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Leitura: "Pensamentos" de Santa Teresa de Jesus

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Leitura: "Pensamentos" de Santa Teresa de Jesus

Os 500 anos do nascimento de Santa Teresa de Jesus, que se assinalaram este sábado, 28 de março, são o contexto para o lançamento, em Portugal de uma nova obra sobre a religiosa carmelita nascida na cidade espanhola de Ávila.

"Pensamentos", da editora Dom Quixote, é uma antologia de reflexões de Santa Teresa com introdução de José Carlos Seabra Pereira, diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

O livro, de que transcrevemos o prefácio, resulta de uma compilação de Longinos Solana, traduzida por Cristina Rodriguez e Artur Guerra. "Apresentação", "Vida", "Caminho de perfeição", "As moradas", "As fundações", "Meditações sobre os Cânticos" e "Epistolário" constituem os capítulos da obra.

 

"Yo esto he visto por mí" (Prefácio)
José Carlos Seabra Pereira

«Nunca nos conhecemos» – eis um assombro, um lamento e um desafio recorrente em Santa Teresa. Eis-nos agora com a feliz oportunidade de, mediante passos escolhidos da inacomodada e inconformista Mestra de Ávila, com ela tentarmos penetrar mais um pouco na nossa humanidade e no valor divino que havemos de não lhe confiscar!

Ao irmos ao encontro de excertos de uma Santa com tão resplendente aura de Mística e Doutora da Igreja, deve-nos libertar de acanhada retração o sabermos que para ela a verdadeira sabedoria reside apenas em conduzirmos o nosso espírito por duas virtudes cardeais – humildade e obediência – e em acolhermos tudo o mais que é obra do próprio Deus: humildade bastante para obedecermos ao movimento que só a verdade pode imprimir à vontade; e entrega confiante ao Amor providente.

Para todos nós são estes fragmentos daquela Madre, que ao mesmo tempo num vilancico nos convoca a vivermos em atitude alertada –«Ya no durmáis, no durmáis, / pues Dios falta de la tierra.» – e em trova singela mas lapidar nos recomenda «Nada te turbe, / .../ Sólo Dios basta.» Para nós são, pois os podemos ler à luz daquele ditame, que nos desinibe e nos responsabiliza, de que «O proveito da alma não está em pensar muito, mas sim em amar muito.» De resto, «a humildade é o cimento de todo este edifício»…

Como transparece até das cotas de evocação ou reenvio para instâncias de magistério exemplar, é paulina e agostiniana a linhagem de radical experiência cristã que a espiritualidade teresiana adota; e sintomaticamente, creio, apesar da valorização edificante da visão das criaturas, o agostinianismo de Teresa apoia-se menos na noção da natureza vestigial do mundo e mais se apega à apologia de um autoconhecimento propiciatório da descoberta e do encontro de Deus no íntimo da pessoa humana, criada à Sua imagem e semelhança.

Com o coração iluminado pela Beleza que fere, mas que fortalece e guia na superação de outras feridas, arrastadas das circunstâncias, e enfrentando o pesadume que, desde Simone Weil, o nosso tempo entendeu melhor em duelo ou em dueto com a Graça, a alma profunda e clara deixa passar suas lições, suas virtudes e suas mercês, como o cristal que Santa Teresa mais de uma vez chama à função de símile. Então, com María Zambrano compreendemos por que razão a poesia de Santa Teresa quer liminarmente cantar o «Vivo já fora de mim», mais além de si mesma, disposta para o voo em direção Ao que a chama para ser conhecido e mais amado – "y tan alta vida espero"...

Síntese doutrinal e metáfora condutora: «a porta é a oração» ("Livro da Vida", VI, 9). Se o Mistério divino é para Santa Teresa, como para outros místicos, a diferença oculta e apelativa, é a ausência atraente do Amor, em ordem à compreensão e à união, o seu modelo de experiência mística – a sua «via da oração» – quer-se o mais despretensioso e revela-se o mais arrojado. E a maior originalidade da sua obra reside no desvendamento da «verdadeira oração» e dos meios para a ela aceder, através de uma cândida e eficiente linguagem figurada.

Exemplo fulcral desse processo encontramo-lo no discernimento da verdadeira oração e na distinção dos seus graus mediante a imagem desdobrada do horto e da água no "Livro da Vida".

Nessa figuração dos progressos no «vergel da alma humana», que é em verdade o da ação do Senhor na alma que com Sua vontade mais e mais se conforma, o primeiro estádio (tira-se a água do poço à força de braços) é do âmbito do entendimento, cansando-se «a recolher os sentidos» – contributo estimável de letrados e filósofos para avançar no sentido da verdadeira contemplação (que o "Caminho da Perfeição", XIX, 3, também reconhece).

Depois dessa serventia do intelecto, vem-se a tirar água do poço por meio de alcatruzes, num segundo grau de oração em que a vontade se sobrepõe ao intelecto, não para satisfação arbitrária dos anseios pessoais, mas para concentrar energias no que Deus quer.

Só assim se chega à «terceira água», de rio ou fonte derivada, que só exige esforço de encaminhamento para regar esta e aquela planta do «vergel interior»: terceiro grau de oração em que é já mais Deus a operar do que a atividade intelectual e a força de vontade do sujeito orante e em que, embora se julgue aceder «a um glorioso desatino, uma celestial loucura, onde se aprende a verdadeira sabedoria», ainda a memória e a imaginação impedem a concentração plena nos dons da amorosa sabedoria divina.

O «vergel da alma» só será perfeitamente regado pela «quarta água», espargida das nuvens em gotas sobre todo o horto – ação direta de Deus no ser humano, que já nada procura nem pretende: «Por muito que nos pese, vemos que há alguém superior que nos dá estas mercês, pois por nós mesmos não podemos nada de nada»; e, de olhos cerrados para os interesses e bens do mundo, «abertos apenas para a verdade», a alma experimenta nesse quarto grau de oração um arrebatamento de doce padecer, «num voo suave, deleitoso e sem ruído».

Mas, na situada e sitiada condição humana, haverá sempre muitas coisas prontas para «impedir que esta santa liberdade de espírito possa voar até ao seu Fazedor, sem ir carregada de terra e de chumbo». Nem é fácil esta caminhada ascensional pela via da oração, nem a muitas almas será concedido o dom da «oração de quietude» – embora a todos, de modos diferentes, seja proporcionado participar na economia geral da Salvação.

Teresa de Ávila pondera recorrentemente estas asserções e consagra justamente o livro "Caminho de Perfeição" à análise da tensão contínua entre, de um lado, a atividade dos sentidos e da imaginação e, do outro, a vontade e ação de Deus. Foca então as necessárias precauções e exigências no decurso da experiência espiritual; e evidencia três virtudes indissociáveis do acesso à «verdadeira oração», que valem, ao mesmo tempo, como critérios de avaliação da sua autenticidade e de prevenção contra enganosos sucedâneos: a prática do amor ao próximo, o desprendimento das coisas do mundo e a humildade vigilante e prestante.

A apologia desta humildade, que não inquieta nem desassossega a alma (a não ser em que o verdadeiro humilde «anda sempre duvidoso das virtudes próprias» e dá mais valor às que vê no seu próximo), não se restringe em Teresa de Ávila às facetas mais propagadas da piedade apostolada pelo admirado São Francisco. Em tudo imprescindível, como nos é dito numa das habituais imagens teresianas – «Que a humildade fabrique o seu mel como a abelha na colmeia, que sem isto está tudo perdido» –, a humildade é omnímoda, até reinar também nos pontos culminantes da ascensão espiritual, enquanto reconhecimento imperioso de que, mesmo quando extraordinariamente se atinge a verdadeira contemplação, esta é «coisa sobrenatural e muito sem nós o poder adquiri-la».

A contemplação pressupõe que a alma se vota a viver ardentemente numa «sede do eterno, que só se extingue com a água da verdade» e cultiva arduamente o seu «vergel interior», mas – como Teresa frisa através de um dos símiles típicos da sua estratégia estilística de sugestão comunicativa – «assim como não podemos fazer com que amanheça ou anoiteça» também não está nas mãos do nosso desejo, mas só nas da vontade omnisciente e misericordiosa do Senhor, dar a beber à alma a água viva da plenitude amorosa.

Essa água da «pura verdade que tudo inunda », que é vivificante na medida em que oferece sentido à contingente existência e à vulnerabilidade do ser humano, atinge-se na «união de amor» entre a alma e Deus – só figurável como realização exponencial do «amor entre os esposos». Eis porque os escritos de Santa Teresa, a sua pedagogia espiritual e o seu testemunho ascético e místico entregam a iluminação das graças da «união que há entre o esposo e a esposa» não só ao Livro das "Exclamações da Alma a Deus", mas sobretudo aos "Conceitos do Amor de Deus" (no seu ousio de comentário meditado de versículos do Cântico dos Cânticos).

Na tensão forte de autoexigência do valor divino do humano, própria das almas de eleição, que não se acoitam mornamente na banalização do bem, antes se batem na frente das tentações («Não me perturba a alma quando a vejo com grandíssimas tentações, pois se há amor e temor de Nosso Senhor há de sair a ganhar muito, eu sei. E se a vejo andar sempre quieta e sem qualquer guerra, ainda que não a veja a ofender o Senhor, fico sempre com medo»), Teresa de Ávila constitui aqueles escritos em exercícios de oração mística. Todavia, terá depreendido que se impunha dilucidar como o próprio caminho de realização dessa união de amor é exigente, demorado e rico de obstáculos – «um bocadinho mais adiante a cada dia e com fervor; até parece, e assim é, que estamos sempre em guerra e que até haver vitória não deve haver descuido.»

Por consequência, Teresa de Ávila dedica a sua obra-prima de "Moradas ou Castelo Interior" à superior complexidade de análise desse trajeto. Como sintetizou Francisco Vieira Jordão, enquanto ao tratar da «via da oração» Santa Teresa tem em vista mostrar o caminho que leva da exterioridade à interioridade e apontar o que pode ser ofertado contemplativamente pelo Senhor a quem é levado até à «oração de quietude», ao tratar da «união de amor» tem em vista traçar o próprio caminho da interioridade até ao mais recôndito da alma contemplativa, onde celebra o matrimónio místico com o divino Esposo.

Para tal, reconverte a figuração tradicional da alma como castelo ou fortaleza que, como no movimento ascético mas não místico das redondilhas «Sôbolos rios que vão» de Camões, sofrem o assédio dos inimigos da alma e o assalto dos «humanos afeitos» às íntimas disposições de metanoia e conversão, por seu turno socorridas pela oração e pela Graça redentora de Cristo, «grã capitão» a quem o poeta implora que ponha guarnição de defesa; e associa-lhe, além de imagens já exploradas em diferentes escritos, o simbolismo do labirinto, que a alma tem de percorrer para alcançar o aposento do celeste Rei, deixando-se guiar pelo espiritual fio de Ariadne que é o «fio do chamamento divino».

Sempre pronta a surpreender-nos com seu saboroso dizer do sentido do concreto e quotidiano – como quando lhe ocorre que para saborearmos a medula dum palmito temos de extrair as várias coberturas que a escondem –, Teresa de Ávila descreve as sete etapas desse trajeto e as sete moradas que nelas se atravessam.

Primeira, «conhecimento de si mesmo» confrontado com o «conhecimento de Deus»; segunda, «recolhimento e concentração no interior de si mesmo»; terceira, amparo no «temor de Deus», isto é, no edificante temor de O ofender, para superar as dúvidas angustiantes e as sofridas carências de compensações espirituais para as renúncias e o despojamento na aridez do deserto vivencial; quarta, entrada na contemplação de «coisas sobrenaturais», na autêntica experiência mística (e seus efeitos, figurados de novo por recurso a imagens de água).

Na quinta morada vive(-se) o despojamento de tudo o que é somente do sujeito humano, que Deus substitui pelo que tira de si mesmo – como Teresa figura pela imagem desdobrada do casulo e do bicho da seda. De tal modo assim é que, quando a alma «volta a si, de maneira nenhuma pode duvidar que esteve em Deus e Deus nela».

Se aí a alma já está a ser preparada pelo «divino amado» para os esponsais místicos, Deus ainda a detém na sexta morada, para nela despertar não a perigosa melancolia que tantas altas criações suscitava na coetânea arte maneirista, mas a ansiedade pelo momento da entrega total. Por isso a faz experienciar um misto de sofrimento e gozo, na medida em que se debate entre «sua negatividade e ignorância» e a pura positividade da Luz plena.

Finalmente, na sétima morada consuma-se o matrimónio espiritual: no céu do espírito, lugar mais alto e mais fundo da alma (conhecemo-la mal, a nossa própria alma de criatura feita à semelhança de Deus, e «não entendemos os grandes segredos que nela estão contidos»!), a alma une-se totalmente a Deus na mesma água celestial – qual a água da chuva com a do lago ou a do rio com a do mar (continua Teresa a ensinar com seu proverbial estilo de comparações e metáforas).

Entre o espanto e a «ternura» no louvor de Deus, em lugar do risco de aridez ou perturbação interior, reina o deslumbramento do espírito e irradia a Graça em energias de santificação: esquecimento de si mesmo, desejo de passar pelas provações, alegria em tempos de perseguição e dedicação abnegada aos inimigos, desprezo de tudo o que não traga proveito à alma dos outros, afervoramento do desejo de servir a Cristo pelo entendimento de assim O aliviar no sofrimento da Cruz!

***

Importa, entretanto, ter presente que o exemplo teresiano desta elevação ascética e mística vai de par, na existência da santa Madre e na escrita da santa Doutora, com a relação intensa, reativa ou interventiva, com as realidades favoráveis e adversas da circunstância histórica e eclesial, como manifestam com veemência quase todos os seus escritos, em particular o "Livro da Vida", o "Livro das Fundações" e as "Cartas"... e como refratam, por vezes "cum grano salis", certos protocolos de comunicação e até de subrogação do testemunho pessoal, que terá sido levada a adotar para desarmar certas leituras incompreensivas ou para contornar certas atuações censórias.

Sem embargo do apego autêntico à virtude da humildade – constantemente apostolada e compreendida em âmbitos menos habituais do que a corrente leitura da matriz franciscana – e dos repetidos protestos, com acentos de sinceridade, das conscientes limitações de erudição, Teresa não se coíbe de sugestões críticas (ou mesmo de denúncias ético-sociais) e sobretudo de alusões irónicas a atitudes e contradições no seio das sociedades cristãs e das instituições eclesiais. Aspeto curioso surge quando, à contraluz do frequente conselho ao convívio ou audição de bons «letrados» para conferir ideias, aferir depoimentos experienciais, ponderar conjeturas e inferências, Teresa se abre para declarar quanto se previne contra certos «medioletrados» que presumem de personificar o ideal epocal de homem «discreto»… Aliás, numa das "Meditações sobre os Cânticos", que adiante a presente antologia insere, Teresa de Ávila exclama: «Oh, segredos de Deus! Aqui não há senão entregar os nossos entendimentos e pensar que para entender as grandezas de Deus não valem nada. Não como alguns letrados, que querem levar as coisas tanto pela razão e tão medidas pelos seus entendimentos que não parece senão que com as suas letras hão de compreender todas as grandezas de Deus. Se aprendessem um pouco de humildade da Virgem Sacratíssima!»

***

A evocação de episódios bíblicos e a citação de passos lapidares do Antigo e do Novo Testamentos são procedimentos assíduos, mas sempre de pertinência evidente e naturalidade de tom para o leitor, tal o grau de motivação intradiscursiva e tal a harmonização com o ritmo do pensamento. Além dos trabalhos de Jesus e particularmente das penas da Paixão, destaca-se a intencional frequência de, por um lado, o encontro na estrada de Damasco e, por outro lado, a visita de Jesus à casa de Maria e Marta.

O primeiro caso parecerá menos surpreendente, na medida em que avultam as lições a retirar da colação da caminhada ascética, orante e mística, de Teresa e discípulas com a fulgurante epifania e a fenomenologia da conversão e da metanóia.

Já a maneira como se torna recorrente e a importância que ganha a referência compassada ao episódio evangélico talvez surpreenda muitos leitores: além de corrigir a visão habitual de Maria e de matizar o perfil com que ela há de ser inspiradora, Teresa faz questão de, uma e outra vez, ensinar que o modelo de perfeição cristã é ser Marta e Maria, em combinações variáveis das virtudes ativas e contemplativas consoante os dons atribuídos a cada pessoa.

De outro modo, porém, não podia ser, dado que Teresa de Jesus postula o envolvimento de todo o complexo humano (aliás tendencialmente visto segundo uma antropologia triádica de matriz paulina: corpo, alma e espírito) na experiência religiosa e mística, com participação corporal nas tribulações e nos arroubos da alma: «não somos anjos, temos corpo. Querermo-nos fazer anjos estando na terra [...] é desatino.» ("Livro da Vida", 22.10).

Correlato nos parece o partido que, no quadro da fundada convicção de que «por muitos caminhos e vias leva Deus as almas.» ("Livro da Vida",22.2), toma Teresa de Jesus nas disputas entre doutrinários da espiritualidade a favor da contemplação da «sacratíssima Humanidade de Cristo», prevalecendo-se da revelação extática («Tem-me-lo dito o Senhor.»): «E avisam muito que apartem de si toda a imaginação corpórea e se acheguem a contemplar na Divindade; porque, segundo dizem, embora seja a Humanidade de Cristo, embaraça ou impede, nos que já vão tão adiante, a mais perfeita contemplação. [...] mas apartar-se de todo de Cristo e fazer entrar na mesma conta a este divino Corpo com as nossas misérias e com tudo o criado, não o posso sofrer!» ("Livro da Vida", 22.1).

***

É impressionante a conciliação de comunicabilidade aparentemente espontânea com o vigor e o rigor do pensamento, na dissociação de conceitos e na distinção de faculdades cognitivas (memória e fantasia, pensamento e entendimento, etc.), de graus espirituais e de matizes vivenciais, no discernir da verdadeira contemplação e dos enganos que podem tentar confundir a alma, na dilucidação das contraprovas de «obediência e aproveitamento dos próximos» ou, ao invés, de «nos querermos contentar a nós mesmos do que a Deus» ("Livro das Fundações", 5. 4), nas prevenções contra a vertigem irracionalista («Entenda-se, pois, daqui, que tudo aquilo que nos domina de modo a não deixar livre a razão, deve ser tido por suspeito e que nunca, por este meio, se ganhará a liberdade de espírito; e uma das propriedades que esta tem é ver Deus em todas as coisas e em poder pensar nelas» ("Livro das Fundações", 6. 15) … embora os recursos da inteligência confiante sejam meio de caminhada e não meta de realização e, em compensação, se «nem todas as imaginações são capazes, de seu natural, de se aplicar a isto, contudo todas as almas o são para amar» ("Livro das Fundações", 5. 2).

Com essa conciliação coincide a conjugação de efeitos de vivacidade narrativa (que Teresa de Ávila tanto apreciara em jovem nas novelas de cavalaria) e de oralidade expressiva (v.g. exclamação ou interrogação retórica, traduzindo movimentos ascendentes da emoção da alma em tensão espiritual) ou de coloquialidade apelativa, com a elaborada minúcia do discurso fenomenológico, argumentativo e suasório, que discorre por motivações e consequências dos desejos e aspirações, dos obstáculos e riscos, dos incitamentos e das advertências, dos conseguimentos e dos acautelamentos.

O estilo de Teresa torna-se inconfundível e de insofismável acerto na pragmática da sua comunicação verbal – quer se tome esse acerto por intuitivo, quer se considere que os processos que o viabilizam defluem de uma cultivada "ars dicendi", mesmo quando se servem de vocabulário popular e sentenciosismo ancestral. Seja como for, torna-se evidente o recurso, tão eficaz para a elucidação do pensamento recetivo quão sedutor para a sensibilidade estética, ao jogo de comparações e imagens desdobradas, aos estilemas do símile e da metáfora, da alegoria e do símbolo, da exclamação e da interrogação retórica, que nalguns textos em particular – como o das "Exclamações da Alma a Deus" – ainda ganham maior dramatismo dialógico com afluência de antíteses e paradoxos.

Ao mesmo tempo que corresponde à tensão da Esperança na vivência do viver terreno como cárcere ou desterro e na impetração de um Deus que teme se torne "Deus absconditus" («Não vos escondais, Senhor, de mim, pois sabeis minha necessidade e que ela [a Vossa água] é a verdadeira medicina da alma chagada por Vós»), esse estilo permite acentuar a ética e a estética da ternura da alma e da «imensa piedade» de Deus, que abranda a dureza dos corações humanos e premeia os serviços dos que se lhe devotam – de acordo, afinal, com as relações interpessoais no seio da Trindade divina (segundo o extraordinário parágrafo segundo do capítulo 7: «Estas soberanas Pessoas conhecem-se, elas se amam e umas com as outras se deleitam»).

Entre os elementos convocados para essa configuração maneirista do discurso edificante, por uma «pena» tão polissémica como em Camões («Aqui é a pena de ter de voltar a viver. Aqui lhe nasceram as asas para bem voar» – "Livro da Vida", 20. 22), sobressaem o casulo e o bicho da seda, a mariposa e a luz, a água e o fogo, o voo e a navegação, o deserto e a fonte, o cárcere e o desterro, a horta e o castelo (aliás, em oportuno tempo espiritual, «Eis aqui o hortelão feito alcaide.», "Livro da Vida", 20. 22).

Tão assiduamente poética na forma do conteúdo e na forma da expressão da sua prosa testemunhal e reflexiva, epistolográfica e contemplativa, Teresa de Ávila não reservou à escrita de poemas em verso espaço similar ao que lhe coube na obra de São João da Cruz. Devemos, no entanto, ter presente a exígua mas muito indutiva obra em verso que, com acidentada fortuna histórica e editorial, chegou até nós.

Prescindindo da «medida nova» italianista e das correlatas características temático-formais mais patentemente tributárias da cultura renascentista, opta por um desataviado e hábil prolongamento da tradição lírico-dramática peninsular, para explorar os dons expressivos, rítmicos e verbais, da «medida velha» em composições de copla e voltas. Coerente na sua configuração temática e estilística, que tende a eleger a forma dos vilancicos e a encenação pastoril, essa criação poética de Santa Teresa não releva propriamente de um programa literário de escrita de «decires». Obedece quase sempre a outra pragmática – a de versos para serem entoados em singelo cantar, ritmado ao bater das palmas e porventura discretamente dançado pelas freiras da reforma carmelita nas horas de entretenimento da vida conventual, ou em tempos principais do ano litúrgico (em especial em torno da Natividade de Jesus), ou em celebrações de Santos, etc. Numa estratégia literária de singeleza, reconhecidamente distinta da admirada criação poética de São João da Cruz, o breve acervo de poemas de Santa Teresa revela-se todavia excelente realização na simbiose de grácil dicção e de lição evangélica, de encanto sensível e de elevação espiritual – que, desde o limiar de «que muero porque no muero», não abdica de reconverter em canto "ao divino" certos tópicos e motes da lírica amorosa nos cancioneiros profanos.

 

Publicado em 30.03.2015

 

Título: Pensamentos
Autora: Santa Teresa de Jesus
Editora: Dom Quixote
Páginas: 176
Preço: 14,90 €
ISBN: 978-972-205-681-6

 

 
Imagem Capa | D.R.
Com María Zambrano compreendemos por que razão a poesia de Santa Teresa quer liminarmente cantar o «Vivo já fora de mim», mais além de si mesma, disposta para o voo em direção Ao que a chama para ser conhecido e mais amado – "y tan alta vida espero"
A maior originalidade da sua obra reside no desvendamento da «verdadeira oração» e dos meios para a ela aceder, através de uma cândida e eficiente linguagem figurada
Teresa de Ávila consagra o livro "Caminho de Perfeição" à análise da tensão contínua entre, de um lado, a atividade dos sentidos e da imaginação e, do outro, a vontade e ação de Deus. Foca então as necessárias precauções e exigências no decurso da experiência espiritual
A apologia desta humildade, que não inquieta nem desassossega a alma (a não ser em que o verdadeiro humilde «anda sempre duvidoso das virtudes próprias» e dá mais valor às que vê no seu próximo), não se restringe em Teresa de Ávila às facetas mais propagadas da piedade apostolada pelo admirado São Francisco. Em tudo é imprescindível: «Que a humildade fabrique o seu mel como a abelha na colmeia, que sem isto está tudo perdido»
Sabemos que, historicamente, as Igrejas, tal como os Estados, partidos e ideologias, tiveram dificuldades com os artistas, porque de vez em quando eles fazem e dizem coisas que não estavam no programa, e seguem por caminhos que talvez não fossem os mais ortodoxos, ou mais justos, segundo o entender de quem o diz
Essa água da «pura verdade que tudo inunda », que é vivificante na medida em que oferece sentido à contingente existência e à vulnerabilidade do ser humano, atinge-se na «união de amor» entre a alma e Deus – só figurável como realização exponencial do «amor entre os esposos»
Não me perturba a alma quando a vejo com grandíssimas tentações, pois se há amor e temor de Nosso Senhor há de sair a ganhar muito, eu sei. E se a vejo andar sempre quieta e sem qualquer guerra, ainda que não a veja a ofender o Senhor, fico sempre com medo
Entre o espanto e a «ternura» no louvor de Deus, em lugar do risco de aridez ou perturbação interior, reina o deslumbramento do espírito e irradia a Graça em energias de santificação: esquecimento de si mesmo, desejo de passar pelas provações, alegria em tempos de perseguição e dedicação abnegada aos inimigos, desprezo de tudo o que não traga proveito à alma dos outros
Importa, entretanto, ter presente que o exemplo teresiano desta elevação ascética e mística vai de par, na existência da santa Madre e na escrita da santa Doutora, com a relação intensa, reativa ou interventiva, com as realidades favoráveis e adversas da circunstância histórica e eclesial
Teresa não se coíbe de sugestões críticas (ou mesmo de denúncias ético-sociais) e sobretudo de alusões irónicas a atitudes e contradições no seio das sociedades cristãs e das instituições eclesiais
Oh, segredos de Deus! Aqui não há senão entregar os nossos entendimentos e pensar que para entender as grandezas de Deus não valem nada. Não como alguns letrados, que querem levar as coisas tanto pela razão e tão medidas pelos seus entendimentos que não parece senão que com as suas letras hão de compreender todas as grandezas de Deus
A evocação de episódios bíblicos e a citação de passos lapidares do Antigo e do Novo Testamentos são procedimentos assíduos, mas sempre de pertinência evidente e naturalidade de tom para o leitor, tal o grau de motivação intradiscursiva e tal a harmonização com o ritmo do pensamento
É impressionante a conciliação de comunicabilidade aparentemente espontânea com o vigor e o rigor do pensamento, na dissociação de conceitos e na distinção de faculdades cognitivas (memória e fantasia, pensamento e entendimento, etc.), de graus espirituais e de matizes vivenciais, no discernir da verdadeira contemplação e dos enganos que podem tentar confundir a alma
Tão assiduamente poética na forma do conteúdo e na forma da expressão da sua prosa testemunhal e reflexiva, epistolográfica e contemplativa, Teresa de Ávila não reservou à escrita de poemas em verso espaço similar ao que lhe coube na obra de São João da Cruz. Devemos, no entanto, ter presente a exígua mas muito indutiva obra em verso
Numa estratégia literária de singeleza, reconhecidamente distinta da admirada criação poética de São João da Cruz, o breve acervo de poemas de Santa Teresa revela-se excelente realização na simbiose de grácil dicção e de lição evangélica, de encanto sensível e de elevação espiritual
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