Cardeal Bergoglio, papa Francisco
«Porque buscais entre os mortos Aquele que está vivo?»: uma pergunta de dois mil anos que chega até hoje
«No primeiro dia da semana, ao romper da manhã, as mulheres que tinham vindo com Jesus da Galileia foram ao sepulcro, levando os perfumes que tinham preparado. Encontraram a pedra do sepulcro removida e, ao entrarem, não acharam o corpo do Senhor Jesus. Estando elas perplexas com o sucedido, apareceram-lhes dois homens com vestes resplandecentes. Ficaram amedrontadas e inclinaram o rosto para o chão, enquanto eles lhes diziam: «Porque buscais entre os mortos Aquele que está vivo? Não está aqui: ressuscitou. Lembrai-vos como Ele vos falou, quando ainda estava na Galileia: ‘O Filho do homem tem de ser entregue às mãos dos pecadores, tem de ser crucificado e ressuscitar ao terceiro dia’». Elas lembraram-se então das palavras de Jesus. Voltando do sepulcro, foram contar tudo isto aos Onze, bem como a todos os outros. (...) Mas tais palavras pareciam-lhes um desvario e não acreditaram nelas. Entretanto, Pedro pôs-se a caminho e correu ao sepulcro. Debruçando-se, viu apenas as ligaduras e voltou para casa admirado com o que tinha sucedido.» (Lucas 24, do Evangelho da Vigília Pascal, ano C)
Este relato que acabámos de escutar repetia-se todos os domingos nas primeiras comunidades cristãs. Os crentes recordavam-se mutuamente a história dessa manhã de Páscoa. Uma manhã movimentada, com idas e vindas, com sentimentos encontrados. Uma manhã de tremor: houve um abalo de terra e abalaram-se os corações com o desconcerto, o temor, a dúvida, a perplexidade. As mulheres que foram ao sepulcro tiveram medo; os discípulos soçobraram. Dois deles, porque não queriam mais confusões, fugiram para Emaús. No meio deste tumulto interior e exterior, de idas e vindas, aparece Jesus, vivo, ressuscitado, e tudo adquire um ambiente de paz, de gozo e de alegria. O Senhor «não está aqui, ressuscitou», tinham dito os anjos às mulheres... e finalmente viram-no.
O que se passaria no coração destas mulheres e dos discípulos? Queria deter-me num detalhe que acabámos de escutar: «Pedro pôs-se a caminho e correu ao sepulcro. Debruçando-se, viu apenas as ligaduras e voltou para casa admirado com o que tinha sucedido». Não se ficou pelos comentários e as dúvidas; decidido, foi a correr ver o que se passava... e admirou-se. O seu coração pressentiu e começou a saborear o assombro característico do encontro com o Senhor, esse sentimento que é uma mescla de admiração, gozo e adoração que Deus nos presenteia quando se aproxima. Pedro deixa-se levar pelo anúncio e abre-se ao que, todavia, não entende. Tinha muitas outras possibilidades de situar-se perante os acontecimentos dessa manhã, mas escolheu o caminho direto, objetivo: ir ver. Não se deixa enganar pelo microclima que se levantou quando chegaram as mulheres. Anunciava-se a Vida... e ele corre para as periferias da morte, mas não se fica por ali, encerrado no ambiente sepulcral, mas, admirado, com assombro, regressa. Com a sua atitude complementa a advertência dos anjos às mulheres: «Porque buscais entre os mortos Aquele que está vivo?». Não se deixa aprisionar pelo vazio do sepulcro.
«Porque buscais entre os mortos Aquele que está vivo?» No meio de todas as circunstâncias e sentimentos daquela manhã, a frase é um marco na história, projeta-se para a Igreja de todos os tempos e assinala uma divisão entre as pessoas: as que optam pelo sepulcro, os que nele continuam à procura, e os que, como Pedro, abrem o coração à vida no meio da Vida. E quantas vezes, no nosso quotidiano, precisamos de ser sacudidos e interrogados: «Porque buscais entre os mortos Aquele que está vivo?». Quantas vezes precisamos que esta frase nos resgate da desesperança e da morte!
Precisamos que esta frase nos seja gritada cada vez que, presos em qualquer forma de egoísmo, pretendemos saciar-nos com a água estagnada da autosatisfação. Precisamos que ela nos seja gritada quando, seduzidos pelo poder terreno que se nos oferece claudicando os valores humanos e cristãos, nos embriagamos com o vinho da idolatria de nós mesmos que só pode prometer-nos um futuro sepulcral. Precisamos que alguém nos grite essa frase nos momentos em que colocamos a nossa esperança nas vanidades mundanas, no dinheiro, na fama, e nos vestimos com o fátuo resplendor do orgulho. Precisamos que essas palavras nos sejam gritadas hoje, no meio do nosso povo e da nossa cultura, para que nos abramos ao Único que dá vida, ao Único que pode provocar em nós o assombro esperançado do encontro, ao Único que não distorce realidades, que não vende mentiras mas que nos oferece verdades. Quantas vezes temos necessidade de que a ternura maternal de Maria nos sussurre, como que preparando o caminho, esta frase vitoriosa e de profunda estratégia cristã: Filho, não procures entre os mortos aquele que está vivo!
Hoje, noite de Páscoa, precisamos que nos seja anunciada fortemente esta palavra e que o nosso coração débil e pecador se abra à admiração e ao assombro do encontro, e possamos escutar dos lábios dEle a reconfortante palavra: «Não temas, sou eu».
Card. Jorge Bergoglio (papa Francisco)
Vigília Pascal, 2007
In El verdadero poder es el servicio, ed. Claretianas
11.04.13
Foto: News.va
Cardeal Jorge Bergoglio, papa Francisco: «Não esperes ser amado, ama primeiro»
Cardeal Jorge Bergoglio, papa Francisco: O pior que nos pode acontecer é optarmos pelo desalento








