

O papa recebeu hoje os artistas que vão participar no tradicional concerto de Natal do Vaticano, agradeceu a sua «solidariedade», que em tempo de crise social «se destaca ainda mais», e lançou-lhes um apelo: «Mesmo na perturbação provocada pela pandemia, a vossa criatividade pode gerar luz».
«A crise torna mais densas as sombras de um mundo fechado, e parece obscurecer a luz do divino, do eterno. Não cedamos a este engano. Procuremos a luz da Natividade: ela rasga a obscuridade da dor e das trevas», e a sua «beleza» pode ser especialmente contemplada «na humildade do presépio: hoje como então, celebramo-la com espírito repleto de esperança».
Citando várias vezes as mensagens dos papas S. Paulo VI e S. João Paulo II aos artistas, a primeira aquando do encerramento do Concílio Vaticano II, Francisco recordou que são, «de maneira particular, guardiães da beleza do mundo».
«A vossa é uma vocação alta e absorvente, que exige mãos puras e desinteressadas para transmitir verdade e beleza. Ambas infundem alegria ao nosso coração e são um fruto precioso que resiste ao desgaste do tempo, que une as gerações e as faz comunicar na admiração», apontou.
O encontro proporcionou ao papa a oportunidade para partilhar «alguns pensamentos sobre a arte e sobre o seu papel» no atual «momento histórico tão crítico», tendo apontado três movimentos na «criação artística».
«Um primeiro é o dos sentidos, que são colhidos de admiração e maravilhamento. Esta dinâmica inicial, exterior, estimula outras mais profundas. O segundo movimento, com efeito, toca a interioridade da pessoa. Uma composição de cores ou de palavras ou de sons tem a força de tocar o espírito humano. Despertam-se memórias, imagens, sentimentos», afirmou.
O terceiro aspeto consiste no facto de a «perceção e contemplação do belo gerarem um sentido de esperança, que se irradia no mundo à volta. Neste ponto, o movimento exterior e o interior fundem-se, e, por sua vez, incidem nas relações sociais: geram a empatia capaz de compreender o outro, com o muito que temos em comum. Trata-se de uma socialidade nova, não só vagamente expressa, mas percecionada e partilhada».
«Este triplo movimento de maravilha, de descoberta pessoal e de partilha produz um senso de paz, a qual – como testemunha S. Francisco de Assis – nos liberta de todo o desejo de domínio sobre os outros, faz-nos compreender as dificuldades dos últimos e impele-nos a viver em harmonia com todos. Uma harmonia que está ligada à beleza e à bondade», acentuou.
Os artistas têm consciência da «espécie de centelha divina que é a vocação artística», e são chamados a não «desperdiçar esse talento, mas a desenvolvê-lo, para o colocar ao serviço do próximo e de toda a humanidade».
Francisco recordou que, aquando do termo do concílio, S. Paulo VI referiu-se aos artistas como «“enamorados da beleza”, e dizia que o mundo «precisa da beleza, para não cair no desespero».