Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Poesia e beleza voltam a marcar retiro quaresmal do papa

Depois do P. José Tolentino Mendonça no retiro quaresmal do papa e da cúria romana de 2018, a poesia volta a ter lugar de relevo nos exercícios espirituais de Francisco que marcam o início da Quaresma.

Bernardo Gianni, abade de San Miniato al Monte, em Florência, Itália, foi o escolhido pelo papa para pregar o retiro, e tal como aconteceu em 2018, o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura, teve papel decisivo, ao sondar a disponibilidade do monge, antes do telefonema de Francisco, no início de janeiro.

O retiro, que como nos anteriores decorre em Ariccia, próximo do Vaticano, entre domingo e sexta-feira, tem como fio condutor um verso do poeta italiano Mario Luzi (1914-2005), «a cidade dos ardentes desejos», extraído do poema “Estamos aqui para isto”, que em 1977 dedicou à abadia de San Miniato, que está a celebrar mil anos.

«Estou convencido de que a poesia tem uma notável capacidade evocativa, e é caracterizada por um imprescindível revestimento estético», declarou o religioso beneditino de 51 anos, abade há quatro.



«Sei por experiência direta o que comporta viver sem a fé, talvez radicando a existência em esperanças que não são tão confiáveis como a Páscoa de Jesus. Nós, monges, somos chamados a ter sempre a porta aberta»



«O papa Francisco fala muitas vezes de beleza. Por isso confiar-me-ei a uma poesia que julgo ser bela e que se detém sobre uma cidade, Florença, que considero bela não segundo uma perspetiva turística, mas com base na sua adesão ao Evangelho», afirmou ao jornal “Avvenire”.

A reflexão sobre o meio urbano estará no centro das 10 pregações: «Vivendo num mosteiro sobre o monte que se estende para Deus mas também para a “polis”, julgo que é particularmente estimulante pensar sobre os desafios que esperam uma cidade».

«É verdade que Florença não é uma metrópole sul-americana ou asiática, mas ainda assim representa um nó de culturas e contradições. Tudo isto interroga a missão da Igreja, para a qual olharei a partir da experiência que vivo diariamente, e que é articulada pela oração, pela vida comunitária, pelo acolhimento, pelo trabalho, ou seja, pelas dimensões típicas da tradição monástica que considero declináveis também numa cidade», sublinhou.

Outra fonte de inspiração do monge serão os escritos do político italiano Giorgio La Pira (1904-1977), antigo presidente da câmara municipal de Florença e declarado venerável pela Igreja católica.



A proposta do abade para a Quaresma é viver «de maneira que nada seja inútil e que tudo se torne sinal de Deus», o que implica perceber aquilo que é «verdadeiramente essencial», e portanto, «mais sobriedade, mais partilha»



«Uma das primeiras meditações será dedicada ao sonho de La Pira para compreender o que significa ter uma expetativa evangélica sobre a cidade. De resto, o sonho é um dos instrumentos que Deus usa na Bíblia para dialogar com o homem. E é também um elemento que está no coração do papa», assinalou.

A necessidade de uma Igreja em saída, à procura dos não crentes, vincada pelo ensinamento do papa Francisco, cruza-se com a biografia de Bernardo Gianni, que andou longe da Igreja, que se converteu e que viu nascer o chamamento para a vida religiosa numa noite de Natal.

«Sei por experiência direta o que comporta viver sem a fé, talvez radicando a existência em esperanças que não são tão confiáveis como a Páscoa de Jesus. Nós, monges, somos chamados a ter sempre a porta aberta. E San Miniato é uma “porta do céu” para as muitas pessoas que sobem o monte, talvez atraídas pela beleza, mas que podem intuir serem procuradas por Deus», apontou.

A proposta do abade para a Quaresma é viver «de maneira que nada seja inútil e que tudo se torne sinal de Deus», o que implica perceber aquilo que é «verdadeiramente essencial», e portanto, «mais sobriedade, mais partilha».


 

Giacomo Gambassi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 05.03.2019

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos