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Para nos salvarmos do eco-desastre, construamos uma nova arca de Noé

Poderá a narrativa bíblica do dilúvio universal perder os seus contornos de fábula – Noé que constrói a arca, a procissão dos animais que entram lentamente, a destruição da Terra, a violência das águas – para assumir outros, capazes de nos dizer alguma coisa, muito, talvez tudo, sobre o momento histórico que estamos a viver? A pergunta é estranha: poderá a teologia voltar a vestir as roupagens de “ciência interpretativa do mundo”? Teresa Bartolomei, docente e investigadora na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, com o seu livro “Dove abita la luce?” (Onde habita a luz?) (ed. Vita e Pensiero), responde com um sim convicto. O poder que o ser humano adquiriu sobre o mundo – poder de o destruir, como está a fazer, mas também poder de o salvar – permite, para a estudiosa, uma releitura do dilúvio universal que supera a visão tradicional de castigo enviado por Deus (o Deus de Bartolomei não castiga: salva). Já não serve uma entidade superior que desencadeia o dilúvio: agora o ser humano sabe fazer mal e fazer-se mal sozinho. A história de Noé torna-se, então, «um manual de instruções sobre como reparar os estragos após um período tão longo de destruição do ambiente e de aniquilação da relação com a natureza», provocada pelo agir humano, que a pandemia em curso tornou ainda mais dramática nas suas consequências. Como salvar-se? A partir do exemplo de Noé, diz Bartolomei, fazendo da arca «um modelo de civilização alternativo que possa sobreviver ao naufrágio da civilização contemporânea», que esqueceu que «nenhum “contrato social” basta para garantir a sobrevivência do género humano, se não for integrado num “contrato natural” de aliança com a Terra e as suas criaturas».

É uma leitura original, sugestiva, que liga entre elas liberdade e responsabilidade individual, ecologia, salvação e redenção: o cardeal José Tolentino Mendonça, na introdução ao livro, inclina-se a dizer que «conhecer Teresa Bartolomei é um dever».



«Para “ficar de fora” do modelo de vida violento e irresponsável dos seus contemporâneos, Noé teve de fechar-se dentro de uma condição de isolamento espacial, social e existencial»



A estudiosa responde de Lisboa, onde vive há mais de vinte anos, e onde hoje a experiência de autorreclusão para conter a difusão do vírus, «paradoxalmente, aproximou-me de Itália porque, se se está confinado dentro das paredes de casa, não faz grande diferença encontrar-se em Nova Iorque, em Roma ou em Lisboa: os desafios, as oportunidades, os problemas são os mesmos. Por um lado tem-se nas mãos um tempo sem forma, sem calendário. Por outro está-se privado daquele ritmo de entrada e saída, “dentro” e “fora”, que desenha o equilíbrio espacial da nossa liberdade entre deslocação e permanência, entre retração e exposição, entre o ninho e o céu. A intermitência entre estes dois polos é a pulsação biológica e antropológica da vida individual e coletiva, e ser privado de um deles é uma condição de excecionalidade. Mesmo quem a escolhe, como os conventuais, conhece bem as suas insídias: a acídia – a melancolia passiva na qual esmorecem a vitalidade, a vontade de fazer – é a doença mortal de eremitas e conventuais. Os Padres do Deserto dedicaram-lhe páginas memoráveis, que talvez devam ser relidas nestes dias estranhos, em que nos sentimos algo flácidos e perdidos, como Giovanni Drogo na Fortaleza Bastiani do “Deserto dos Tártaros”, de Dino Buzzati».

Não falta, em algumas reflexões em torno a estes dias, uma leitura consequencial desta pandemia como um efeito direto ou colateral da degradação ecológica. «Há quem rejubile com a paragem generalizada da máquina produtiva, da natureza que recupera o fôlego nesta pausa da economia. Eu estou feliz por ver as imagens dos golfinhos no Grande Canal, em Veneza, mas os custos humanos da crise económica que nos espera são incalculáveis. Combater o negacionismo ecológico à Trump não significa abraçar o negacionismo económico, que ignora o preço do decréscimo para as faixas mais fracas da população mundial. Penso que deveríamos reconverter o nosso modo de estar na Terra de um modelo parasitário, de consumo indiscriminado dos recursos naturais, por um modelo simbiótico, que reconhece a interdependência e a conjuga numa verdadeira aliança com a Terra».



Não há necessidade de menos ciência, menos técnica, menos produção, mas antes «de um sistema tecnocientífico e económico que redefina radicalmente as suas prioridades»



A arca, como modelo de civilização alternativo, está em construção? Vê-lhe os sinais? «Até há poucos anos, a preocupação pela ecologia era vista por amplos setores da opinião pública como coisa de ricos. Hoje, da política à comunidade científica, das novas gerações ao papa Francisco – que lhe dedicou uma encíclica, fazendo do tema da ecologia integral uma prioridade moral e espiritual absoluta –, vejo muita gente que não fica de mãos nos bolsos, mas pôs-se a construir a arca, o novo modelo de civilização no qual se deve embarcar a Terra, salvá-la do dilúvio que a arrastará se não pararmos a tempo a degradação “ecocida” do nosso habitat.»

Também o tempo tem uma sugestão: os 40 dias e as 40 noites que Noé e todos aqueles que estavam com ele passaram na arca, segundo a narrativa bíblica, foram necessários para fazer com que «o ser humano mudasse». A autorreclusão como condição de mudança? «Noé, como uma grande fatia da humanidade neste momento, opta por submeter-se à paragem domiciliária para se salvar a si próprio e o futuro da vida sobre a Terra», responde Bartolomei. «Não se trata de uma medida terapêutica, mas de uma experiência de descontinuidade existencial. Para “ficar de fora” do modelo de vida violento e irresponsável dos seus contemporâneos, Noé teve de fechar-se dentro de uma condição de isolamento espacial, social e existencial, e inventar, com a pequena comunidade biológica (seres humanos e animais) que lhe é confiada, um novo modelo de convivência. Neste momento não são só os indivíduos que estão fechados fisicamente em casa, é todo um sistema económico e social, é o modelo de vida da civilização ocidental, com a sua extraordinária potência de liberdade e produtividade, que entrou em quarentena, que ficou suspenso por tempo indeterminado. Quando o nosso mundo reabrir as portas, quando pudermos voltar a pôr os pés na terra firme da normalidade, teremos aprendido a lição?»



Quando sairmos de casa e tivermos de arregaçar as mangas para nos reerguermos das ruinas, individuais e coletivas, seremos capazes de comunidade?



A escolha a fazer, para Bartolomei, não é voltar a formas de economia pré-industriais, inverter o curso da globalização, desmobilizar o aparato técnico e científico. Não há necessidade de menos ciência, menos técnica, menos produção, mas antes «de um sistema tecnocientífico e económico que redefina radicalmente as suas prioridades, assim como a conversão individual a formas de vida purificadas do consumismo desenfreado, capazes de uma sobriedade que respeita o direito de todos à fruição dos bens essenciais. O número 40, o mesmo dos dias do dilúvio, é o algarismo bíblico da penitência e da conversão, da prova e da suspensão da normalidade com vista a um novo início. O pico europeu desta pandemia coincide com o período litúrgico da Quaresma. Ler esta coincidência como uma mensagem de Deus é superstição. Mas o crente, como o não crente, pode acolhê-la como uma chave interpretativa, um convite a viver todo este sofrimento como uma oportunidade de mudança, e não só como uma experiência destrutiva».

Refloresce a ideia de um “destino comum”: qual é este destino? «A quarentena eleva a lei a distância física e social. Todavia, paradoxalmente, esta condição de separação rompe a solidão do nosso destino individual: estamos em casa para salvaguardar não só a nossa vida, mas também a dos outros. A interdependência incarnada pelo contágio torna-se evidência moral, apelo a uma solidariedade que os tempos normais obscurecem na fragmentação das relações, nas dificuldades de comunicar as experiências privadas. Quando sairmos de casa e tivermos de arregaçar as mangas para nos reerguermos das ruinas, individuais e coletivas, seremos capazes de comunidade? Eu creio, e espero, que sim.»


Imagem "A arca de Noé no monte Ararat" | Simon de Myle | 1570

 

Daniela Monti
In Corriere della Sera
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "A arca de Noé no monte Ararat" (det.) | Simon de Myle | 1570
Publicado em 03.04.2020

 

 

 
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