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Comunhão, criatividade, visão: Papa Francisco aponta tarefas para relação da Igreja com o cinema

«Como é o nosso olhar? É um olhar atento e próximo, não adormecido? É um olhar de conjunto e de unidade? De modo particular, a vós que vos ocupais de cinema: é um olhar que suscita emoções? É um olhar que comunica comunhão e criatividade?» Estes foram os questionamentos que o papa Francisco dirigiu hoje a representantes da Associação Católica de Exercentes de Cinema/Salas Recreativas Católicas, organismo da Conferência Episcopal Italiana, por ocasião do seu 70.º aniversário, numa intervenção em que apontou três tarefas para as instituições que operam na pastoral da Sétima Arte.

«A primeira: comunhão. O cinema, como se sabe, é um grande instrumento de agregação. Sobretudo no pós-guerra contribuiu de maneira excecional para reconstruir o tecido social com muitos momentos de agregação. Quantas praças, quantas salas, quantos oratórios, animados por pessoas que, na visão do filme, transferiam esperanças e expetativas. E daí voltavam a partir, com um suspiro de alívio, nas ânsias e dificuldades diárias. Um momento também educativo e formativo, para reconetar relações consumidas pelas tragédias vividas. Como não recordar também as grandes produções que narraram esses anos? Gosto de citar – porque o sinto muito familiar a este encontro – o filme “I bambini ci guardano” [“A culpa dos pais”, realizado por Vittorio De Sica, 1943]. É um trabalho belo e rico de significados. Mas todo o cinema do pós-guerra é uma escola de humanismo. Vós, italianos, fizeram isto, com os vossos grandes [mestres], não vos esqueçais disto. E não falo por ouvir dizer. Quando éramos crianças, os pais levavam-nos a ver esses filmes, e eles formaram-nos o coração. É preciso retomar isto. Mencionei aquele para a família, mas há tantos, tantos… Vós sois herdeiros desta grande escola de humanismo, de humanidade, que é o cinema do pós-guerra.



O que podeis dizer perante a mudança? Sem dúvida que é preciso uma conversão integral, que apela à riqueza e profundidade da cada um. Audácia e criatividade para seguir em frente, e não ficar às margens da inovação



Também as vossas realidades associativas evoluem na capacidade de agregar, ou, melhor, de construir comunhão: «Nós, cristãos, somos chamados a manifestar aquela comunhão que marca a nossa identidade de crentes. A própria fé, com efeito, é uma relação, um encontro; e sob o impulso do amor de Deus podemos comunicar, acolher e compreender o dom do outro e corresponder-lhe» (Mensagem para o 53.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, 24/1/2019). O convite, então, é o de construir comunhão entre vós, mas também comunhão entre associações e organizações que no mundo católico se ocupam do cinema, para transmitir a beleza do estar juntos nos eventos de que sois promotores. Sem comunhão, falta alma à agregação.

A segunda [tarefa]: criatividade. A arte cinematográfica, como toda a expressão artística, é fruto da criatividade, que revela a singularidade do ser humano, a sua interioridade e intencionalidade. Quando um artesão modela a sua obra, fá-lo integrando cabeça, coração e mãos, segundo um desenho claro e definido. Encorajo-vos a dar espaço à criatividade, imaginando e construindo novos percursos. A criatividade é fundamental: sabemos muito bem como as novas plataformas digitais representam um desafio para os meios de comunicação tradicionais.



O olhar comunica e não trai, requer estilos de vida e ações coordenadas para um bem maior do que o simples interesse. O olhar é o fundamento da construção da comunidade



Também o cinema é interrogado pelos desenvolvimentos oferecidos pelas tecnologias modernas. As vossas associações e organizações, se não querem tornar-se “museus”, devem colher estas interrogações de maneira ativa e criativa. A audácia, como aconteceu com os [vossos] fundadores, chama mais uma vez a estar na primeira linha, mas não, contudo, de maneira isolada ou dispersa, mas todos juntos. O que podeis dizer perante a mudança? Sem dúvida que é preciso uma conversão integral, que apela à riqueza e profundidade da cada um. Audácia e criatividade para seguir em frente, e não ficar às margens da inovação.

A terceira [tarefa]: visão. A visão de uma obra cinematográfica pode abrir várias fendas na alma humana. Tudo depende da carga emotiva que é dada à visão. Pode ser a evasão, a emoção, o riso, a raiva, o medo, o interesse… Tudo está ligado à intencionalidade colocada na visão, que não é simples exercício ocular, mas algo mais. É o olhar posto na realidade. O olhar, com efeito, revela a orientação mais diversificada da interioridade, porque é capaz de ver as coisas e de ver as coisas por dentro. O olhar provoca também as consciências a um exame atento. Deixemo-nos interrogar: como é o nosso olhar? É um olhar atento e próximo, não adormecido? É um olhar de conjunto e de unidade? De modo particular, a vós que vos ocupais de cinema: é um olhar que suscita emoções? É um olhar que comunica comunhão e criatividade? As respostas nunca são dadas por adquiridas, e requerem um grande trabalho interior. O olhar comunica e não trai, requer estilos de vida e ações coordenadas para um bem maior do que o simples interesse. O olhar é o fundamento da construção da comunidade. E vós sabeis muito bem quanto é importante superar as paliçadas do passado para projetar-se nos caminhos do futuro. Todos vós tendes do ADN um sentir eclesial. Exorto-vos a viver a vossa paixão e a vossa competência com sentido e estilo eclesial: é o melhor remédio para não cair na autorreferencialidade, que mata sempre.»














 

Papa Francisco
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 07.12.2019

 

 
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