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Poesia, teatro: A arte nos dias da pandemia

Dia Mundial da Poesia, 21 de março, Dia Mundial do Teatro, 27 de março. Duas datas para festejar a literatura que se exprime através de poetas, escritores, dramaturgos, encenadores, atores. Hoje, no entanto, enquanto andamos às voltas com a emergência da pandemia, teremos tempo para perder com a arte? Nestes dias, talvez tanto como nunca.

Podemos dizer que a arte nasce do contragolpe que alguns, dotados de sensibilidade e talento particulares, manifestam ao percecionar uma desproporção entre o seu ser e aquilo que veem acontecer à sua volta. É o verificar-se de um fenómeno que rejeita a sincronia entre o normal fluir das coisas. Pode ocorrer por um excesso de positividade ou de negatividade.

Uma das maiores obras da literatura mundial, várias vezes citadas pelos papas, “A divina comédia”, de Dante, e que da literatura foi adaptada ao teatro – encenada em novembro no Teatro Nacional D. Maria II, pel’O Bando, nasceu da privação de uma sobreabundância antes recebida.

A arte pode parecer perdida no tempo, mas ao contrário oferece a possibilidade de caminhar, juntos, mais rapidamente, em direção ao centro das questões vitais. O primeiro movimento que é preciso fazer para começar a compreender todo o trabalho artístico é identificar-se com o outro que me está a falar. Dispor-se ao diálogo sem por resistência. A arte é uma relação.



Nestes dias de desorientação por aquilo que estamos a enfrentar, surpreende como nas redes sociais, no WhatsApp ou mediante outros canais sentimos a necessidade de partilhar com amigos e familiares pinturas, poesias, canções, muitas vezes associando-as umas às outras



Há, depois, um aspeto pelo qual toda a arte é fundamental para o ser humano. Mostra-o a poetisa russa Anna Achmatova na narrativa de um episódio da sua vida: «Nos terríveis anos da “ežovščina” [depuração estalinista] passei dezassete meses a pôr-me na fila para os cárceres de Leninegrado. Uma vez, alguém me reconheceu. Então, uma mulher de lábios azulados que estava atrás de mim, e que, certamente, nunca tinha ouvido o meu nome, despertou do torpor próprio a todos nós, e perguntou-me ao ouvido (ali todos falavam em sussurro): “A senhora pode descrever isto?”. E eu disse: “Posso”. Então, uma espécie de sorriso deslizou por aquilo que antes tinha sido o seu rosto».

A arte é uma lente poderosíssima para olhar e dar nome inclusive àquilo que nome, aparentemente, não tem, àquilo que por vezes parece negar todo o significado. Fá-lo por meio da invenção de linguagens insólitas. Recorre-se à poesia quando as palavras habituais já não chegam, porque a realidade escapa à prisão do já sabido. A realidade está em contínuo devir, nomeá-la e renomeá-la é qualquer coisa que tem a ver com o início da humanidade: para a tradição judaico-cristã, Deus cria o ser humano à sua imagem e semelhança, e dá-lhe o poder de dar o nome às coisas. Por isso, nomear o mundo reporta-nos à nossa origem e à relação com quem nos fez. A arte é um movimento de re-conhecimento.

Há um terceiro aspeto pelo qual a arte tem um valor, além de antropológico e espiritual, social: o de acompanhar os seres humanos. Nestes dias de desorientação por aquilo que estamos a enfrentar, surpreende como nas redes sociais, no WhatsApp ou mediante outros canais sentimos a necessidade de partilhar com amigos e familiares pinturas, poesias, canções, muitas vezes associando-as umas às outras. É um reflexo incondicionado pelo qual, mesmo perante o mal, a alma procura a beleza. Obviamente, pode entender-se isto como puro entretenimento em si mesmo, mas o dado que sensibiliza antes de tudo é como tantas pessoas especificaram na arte um apelo para resistir à desorientação. Andamos à procura de palavras e cores que possam descrever os sentimentos que habitam os nossos dias. Sentimos que tínhamos de procurar os versos de quem, tendo sido encontrados antes de nós numa situação de dificuldade, nos pudessem oferecer consolação e esperança.

Vendo tudo isto, ocorre-me uma cena acontecida há muitos anos. Um comboio avança na estepe siberiana, nos vagões as pessoas são amontoadas como animais, na sujidade, ao frio, na fome. Dentro de um dos vagões, um homem procura, como pode, fazer-se próximo dos companheiros: recita os versos de um poeta que viveu há seis séculos. O homem naquele comboio chama-se Osip Mandel’štam, é um dos maiores poetas do século XX, e está a redizer, naquela circunstância infernal para onde foram precipitados, a “Divina comédia”. Não há de chegar ao destino, morrerá de exaustão num campo de trânsito próximo de Vladivostoque. A sua lição, no entanto, chega até nós, e diz-nos que de poesia, hoje, temos muita necessidade.

A Mensagem do Instituto Internacional do Teatro para o Dia Mundial do Teatro é reproduzida, no vídeo seguinte, pelo corpo do Teatro Académico da Universidade de Lisboa, que tem como encenador o dramaturgo Júlio Martin. O filme foi produzido a partir de contributos individuais realizados a partir das casas dos intervenientes.








 

A partir de texto de Alessandro Vergni
In L'Osservatore Romano
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Livraria do Teatro Nacional D. Maria II, Lisboa
Publicado em 27.03.2020

 

 
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