

«O que temos de fazer é uma lei sobre a convivência civil, têm direito a uma forma de tutela legal. Já o apoiei.» Independentemente das interpretações mediáticas, a opinião de Jorge Mario Bergoglio sobre os casais homossexuais não mudou nos últimos dez anos.
A frase, presente no documentário de Evgeny Afineevsky reitera o que já tinha exprimido em 2010, quando, enquanto arcebispo de Buenos Aires, teve de enfrentar o escaldante debate sobre os casamentos homossexuais, lei fortemente desejada pelo governo da então presidente Cristina Kirchner. Quem o recorda não são apenas acreditadas fontes jornalísticas desse tempo, entre as quais o biógrafo Sergio Rubín.
Esta quinta-feira, 22 de outubro, em mensagem no Facebook, D. Victor Manuel Fernández, arcebispo de La Plata, teólogo e profundo conhecedor do pensamento de Bergoglio, observou como para o papa Francisco, antes e depois da eleição pontifícia, se devem distinguir dois planos.
Por um lado há o «matrimónio», termo com um significado preciso, aplicável apenas a uniões estáveis entre uma mulher e um homem, aberto à vida. «Esta união é única, porque implica a diferença entre o homem e a mulher, unidos por uma relação de reciprocidade e enriquecidos por esta diferença, naturalmente capaz de gerar vida», explica o prelado. Qualquer outra união requer, por isso, uma denominação diferente.
Uniões ou convivências civis, precisamente. «Jorge Mario Bergoglio reconheceu sempre, mas sem a necessidade de a definir como matrimónio, a existência de laços muito estreitos entre pessoas do mesmo sexo, que vão para além do mero plano sexual, mas são alianças intensas e estáveis. As pessoas conhecem-se a fundo, partilham o mesmo teto durante muito tempo, cuidam-se e sacrificam-se um pelo outro», assinala.
Em caso de doença grave ou morte, um dos dois pode destinar os seus bens ao outro, ou que seja este a ser consultado em vez de um familiar. «Tudo isto pode ser contemplado por uma lei» sobre «uniões civis ou normativa de convivência civil, não matrimónio».
D. Fernández confirma o que já tinha sido reportado pelos meios de comunicação há dez anos: que durante o debate sobre o denominado “matrimonio igualitario" na Argentina, o cardeal Bergoglio sustenta essa posição durante um encontro “ad hoc” com o episcopado: a maioria, porém, opõe-se.
A questão emergiu logo após o conclave de 2013. Desde então, o sucessor de Pedro mostrou sempre sensibilidade e atenção pastoral em relação às pessoas homossexuais. No documentário de Afineevsky, Francisco volta expressamente à questão das uniões civis e voltar a propor, como papa, o que já tinha afirmado há dez anos. Mas nem isso, todavia, é um inédito absoluto.
No livro que recolhe as conversas com o sociólogo Dominique Wolton, publicado em França em 2017, há já um aceno: «Matrimónio é um termo que tem uma história. Desde sempre, na história da humanidade, e não só da Igreja, é celebrado entre um homem e uma mulher», afirma Francisco. E acrescenta: «É uma coisa que não se pode mudar. É a natureza das coisas, é assim. Chamemos-lhe uniões civis. Não brinquemos com a verdade».
Por isso, o documentário “Francesco”, distinguido ontem, nos jardins do Vaticano, com o prémio Kinéo, não contém verdades desconcertantes. De resto, não era esse o objetivo do autor, judeu não praticante de origem russa.
Através da recolha de testemunhos e imagens, o realizador procura narrar as feridas do mundo: as guerras, o êxodo infinito a que são constrangidas milhares de pessoas, os muros velhos e novos, físicos e mentais que separam uns dos outros.
A narrativa segue o papa nas suas viagens, de Lampedusa a Manila, de Ciudad Juárez a Santiago. O documentário, explica o cineasta, transformou-se, progressivamente, num filme «sobre a humanidade que comete erros, feita de pecadores». A chave está contida numa frase de Oscar Wilde cara ao papa e relembrada no filme: «Todo o santo tem um passado, e todo o pecador tem um futuro».