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Rumo ao amor, dia 38: Podar

Um mestre ensinou-me a sua arte de ícones, e deu-me o seu laboratório. As primeiras vezes que criei ícones tendia a acrescentar sinais e preencher espaço vazios, enquanto ele me diz «tira, é mais belo, mais simples». Desde então procuro simplificar, e uso este método em qualquer coisa que faço; mesmo quando escrevo esforço-me muito, as poucas palavras nascem depois de ter filtrado e podado as coisas inúteis.

Na sua vida, o mestre que me ensinou treinou-se na poda, como uma planta sabia que depois do botão há a flor, depois o fruto, depois a semente. Por isso tornou-se capaz de deixar as coisas antes que as coisas o deixassem, capaz de tirar para dar espaço a alguma coisa de novo que estava a nascer nele, a poesia.

Este treinamento para a poda tinha produzido nele os seus frutos, que eram a mansidão, a compaixão para todos os seres vivos, a aceitação serena dos inevitáveis sofrimentos e oposições, a capacidade de habitar o ser universal e todavia ser amigo do particular, do detalhe, rebento novo que nasce.

«Não leveis nem alforge, nem bastão, nem sandálias…»

Aprender a viver com leveza, não levando tudo atrás de nós, mas só o essencial, não deixando marcas mas o perfume do vento do Espírito.

Para subir é preciso ser-se leve, livre no andar, doce no estar, mexendo-se com destreza entre luz e escuridão; é preciso fabricar passagens onde há muros, abrir brechas nos obstáculos.

A vida pede-nos para dar espaço como o ar, de escorrer como a água, de tirar o folhelho como o fogo, de renovar-se como a terra, de deixar vir e passar continuamente em nós a vitalidade.



Podar, para os agricultores, é uma arte, porque te faz decidir sobre o futuro de uma planta, tens de decidir onde podar tendo em mente a situação presente e o seu futuro. Podar os ramos velhos que sufocam para permitir ao novo que nasça



«A mulher esvaziou o frasco e derramou o perfume sobre a cabeça de Jesus. Alguns dos presentes, escandalizados, murmuravam entre eles: Porquê todo este desperdício de perfume?»

Gosto dos gestos corajosos e irregulares da mulher que esvazia o fraco do óleo, de Zaqueu que sobre à árvore, e de Pedro que se lança ao lago para chegar mais depressa à margem, este romper uma forma definida para abrir-se a uma outra.

Quando nos sentimos sufocar, usamos as poucas forças que temos para nos reequilibrarmos, mas o problema não é tanto encontrar um mínimo de estabilidade para viver, porque o equilíbrio é gélido, e tornar-se dono de si é pouca coisa. Hoje, o ponto é saber voltar à fonte da vida e coloca-la de novo em movimento, porque sem o cuidado e a proteção da fonte da vida não há aquele húmus-terra-atmosfera que propicia o florir.

O jardim deves cultiva-lo, limpá-lo, roçá-lo, mas antes de tudo corar, tirar, quer antes de semear quer durante o crescimento da planta. Podam-se as plantas para que o velho e aquilo que sufoca impeça os rebentos de apanhar luz e vida.

Podar, para os agricultores, é uma arte, porque te faz decidir sobre o futuro de uma planta, tens de decidir onde podar tendo em mente a situação presente e o seu futuro. Podar os ramos velhos que sufocam para permitir ao novo que nasça.

Podar é difícil porque adquirimos muitos hábitos, sentimos a necessidade de ir mais além, mas a nossa natureza resiste, não quer mudar a forma adquirida. O novo nasce do romper-podar as coisas e os gestos, o tempo e as palavras, para regenerar-se, porque a vida só amadurece quando aceita ser podada.


 

Luigi Verdi
In Il domani avrà i tuoi occhi, ed. Romena
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Leonid Eremeychuk/Bigstock.com
Publicado em 04.04.2020

 

 
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