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Papa pede orações por uma economia «que não deixe ninguém para trás»

«Enquanto a economia real, a que cria emprego, está em crise, com tanta gente sem trabalho, os mercados financeiros nunca estiveram tão inflacionados como agora»; trata-se de uma situação «insustentável» e «perigosa».

É nestes termos que o papa apresenta, em vídeo, a intenção de oração para maio, dedicada ao «mundo das finanças», na qual faz questão de «sublinhar» uma palavra: «Especulação».

Depois de lamentar o afastamento entre «o mundo das grandes finanças» e a «vida da maioria das pessoas», Francisco reitera que «as finanças, se não estiverem regulamentadas, tornam-se pura especulação, reforçada por algumas políticas monetárias».

«Para evitar que os pobres voltem a pagar as consequências, a especulação financeira deve ser estritamente regulamentada», assinala o papa, que pede orações para que «as finanças sejam instrumentos de serviço, instrumentos para servir as pessoas e cuidar da casa comum».

Francisco considera que ainda é possível «pôr em andamento um processo de mudança global para praticar uma economia diferente, mais justa, inclusiva, sustentável, que não deixe ninguém para trás».

«Rezemos para que os responsáveis pelo mundo financeiro colaborem com os governos para regulamentar os mercados financeiros e proteger os cidadãos em perigo», acrescenta.



«A facilidade dos lucros, que oferece a anarquia do mercado, leva muitos a darem-se ao comércio desejosos unicamente de enriquecer sem grande trabalho; os quais, com desenfreada especulação, levantam e diminuem os preços a capricho da própria cobiça»



Há precisamente trinta anos, na encíclica “Centesimus annus” (1.5.1991), que marcou o centésimo aniversário da encíclica “Rerum novarum”, de Leão XIII, S. João Paulo II referiu a palavra que Francisco agora destaca.

«A posse dos meios de produção» é «ilegítima» nomeadamente quando serve «para obter um ganho que não provém da expansão global do trabalho humano e da riqueza social, mas antes da sua repressão, da ilícita exploração, da especulação, e da rutura da solidariedade no mundo do trabalho», acentuou o papa.

A crítica à especulação na finança não é nova para a Igreja: sessenta anos antes da “Centesimus annus”, no contexto do mesmo documento de Leão XIII sobre a condição dos operários, Pio XII escreveu: «A facilidade dos lucros, que oferece a anarquia do mercado, leva muitos a darem-se ao comércio desejosos unicamente de enriquecer sem grande trabalho; os quais, com desenfreada especulação, levantam e diminuem os preços a capricho da própria cobiça e com tal frequência, que desconcertam todos os cálculos dos produtores». 

Também Bento XVI, igualmente numa encíclica, a “Caritas in veritate”, chamava a atenção para «os efeitos deletérios sobre a economia real duma atividade financeira mal utilizada e maioritariamente especulativa».



«…os poderes económicos continuam a justificar o sistema mundial atual, onde predomina uma especulação e uma busca de receitas financeiras que tendem a ignorar todo o contexto e os efeitos sobre a dignidade humana e sobre o meio ambiente»



«É preciso evitar que o motivo para o emprego dos recursos financeiros seja especulativo, cedendo à tentação de procurar apenas o lucro a breve prazo sem cuidar igualmente da sustentabilidade da empresa a longo prazo, do seu serviço concreto à economia real e duma adequada e oportuna promoção de iniciativas económicas também nos países necessitados de desenvolvimento», explicitou.

O papa emérito pedia, então, uma «regulamentação» do setor financeiro «capaz de assegurar os sujeitos mais débeis e impedir escandalosas especulações».

No ensinamento do papa Francisco, o problema foi evocado por exemplo na encíclica “Laudato si’”, sobre o cuidado da casa comum (2015): «…os poderes económicos continuam a justificar o sistema mundial atual, onde predomina uma especulação e uma busca de receitas financeiras que tendem a ignorar todo o contexto e os efeitos sobre a dignidade humana e sobre o meio ambiente».

Podia esperar-se que «a crise financeira dos anos 2007 e 2008» tivesse proporcionado «o desenvolvimento duma nova economia mais atenta aos princípios éticos e para uma nova regulamentação da atividade financeira especulativa e da riqueza virtual», mas, constatava Bergoglio, «não houve uma reação que fizesse repensar os critérios obsoletos que continuam a governar o mundo».









 

Rui Jorge Martins
Imagem: Phongphan/Bigstock.com
Publicado em 04.05.2021

 

 
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