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Para além do algoritmo

Uma primeira palavra de saudação a quantos quiseram acorrer a Fátima para esta 19ª Jornada Nacional da Pastoral da Cultura.

À saudação devida a todos pelo início do novo ano, com os augúrios correspondentes, junta-se a saudação de boas-vindas pela disponibilidade para, em conjunto, podermos realizar uma reflexão acerca deste “mundo novo” que já aí se encontra. E a estas saudações há, também, que acrescentar o agradecimento aos convidados que se disponibilizaram para serem “provocadores da reflexão comum”, deixando o conforto dos seus lares para estarem connosco.

Como qualquer “mundo novo”, também a chamada “Inteligência Artificial” traz consigo o entusiasmo pelo maravilhoso que coloca já diante de nós, tal como traz consigo a esperança pelas possibilidades que nos oferece, e, igualmente, o temor pelas consequências humanas e civilizacionais que irá, de certeza, acarretar.

Sou bispo de uma Ilha cuja “descoberta” e povoamento assinalou o início do “novo mundo” de 400 e 500. Significativamente achada no meio do oceano como um paraíso despovoado — disponível portanto para o que dele se quisesse fazer —, a Madeira dava aos seus primeiros colonizadores a percepção de se encontrarem a iniciar qualquer coisa de radicalmente novo.

A tal pensamento não eram, certamente, estranhos os pensamentos milenaristas de então, que fervilhavam um pouco por toda a Europa. Mas não deixa de ser significativo que Gonçalo Ayres Ferreira, escudeiro do Infante D. Henrique, companheiro de João Gonçalves Zarco, dos primeiros a desembarcar na Ilha, tenha colocado aos seus dois filhos (“os primeiros que nasceram naquela terra”) os nomes de Adão Gonçalves Ferreira e Eva Gomes Ferreira.

Certamente, não passou muito tempo até que esses mesmos povoadores se dessem conta de que, afinal, nem a Ilha era a boca do Inferno (como alguns parece terem temido quando a avistaram ao longe), nem (muito menos) o tal “novo paraíso”. Era, simplesmente, uma nova oportunidade para tantos recomeçarem a sua vida, depois das dificuldades vividas, seja em Portugal seja noutros cantos do mundo europeu de então. Exigia trabalho árduo, cooperação e entreajuda, e fé para transformar e viver o que inicialmente se apresentava como um paraíso inviolado, disponível para o que dele se quisesse fazer.

Aliás, depois da Ilha foram rapidamente descobertos e acrescentados outros novos mundos — e, sobretudo, o modo humano de viver bem depressa mostrou à evidência que a velhice do pecado e dos hábitos adquiridos se mantinha: não só não era o paraíso, quanto homens e mulheres, quem quer que eles fossem, continuavam a necessitar de Jesus Salvador e da sua redenção.

Creio não errar muito se disser que, uma vez mais, este “novo mundo” da IA não é o inferno que muitos temem nem o paraíso que outros tantos nos querem vender. Será, simplesmente — como o foi o mundo de 400 e 500 — o início de uma nova cultura, a quem nós, cristãos, devemos a obrigação de anunciar o Evangelho, essa Boa Nova de que Deus (esse sim) nos abre a todos em Jesus Cristo um verdadeiro mundo novo, iniciado já neste nosso viver mas que terá a sua forma e o seu conteúdo definitivos apenas no Céu.

Eis que, precisamente, esta nova realidade interroga a fé, questiona o nosso viver, exige novos modos de presença cristã. Que esta nossa jornada possa constituir um contributo, por pequeno que seja, para essa “pastoral da cultura” marcada pelo “algoritmo”, mas sempre centrada no humano. Bom trabalho para todos!


 

D. Nuno Brás da Silva Martins
Bispo do Funchal, Presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais
Saudação de abertura da 19.ª Jornada Nacional da Pastoral da Cultura, 17.1.2026, Fátima
Este texto foi publicado no "Observatório da Cultura" n. 28 (abril 2026)
Imagem: Joana Carneiro | 19.ª Jornada Nacional da Pastoral da Cultura | Fotografia: Rui Jorge Martins
Publicado em 12.04.2026

 

 
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