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Papa pede «viragem cultural» e recorda jovens que partiram de Lisboa para evangelizar

O papa evocou hoje os «inúmeros jovens, incluindo muitos missionários», que nos séculos XV e XVI partiram de Lisboa «para terras desconhecidas a fim de partilhar a sua experiência de Jesus com outros povos e nações», ao introduzir a mensagem para o próximo Dia Mundial da Juventude, que a Igreja católica assinala em todo o mundo a 5 de abril, Domingo de Ramos.

Depois de salientar que acontecimentos como o sínodo dos bispos de 2018, sobre “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”, e a Jornada Mundial da Juventude manifestam «uma dimensão essencial da Igreja: o “caminhar juntos”», Francisco refere que os cristãos, sempre que alcançam «um marco importante», são «desafiados por Deus» a pôr-se «novamente em marcha».

«Vós, jovens, sois especialistas nisto! Gostais de viajar, cruzar-vos com lugares e rostos nunca vistos antes, viver novas experiências. Por isso, como destino da vossa próxima peregrinação intercontinental em 2022, escolhi a cidade de Lisboa, capital de Portugal», assinala.

O tema do encontro de Lisboa, “Maria levantou-se e partiu apressadamente”, será preparado, nos dois anos anteriores, por outros dois textos bíblicos: este ano será «Jovem, Eu te digo, levanta-te» (Lucas 7,14), e para 2021 foi escolhido «Levanta-te! Eu te constituo testemunha do que viste» (Atos 26,16).



«Como é o meu olhar? Vejo com olhos atentos ou como faço ao repassar rapidamente as milhares de fotografias no meu telemóvel ou os perfis sociais? Quantas vezes nos acontece, hoje, ser testemunhas oculares de inúmeros acontecimentos, sem nunca os vivermos ao vivo!»



O texto é marcado, entre outros apelos, pelo «desafio duma viragem cultural, a partir deste «levanta-te» de Jesus»: «Numa cultura que quer os jovens isolados e debruçados sobre mundos virtuais, façamos circular esta palavra de Jesus: “Levanta-te”. É um convite a abrir-se para uma realidade que vai muito além do virtual», apela o papa, referindo-se à influência que a internet e os telemóveis exercem nos mais novos.

O fragmento do Evangelho de Lucas que inspira a mensagem para o Dia Mundial da Juventude deste ano insere-se no episódio que narra o regresso à vida, pela ação de Jesus, de um jovem, filho único de sua mãe, viúva, que ia a sepultar.

«Jesus pousa um olhar atento, não distraído, sobre aquele cortejo fúnebre. No meio da multidão, avista o rosto duma mulher marcado por extremo sofrimento. O seu olhar gera o encontro, fonte de vida nova», observa o papa.

Francisco, logo a seguir, questiona: «Como é o meu olhar? Vejo com olhos atentos ou como faço ao repassar rapidamente as milhares de fotografias no meu telemóvel ou os perfis sociais? Quantas vezes nos acontece, hoje, ser testemunhas oculares de inúmeros acontecimentos, sem nunca os vivermos ao vivo! Às vezes, a nossa primeira reação é filmar a cena com o telemóvel, talvez esquecendo-nos de fixar nos olhos as pessoas envolvidas».

«Ao nosso redor e às vezes mesmo dentro de nós, deparamo-nos com realidades de morte: física, espiritual, emocional, social. Damo-nos conta disso ou limitamo-nos a sofrer as consequências? Haverá algo que possamos fazer para restabelecer a vida?», interroga.



«Se souberdes chorar com quem chora, sereis verdadeiramente felizes. Há tantos coetâneos vossos que se veem privados de oportunidades, sofrem violências, perseguições. Que as suas feridas se tornem as vossas, e sereis portadores de esperança neste mundo»



Colocar em perigo a vida com «experiências extremas», a morte anímica e espiritual que ocorre muito antes da morte física devido à perda da esperança, à «depressão», à «apatia», à «tentação de destruir a própria vida», são algumas das situações protagonizadas pelos jovens, diante das quais «o que há são olhares distraídos, indiferentes talvez mesmo de quem esteja a gozar os seus momentos felizes mantendo-se à larga».

«É possível encontrar-se aos vinte anos a arrastar uma vida decadente, não à altura da própria dignidade. Tudo se reduz a um «deixar correr», contentando-se com qualquer gratificação: um pouco de diversão, algumas migalhas de atenção e carinho dos outros, etc. Há também um generalizado narcisismo digital, que influencia tanto jovens como adultos. Muitos vivem assim! Alguns deles talvez tenham respirado ao seu redor o materialismo de quem pensa apenas em ganhar dinheiro e estabelecer-se na vida, como se fossem os únicos objetivos da mesma. A longo prazo, irá inevitavelmente aparecer um surdo mal-estar, uma apatia, um tédio de viver, cada vez mais angustiante», vaticina Francisco.

A mensagem lembra que «o fim dum “sonho”», a nível escolar, desportivo ou artístico, pode também induzir a sensação de que se está morto, mas «os fracassos», lembra Francisco, «fazem parte da vida de todo o ser humano, podendo às vezes revelar-se até uma graça».



«Bem sabemos que também nós, cristãos, caímos e sempre nos devemos levantar. Só quem não caminha é que não cai; mas também não avança para diante. Por isso, é preciso acolher a intervenção de Cristo e fazer um ato de fé em Deus. O primeiro passo é aceitar levantar-se»



Retomando um tema frequente das suas intervenções, a indiferença perante a tragédia alheia, o papa mostra-se convicto de que os jovens sabem como se podem «com-padecer»: «Não há desastre, terremoto, inundação que não veja grupos de jovens voluntários mostrarem-se disponíveis para socorrer. Também a grande mobilização de jovens que querem defender a criação dá testemunho da vossa capacidade de ouvir o clamor da Terra».

«Se souberdes chorar com quem chora, sereis verdadeiramente felizes. Há tantos coetâneos vossos que se veem privados de oportunidades, sofrem violências, perseguições. Que as suas feridas se tornem as vossas, e sereis portadores de esperança neste mundo. Podereis dizer ao irmão, à irmã “levanta-te, não estás sozinho, não estás sozinha”, fazendo-lhe experimentar que Deus Pai nos ama e Jesus é a sua mão estendida para nos erguer», acentua.

Regressando à cena do Evangelho, Francisco amplia a reflexão, superando o contexto da morte física do jovem na cidade de Naim, para se centrar em outras muitas mortes, que também por Jesus podem ser revertidas.

«Bem sabemos que também nós, cristãos, caímos e sempre nos devemos levantar. Só quem não caminha é que não cai; mas também não avança para diante. Por isso, é preciso acolher a intervenção de Cristo e fazer um ato de fé em Deus. O primeiro passo é aceitar levantar-se. A nova vida que Ele nos der, será boa e digna de ser vivida, porque será sustentada por Alguém que nos acompanhará também no futuro sem nunca nos deixar, ajudando-nos a gastar de forma digna e fecunda esta nossa existência», sublinha.



«Provavelmente, nos momentos de dificuldade, muitos de vós ouviram repetir-lhe certas frases "mágicas" que estão de moda hoje e deveriam resolver tudo: "Deves acreditar em ti próprio", "deves encontrar os recursos dentro de ti", "deves tomar consciência da tua energia positiva", etc. Mas todas elas não passam de meras palavras»



A proximidade de Cristo e o seu amor por cada pessoa superam radicalmente as receitas fáceis debitadas por muitos "best-sellers" de autoajuda.

«Provavelmente, nos momentos de dificuldade, muitos de vós ouviram repetir-lhe certas frases "mágicas" que estão de moda hoje e deveriam resolver tudo: "Deves acreditar em ti próprio", "deves encontrar os recursos dentro de ti", "deves tomar consciência da tua energia positiva", etc. Mas todas elas não passam de meras palavras e, para quem estiver verdadeiramente morto dentro, não funcionam. A palavra de Cristo tem outra espessura: é infinitamente superior; é uma palavra divina e criadora, a única que pode restabelecer a vida onde esta se apagou.»

Cristo, no entanto, não quer apossar-se da liberdade pessoal, pelo que em cada pessoa é preciso um "sobressalto" que renuncie ao comodismo e abrace «paixões» e «sonhos»: «Fazei-os sobressair e, através deles, proponde ao mundo, à Igreja, a outros jovens, algo de belo no campo espiritual, artístico e social».

«Rezemos a Maria pela Igreja, para que seja sempre mãe dos seus filhos que se encontram na morte, chorando e pedindo o seu renascimento. Por cada filho seu que morre, morre também a Igreja; e por cada filho que ressuscita, também ela ressuscita», conclui Francisco.


 

Rui Jorge Martins
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Imagem: D.R.
Publicado em 05.03.2020

 

 
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