-nos! Faz com que o nosso rosto seja luz, que as nossas palavras sejam fortes, as nossas ações coerentes. Mais do que nunca, precisamos da grandeza do teu sopro, precisamos que o teu coração se torne nosso, para nos recordar que também em nós vive a maravilhosa liberdade dos filhos de Deus. Tu que és Deus…
Ámen.

 


Imagem © Cesare Monaco


1.ª estação: Jesus é condenado à morte

Nós te adoramos, ó Cristo, e te bendizemos.
Porque com a tua santa cruz remiste o mundo.

«Armemos laços ao justo porque nos incomoda,e se opõe à nossa forma de atuar. Ele afirma ter o conhecimento de Deuse chama-se a si mesmo filho do Senhor! Vejamos, pois, se as suas palavras são verdadeiras,e que lhe acontecerá no fim da vida. Porque, se o justo é filho de Deus, Deus há-de ampará-lo e tirá-lo das mãos dos seus adversários. Condenemo-lo a uma morte infame» (Sabedoria 2).

«Acabou. Nós julgamos Deus e condenámo-lo à morte.
Não queremos mais Jesus Cristo connosco, pois ele constrange-nos.
Não temos outro rei além de César!, outra lei a não ser o sangue e ouro!
Crucificai-o, se o quereis, mas desvencilhem-nos dele!, levem-no daqui!
Tolle! Tolle! Tanto pior! pois é preciso, que o imolem, e que nos deem Barrabás!

Pilatos senta-se no lugar chamado Gabatá.
"Não tens nada a dizer?", diz Pilatos. E Jesus não responde.
"Eu não vejo nenhum mal neste homem", diz Pilatos, “mas bah!
"Que morra, se querem tanto! Eu vo-lo dou."Ecce homo.

Ei-lo aí, a coroa na cabeça e a púrpura sobre o ombro.
Uma última vez para nós esses olhos plenos de lágrimas e de sangue!
Que podemos nós? não há maneira de o guardar connosco mais tempo.
Tal como ele foi um escândalo para os judeus, Ele é entre nós um não-senti
De resto, a sentença foi proferida, nada falta, em língua hebraica, grega e latina.
E vemos a multidão povo que grita, e o juiz que lava as mãos» (Le chemin de la croix).

O Senhor não poupou o próprio Filho.
Entregou-o pela nossa salvação.
Maltratado, deixou-se humilhar.
Não abriu a sua boca.
Senhor, escuta a minha prece.
E o meu grito chegue a ti.

Oremos. Vê, ó Deus omnipotente, a humanidade esgotada pela sua fraqueza mortal, e faz que retome vida pela Paixão do teu único Filho feito homem e humilhado até à morte de cruz. Ele que é Deus convosco…
Ámen.

 


Imagem © Cesare Monaco


2.ª estação: Jesus é carregado com a cruz

Nós te adoramos, ó Cristo, e te bendizemos.
Porque com a tua santa cruz remiste o mundo.

«Muita guerra me fizeram
desde a minha juventude!
– que o diga Israel.
Muita guerra me fizeramdesde a minha juventude,
mas não conseguiram vencer-me.
Como agricultores, lavraram sobre as minhas costas,
abrindo em mim compridos sulcos» (Salmo 129 (128))

«Tiram-lhe as suas vestes, e a cruz lhe é trazida.
"Salve”, diz Jesus, “ó Cruz durante tanto tempo desejada!”
E tu, olha, cristão, e estremece! Ah, que instante solene
É este onde Cristo pela primeira vez aceita a Cruz eterna!
Ó consumação neste dia da árvore no Paraíso!
Olha, pecador, e vê para que serviu o teu pecado!
Jamais haja crime sem um Deus acima, e jamais haja cruz sem Cristo!
Decerto a miséria do homem é grande, mas não temos nada a dizer,
Pois Deus agora está acima, veio não para explicar, mas para preencher.
Jesus recebe  a Cruz, como nós recebemos a Santa Eucaristia:
Nós damos-lhe lenho por seu pão”, como foi dito pelo profeta Jeremias.
Ah, como a cruz é longa, e como é enorme e difícil!
Como ela é dura! como é rígida! como é pesado, o peso do pecador inútil!
Como é longo suportar passo a passo até morrer ao alto!
Sois Vós que ireis carregar isso completamente sozinho, Senhor Jesus?

Tornai-me, por meu turno, paciente do lenho que quereis que eu suporte.
Porque é preciso que carregueis a cruz antes que a cruz nos carregue» (Le chemin de la croix).

Sobre Ele se abateu o castigo que salva
Pelas suas chagas fomos curados.
A iniquidade do povo recai sobre Ele.
Pela nossa culpa foi flagelado até à morte.
Senhor, escuta a minha prece.
E o meu grito chegue até ti.

Oremos. Deus omnipotente e eterno, que deste como modelo aos seres humanos Cristo, teu Filho, nosso Salvador, faz com que tenhamos sempre presente o ensinamento da sua paixão, para participar na glória da ressurreição. Ele que é Deus convosco…
Ámen.

 


Imagem © Cesare Monaco


3.ª estação: Jesus cai pela primeira vez

Nós te adoramos, ó Cristo, e te bendizemos.
Porque com a tua santa cruz remiste o mundo.

«Rebaixou-se a si mesmo,tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Por isso mesmo é que Deus o elevou acima de tudoe lhe concedeu o nome que está acima de todo o nome» (Filipenses 2,8-9).

«Em frente! ora vítima ora carrasco, tudo se põe em marcha para o Calvário desterra.
Deus puxado pelo pescoço tropeça e cai por terra.

Que dizeis, Senhor, desta primeira queda?
E já que agora sabeis, que pensais? este minuto
Onde se cai e onde este mal carregado fardo vos precipita!
Como vos parece, esta terra que fitais?
Ah, não é somente o caminho do bem que é acidentado.
O do mal, também ele, é pérfido e vertiginoso!
Nada a fazer senão ir a direito, é preciso instruir-se pedra a pedra,
E o pé falha muitas vezes, então que o coração persevere.
Ah, Senhor, por esses joelhos sagrados, esses dois joelhos que um a um vos faltaram.
Pela repentina náusea e a queda à entrada da horrível Via,
Pela cilada bem-sucedida, pela terra que aprendestes,
Salvai-nos do primeiro pecado que por surpresa se comete!» (Le chemin de la croix).

Ele carregou os nossos sofrimentos
Tomou a cargo toda a nossa dor.
Pelas nossas culpas foi trespassado.
Esmagado pelas nossas iniquidades.
Senhor, escuta a minha prece.
E o meu grito chegue até ti.

Oremos. Ó Deus omnipotente, que amaste primeiro, enquanto nós éramos ainda pecadores. Concedei-nos a força para nos erguermos do pecado e viver na tua graça. Isto te pedimos por Cristo…
Ámen.


 

Fonte: Arquidiocese de Potenza-Muro Lucano-Marsicouovo (Itália)
Tradução do guião (italiano) e do texto de Paul Claudel (francês): Rui Jorge Martins
Imagens: "Il vangelo secondo Matteo" (topo); Cesare Monaco (estações)
Publicado em 01.04.2020 | Atualizado em 02.04.2020

 

 
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