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5.º Prémio Internacional de Arquitetura Sacra Frate Sole: algumas notas

1. Nos passados dias 17 e 18 de maio, reuniu-se em Pavia o júri do V Prémio Internacional de Arquitetura Sacra – Frate Sole. Dos 116 projetos candidatos, vindos de 30 países diferentes, apenas 11 chegaram à fase final, dentre os quais se atribuiu o Primeiro Prémio à capela de retiro, em Auco, no Chile, do arquiteto Cristian Undurraga. A igreja de Santo António, em Portalegre, de João Luís Carrilho da Graça, recebeu o Segundo Prémio, e a intervenção do atelier x2 architettura, na igreja de S. Floriano, em Gavassa, Itália, o Terceiro. Foram ainda assinaladas pelo júri, três obras: duas em Espanha - igreja do Bom Pastor, em Ponferrada, de Ignacio Vicens e José Ramos, e igreja de São Jorge, em Pamplona, de Fernando Tabuenca e Jesús Leache -, e o Dominikuszentrum, em Munique, Alemanha, de Andreas Meck.

2. O trabalho vencedor corresponde à capela de apoio à casa de hóspedes do mosteiro carmelita de Auco, junto ao santuário de Santa Teresa de Los Andes. Perante um programa singular, a arquitetura procurou respeitar o silêncio e recolhimento desejados pelos peregrinos em retiro, e criou um espaço de penumbra que convida à descoberta da sua interioridade mais profunda, apelo que foi plasticamente intensificado pela escavação e implantação da capela a um nível inferior à superfície. Formalmente simples – quatro vigas paralelas duas a duas e dispostas em cruz – o volume construído procurou referências na história da arquitetura religiosa mundial, tendo sido particularmente influenciado pela igreja etíope de São Jorge, em Lalibela.

FotoCapela de Auco

3. A igreja de Santo António, em Portalegre e as três menções são obras da mesma família arquitetónica, pelo que partilham não só a função – igreja paroquial -, mas também a forma. Tectonicamente, os quatro projetos recorrem, deste modo, a uma expressão plástica que se exprime através de planos puros e bem definidos, construtores de volumes que encerram pátios semipúblicos, orientados por plantas e alçados desenhados ortogonalmente a régua e esquadro, traduzindo uma linguagem que se tem afirmado nas duas últimas décadas, com vários casos de sucesso. Em termos litúrgicos, pelo contrário, constata-se que não se encontra repetição entre as quatro igrejas, tendo cada uma das soluções elaborado a sua proposta espacial, que interessa assim analisar e comparar com atenção, porque “«uma celebração da Missa em diferentes espaços, mesmo usando os mesmos textos, pode veicular mensagens completamente diferentes.

Foto Igreja de Santo António, Portalegre

Os participantes, independentemente dos mesmos acontecimentos objetivos, têm uma vivência totalmente diferente da celebração eucarística, segundo participem numa celebração cuja forma externa se assemelhe à disposição de um autocarro (todos sentados atrás uns dos outros voltados na mesma direção, devendo-se falar o menos possível com o condutor), ou se estiverem sentados num pequeno círculo ao redor de uma mesa. Daqui se deduz que a organização do espaço litúrgico plasma a fé de forma decisiva. Ela pode conduzir ao centro do mistério, pode dispersar noutras direções ou pode mesmo impedir o acesso.» (Klemens Richter, Espaços de igrejas e imagens de Igreja”, Gráfica de Coimbra, 1998, p.18)

FotoIgreja de S. Jorge, Pamplona

FotoIgreja de S. Jorge, Pamplona

Pamplona apresenta a organização interior mais conservadora, e separa a assembleia - disposta longitudinalmente face ao altar - do presbitério posicionado de um modo teatral num largo palanque elevado sete degraus. Portalegre tenta conscientemente eliminar esta divisão e afastamento - que convida mais à assistência passiva que à participação ativa -, ao minimizar distâncias e níveis, para criar um espaço menos hierarquizado e mais unificado, apesar de manter a longitudinalidade da assembleia. Ponferrada recorre ao modelo criado pelo movimento litúrgico alemão há pouco mais de meio século, com altar avançado e rodeado por três lados pela assembleia distribuída em T, esquema adotado repetidamente, na área germânica, pelos seus contributos para o fortalecimento das comunidades. Curiosamente, Munique reflete um novo passo, que procura ir mais além deste modelo, com vista a uma tradução espacial mais clara do espírito conciliar, concretizada aqui numa disposição da assembleia batizada por teólogos alemães de “Communio-Räume”, que convida a uma grande dinâmica, participação e vivência da liturgia, numa comunhão mais intensa, física e espiritualmente.

FotoIgreja do Bom Pastor, Ponferrada

FotoIgreja do Bom Pastor, Ponferrada

4. O terceiro classificado – ampliação da igreja de S. Floriano, em Gavassa, Itália -, nasceu da vontade de se restaurar a igreja existente sem a musealizar, mas também do desejo de se conseguir melhorar as condições de participação dos fiéis, bem como de se aumentar o número de lugares disponíveis, sem se construir uma segunda igreja. A solução, sensata quer em termos afetivos quer económicos, e perfeitamente justificada histórica e liturgicamente, concretizou-se sob a forma de uma ampliação lateral da pequena igreja, onde se criou um novo espaço para a liturgia organizado de acordo com um esquema que, ao contribuir para uma comunidade mais participativa e consciente de si mesma, procura ser mais fiel ao espírito do Concílio Vaticano II, seguindo os passos dados em Munique.

FotoIgreja de S. Floriano, Gavassa

FotoIgreja de S. Floriano, Gavassa

A nível das opções arquitetónicas, esta obra faz recordar, positivamente, a qualidade e economia das intervenções concretizadas pelo Secretariado das Novas Igrejas do Patriarcado, nas igrejas de São João Batista, Runa, Torres Vedras (1975) e de Nossa Senhora da Ajuda e S. Lourenço, Ramalhal, Torres Vedras (1983). Em sentido oposto, leva-nos a questionar as decisões construtivas e litúrgicas da nova igreja de Nossa Senhora das Necessidades, Chãs, Leiria, das arquitetas Célia Faria e Inês Cortesão, construída a poucos metros da velha igreja, sem significativos ganhos eclesiológicos.

FotoDominikuszentrum

FotoDominikuszentrum

 

João Alves da Cunha
Arquiteto
Grupo de Arquitetura do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura
© SNPC | 18.06.12

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