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Porque filmei a fábrica da oração

No decurso da minha carreira de cineasta da cultura laica, dediquei três filmes a S. Francisco de Assis (em 1966, 1989 e 2014) porque fui sempre fascinada pela sua figura de intelectual gigantesco e imprevisível, profundamente livre, símbolo da mudança, não por acaso colocado no Paraíso pelo sumo poeta Dante Alighieri. Em 2012, porém, realizei o documentário “Clarisse” e, encontrando-me tu a tu com um grupo de monjas de clausura, mergulhei-me num mundo que não conhecia, descobrindo-o centrado na importância da oração, na consciência da fé, no sentido profundo da fraternidade.

As protagonistas do documentário são 10 irmãs e três noviças do mosteiro de Santa Clara de Urbino [Itália]. O meu encontro com elas nasce quase por acaso. A cada ano, no Natal e na Páscoa, daquele convento chegava-me um bilhete que dizia: «Rezamos por si». Um dom não pedido, mas agradecido, capaz de alimentar a minha curiosidade: queria saber como viveriam nos nossos dias e o que pensariam as pertencentes àquela comunidade nascida com Clara de Assis, que em 1212 deixou a família para seguir a Fraternidade de Francisco.

Assim, em 2011, convidada a falar de mulheres e Igreja num convénio da Conferência Episcopal Italiana, “Cristo nosso contemporâneo”, decidi exprimir-me através da linguagem que me é mais congénita, o cinema, levando a câmara precisamente para dentro do mosteiro. Apresentei-me, fui acolhida muito calorosamente, e recebi da superiora a permissão para filmar o meu encontro com as monjas. Era dezembro, e a neve criava uma sugestiva cenografia natural, enquanto eu interrogava aquelas mulheres consagradas, dispostas em semicírculo como num coletivo feminista.

O que mais me tocou foi a inteligência e a preparação das minhas interlocutoras sobre tudo, apesar do isolamento. Tinham, além disso, a capacidade de traduzir em palavras simples as mais complexas questões teológicas, e estavam plenamente conscientes da sua opção: o que as motivava, revelaram-me, era o desejo de rezar para melhorar as condições do mundo em nome da fraternidade que dava um sentido à sua vida.

«A oração é o nosso trabalho», explicaram-me com naturalidade. Admitiram depois que as crises vocacionais não eram pouco frequentes. E à minha pergunta se a Igreja é misógina, porque governada por homens, responderam que gostariam de contar mais. Perguntei-lhes depois: se por um dia as vossas orações faltassem, a “contabilidade mística” dos seres humanos ressentir-se-ia? Replicaram, convictamente, que faltaria a sua presença espiritual em muitos acontecimentos do mundo, e as coisas ficariam piores.

O documentário, premiado na Mostra de Cinema de Veneza, deixou-me a memória de uma experiência irrepetível, e fez-me compreender quanto importante são as irmãs de clausura: a sua “fábrica da oração” serve a todos nós.


 

Liliana Cavani
Cineasta
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Clarisse" | D.R.
Publicado em 28.01.2020

 

 
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